Com a ponta dos dedos – Paula Giannini

Dessa forma aprendeu a descobrir o mundo desde pequena. Gostava de passar a mão na superfície lisa da mesa e subir os dedinhos pela borda do prato até circundá-lo por inteiro. Só então metia o indicador para sentir a temperatura da sopa e procurar dentro do caldo as letrinhas de macarrão acrescentadas à janta pela mãe.

Mãe! M… A… E…

– Cadê o til? –  . Não havia. E sem til, mãe não era mãe, mas mae.

E mae não era uma palavra. Mae não significava nada, e assim a sopa não tinha graça. Palavra que, aliás, também não havia, já que o fabricante da massa se esquecera de acrescentar cedilha ao C…

Não.

Se recusava a comer, batendo na mesa com a ponta dos dedos. Mas logo eles viravam bonequinho a caminhar sobre a toalha, saltando talheres e topando sem querer com o pedaço de pão estrategicamente posicionado ao lado do guardanapo, a fim de ser mergulhado na comida.

Não, pão, sopa de feijão. Tudo parecia ter til… E os esforços da mãe seriam inúteis até que a menina retirasse o miolo do baguetinho e com ele fizesse uma bolinha, duas, três…

Com a ponta dos dedos.

A bolinha logo virava minhoca e pronto. A ideia de um til de massinha de pão completava a tão amada palavra.

Mãe.

Agora a menina sorria, já sondando o copo de suco para pescar o gelinho em formato de coração.     

– O coração da gente é gelado? – Não esperava a resposta. Engolia o gelo de uma só vez, sentindo o frio doer até o estômago, fazendo uma careta.

– Agora é… – A mãe meneava a cabeça, limpando as mãos da pequena que já procuravam outro motivo para brincadeira.

Letras. Era disso que a menina gostava mais. E agarrando o surrado livro de cabeceira, fazia beicinho prometendo dormir após o final da tão esperada história de todas as noites.

Sempre a mesma. 

– Quer ver como sei ler?! – Sorria, recitando de cabeça a história repetida à exaustão em um livro que não podia ler. – Quando eu for para a escola vou poder ler, não é, mamãe?

E sonhava com um mundo de sons e fantasias, onde letras dançavam em círculos, em um carrossel de músicas e brincadeiras.

Bolinhas. Era disso que a menina gostava mais. Era disso que gostava muito –  depois das letras, é claro. Porque, com bolinhas, a mãe bordara o vestido azul, que ela adorava usar desde o dia em que ouvira a avó dizer que combinava com seus olhos. E, por causa destas, do mesmo modo, podia-se saber que a toalha com cheiro de lavanda e sabonete era só sua.

Bolinhas. Eram elas que marcavam o corrimão da escada como pequenos buraquinhos que a menina percorria um a um, com dedinhos muito atentos para não perder a conta. E era nos pequenos círculos, igualmente, que ela aprendera, orgulhosa, a colocar o cadarço do tênis, fazendo questão de atar sozinha o laço. Jamais um nó.

– A letra O é uma bolinha. – Explicou, fascinada, à professora que agora guiava delicadamente a ponta de seu indicador até a folha de papel. E estremeceu ao sentir que a vogal era, na verdade, representada por três bolinhas em forma de triângulo, protuberantes no papel. Algo muito diferente daquilo que aprendera com suas letrinhas de macarrão.

– Esse é um alfabeto diferente.

E acreditou naquilo que a professora explicava com a voz firme e segura, pelo simples fato de já ter pressentido ser ela, menina, também diferente. Sentira a tal estranheza no dia em que a nova amiga lhe disse que era linda, sem precisar tocar seu o rosto.

Diferente. 

A menina gostou de ser assim.

Sentiu o coração aquecer ao saber que, em braile, o til não era um acessório separado de todas as outras letras, mas as transformava em mais (ou menos) protuberâncias, de acordo com a vogal que acompanhasse. Mãe nunca mais seria mae em seu dicionário de amor e bolinhas.

Naquela noite, a menina suspirou, aliviada, ao estender a mão até a cabeceira de sua cama e sentir um livro cheio de pequeninas bolas.

Finalmente pode ler sozinha o título de seu livro preferido.

E assim ela fez…

Com a ponta dos dedos. 

***

Este conto faz parte do Livro Pequenas Mortes Cotidianas- Editora Oito e Meio.

10 comentários em “Com a ponta dos dedos – Paula Giannini

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  1. Um conto com uma sensibilidade incrível……….bonito de ler……….a estrutura de parágrafos curtos com orações objetivas dita o ritmo de um prazer natural, fruto de uma fruição suave e harmoniosa…………como se o leitor estivesse descobrindo as bolinhas………a participação do narrador ao longo do conto é bastante leve e sutil, o que favorece todas estas sensações……….com exceção das três últimas frases (“Finalmente pode ler sozinha o título de seu livro preferido.; E assim ela fez…; Com a ponta dos dedos.”)…………o “finalmente” tornou tudo que veio antes pedagogizante, a intervenção incisiva do narrador que tenta enfatizar uma mensagem (muito legítima, nesse caso) torna ela (a mensagem) algo imperativo, que não a eleva, mas a diminui, criando um atalho para a fruição do narrador que pode deturpar a própria mensagem, a colocando como uma imposição que oprime qualquer outra interpretação……..enfim…………o imagem do final, da personagem sentindo o livro (a cultura, a leitura, a história) de forma tátil \ física é linda, mas a descrição da cena me incomodou um pouco……………

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    1. Olá, Obrigada pela leitura.
      Esse conto faz parte do Livro Pequenas Mortes Cotidianas e assim está publicado pela Editora Oito e Meio. Então… Já são águas passadas… rsrsrs
      Ainda assim, obrigada pelas reflexões e pela leitura atenta.
      Beijos
      Paula Giannini

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  2. Já conhecia este conto do seu livro lindo (que eu tenho, glória a deux!) mas é sempre um prazer ler de novo e me deleitar com os detalhes tão cheios de sensibilidade e inocência, detalhes que nos encantam e nos convencem que a literatura pode chegar a patamares de emotividade muito maiores do que o que encontramos na maioria dos contos que lemos.

    Seu conto é sensacional e meigo ao mesmo tempo.

    Um abraço

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      1. Não consegui responder ao seu comentário no meu presságio porque foi postado como resposta ao comentário da Juliana, mas fica aqui registrado o meu agradecimento, beijos

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  3. Olá, Paula!
    Já conhecia o conto do seu livro maravilhoso. O que me encanta nas suas histórias é a sensibilidade com que você expõe cada elemento da narrativa: o personagem, a situação, o clímax etc que vai nos enlaçando do início e a gente vai se deixando levar por sua delicadeza até o desfecho impactante. Quanta beleza existe na ponta dos dedos, que pode passar despercebida a tantos, mas nunca às pessoas de sutileza. texto, fluido, mensagem tocante, um primor que é sua marca registrada. Parabéns!

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  4. eu já amei esse conto da primeira vez que li. É apaixonante a maneira como vc consegue se colocar no ponto de vista dos personagens mais inusitados. sua alma de atriz brilha junto com a da escritora neste conto! Eu amo!

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  5. Além do seu estilo de frases curtas, formadas, muitas vezes por uma palavra carregada de significação, da leitura ágil, fluente, das imagens sugestivas, da tensão crescente e do clímax impactante, o que mais aprecio nos seus textos, Paula, é a forma como envolve o leitor com ternura para surpreendê-lo e emocioná-lo.

    Parabéns! Beijos.

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  6. Que graça de conto, Paula! Você não se vale do recurso fácil de deixar a surpresa totalmente para o final, vai deixando com mão leve de escritora talentosa – leve como os dedos da menina – pequenas pistas. Permite, assim, que a leitura seja saboreada no ritmo que ela merece. É uma leitura agradável e enternecedora. A linguagem, completamente sua. Beijos, querida!

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