Em Segurança – Catarina Cunha

Ruas limpas, com árvores frondosas, emolduram casas coloridas. Em  algum lugar o fugidio aroma de torta fresca corre entre as janelas. Pássaros, indiferentes, constroem ninhos. Uma criança passa de bicicleta acenando para o grande cão sonolento, enquanto o gato se alonga na grama fresca. Gotículas cintilam nas folhas da exuberante horta. A mulher acaricia o veludo do pêssego, respira fundo o orgulho da perfeição. Vinte e cinco graus, umidade relativa do ar 50%; pena quea vista é tão ruim. Lá fora gente estragada faz coisa feia num lugar ruim. Agente se esforça tanto para criar o mundo perfeito, sem violência, sem poluição e essa gente escrota insiste em estragar a paisagem. Por que olham tanto para nós?

(…)

Clarinha escala a montanha de entulho correndo atrás de um plástico colorido que bate asas. A mãe cata possíveis recicláveis com um olho no lixo e outro na filha. Cuidado, filha, não pega em nada que feda ou corte. Não vai longe. E Clarinha subindo, subindo, desvia d eum pedaço de bicho morto, sofá com a boca aberta e os dentes espiralados para fora, ferrugem, seringa, coco; sim, um tenebroso jardim de dejetos; para a menina tudo ultrapassável. A pequena circula no lixão,  ligada nas armadilhas e maravilhas de seu quintal exótico. Subindo, subindo, chega ao pico. De lá um vento encanado corta as asas plásticas. A imensidão de 360 graus cerca a menina, que enxuga o suor do rosto na manga da camisa esfarrapada. Tenta ver além da densa nuvem de partículas suspensas. Um brilho aqui e outro ali. Fadas, mamãe, fadas! Umas pequenas e outras enormes, ondulando em sua direção. Pulou para pegá-las enquanto as bolhas dançavam ao seu redor. Posso, mamãe, posso entrar na casa das fadas? Não querida, não são casas de fadas e sim bolhas de sabão. Veja só:— explodindo com a mão uma delas. Posso brincar também? Pode sim, mas não com a boca porque o que tem dentro é venenoso.

9 comentários em “Em Segurança – Catarina Cunha

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  1. O texto descreve dois cenários contrastantes cabendo ao leitor estabelecer a conexão entre eles. Uma abordagem interessante e moderna. Para a inocente Clarinha, o lixão é como um parque de diversões. A situação descrita faz lembrar aqueles filmes de guerra em que vemos crianças se divertindo em meio à destruição. O texto nos faz refletir sobre a desigualdade que a cada dia parece se intensificar mais em nosso país e no mundo. Parabéns pelo trabalho!

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  2. Esse é um conto que pode ser lido em tantos vieses diferentes. A magia da infância que sempre nos cega para o que é desumano, a diferença de classes e de vidas, o otimismo que se pode tirar de coisas ruins desde que se proponha a isso, enfim. um conto interessante, formado por duas realidades que se confrontam e dão o tom do texto.

    Como conto, senti a falta de algum clímax e de algum desfecho. Nada que tire a beleza da narrativa, mas que me deixou com um gostinho de quero mais na boca e no coração. Parabéns pelo belo trabalho!

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  3. Que texto lindo! No cenário um, parece que eu entrei num condomínio fechado de alto luxo. Tudo arrumado, penteado, gramado, controlado e todo mundo entediado. Há vida, mas a vida não vibra, não sua, não se emociona. Parece que todo o controle, toda a segurança, cria uma bolha, uma cápsula em que a vida é tão resguardada que perde toda a graça.

    No oposto daquela pasmaceira, no cenário dois, uma pequena fada encontra graça num improvável paraíso – o lixão. O texto não tem o objetivo de passar uma mensagem social direta, mas a disfarça nos encantos de Clarinha, na sua inocência comovente, nas fantasias que inventa. Um conto onde a leveza e o peso estão dosados para criar um texto delicioso. Palmas!

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  4. Ah! Os contrastes na sociedade vistos por uma voz interpretadora do seu tempo, de seu meio e de seu povo. E, mais ainda, com uma sensibilidade impressionante com a qual enroupa um trabalho cheio de sutilezas e de lirismo. A segurança é sempre uma questão de ponto de vista, hein? Gases tóxicos e malcheirosos da decomposição do lixo vistos como fadas — é muito otimismo!

    Uma narrativa curiosa e que ao dividir-se em dois ambientes, lida com assuntos de importância fundamental: as diferenças sociais, a existência do mal e sobretudo a dignidade para enfrentar a vida.

    Texto simples, curto, de comunicação fácil, mas substancial ao retratar a densidade humana. Clarinha é uma personagem que ganhou vida ao se rebelar contra o conformismo — é a força da contista clamando por um mundo melhor.

    Parabéns pelo trabalho! Beijos.

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  5. Um conto curto que expressa cenários contrastantes. De um lado, um mundo de comercial de margarina, publicidade de um cotidiano perfeito com crianças, bichinhos, ordem e limpeza. Um verdadeiro paraíso! E logo, o leitor se depara com outro cenário, mais pesado, realidade que parece até mentira de tão cruel. Clarinha, escalando sua montanha mágica feita de lixo, caçando fadas em bolhas sedutoras de puro veneno. A menina é feliz a sua maneira, encontrando na fantasia um modo de poupar a infância e a inocência expostas a uma cruel realidade.
    A linguagem empregada é límpida, exata, eficaz para nos transmitir os contornos de um quadro cheio de poesia e mesmo assim enxergar o contraste impiedoso entre os afortunados e os desaventurados. Acaba-se de ler o conto com um aperto no peito, um suspiro provocado pelo sentimento de injustiça. Há uma crítica embutida nas palavras, na visão preconceituosa da madame que alisa o perfeito pêssego. Mas e a vista? Seria perfeita se não fosse aquela “gente escrota”. Triste isso, mas é a visão de muitos.
    Parabéns pelo talento de expor tão bem realidades opostas, sem se deixar levar pela tentação de dar voltas e mais voltas para tentar explicar o que não tem explicação.

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  6. Talentosa Contista,

    Eu aprecio as narrativas curtas, todas sabem disso. Acredito, de verdade, que a gente consegue falar sobre algo bastante amplo, de forma impactante, mesmo com poucas palavras.
    E é isso que vejo aqui.
    Há um contraste simbológico muito bem colocado e bem descrito. Tem tudo aqui.
    De um lado, a vida abastada, que lamenta e critica a pobreza e, inclusive, beira a repugná-la. De outro, a liberdade de quem consegue se divertir com o pouco, vê beleza na simplicidade, se contenta com o que tem.
    Esse conto, para mim, é para que pensemos sobre “o que nos faz feliz” e sobre como às vezes é tão simples sentir felicidade, principalmente quando não aliamos esse sentimento a questões materiais.
    Parabéns!

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  7. Curto, mas pontual. Uma combinação perfeita carregada de leveza, mas que fala de uma crueldade tamanha! Como podemos deixar tudo desandar? Como o ser humano consegue mostrar sua pior face em frente ao que há de beleza no mundo e estragar essa beleza?
    Pergunto-me se possível se enganar com a fantasia. Creio, apenas se formos muito ingênuas, e Clarinha é. Porque a visão dos pequenos é muito diferente da visão dos adultos. Existe uma magia no olhar que está apenas no olhar interno da infância. Uma infância que morre à medida que crescemos, muitas vezes. Admirar-se das coisas, ver alguma magia em momentos muito difíceis, é complexo. A alma é leve, mas o corpo não enxerga as asas, não se eleva ao vento, não faz bater diferente o coração.
    Gostei muito!
    Um grande e carinhoso abraço!

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  8. Olá Contista querida,

    Tudo bem?

    Este conto calou fundo em mim. Que abordagem linda. Que abordagem doída a uma das imagens tema do desafio. Nas mãos da menina, a bolha de sabão, tóxica e imunda de um lixão, transforma-se em brinquedo de sonho.

    Ainda que construída sob um único ponto de vista no que tange a narrativa, podemos vislumbrar aqui duas camadas, duas trilhas correndo paralelas e se encontrando, ambas, em uma só sina. A mãe cata recicláveis no aterro sanitário, ao passo que a filha brinca, descompromissada com a realidade que, ela sabe, existe a sua volta, gritando, cheirando e teimando em limitá-la.

    Surpreendente ver como cada uma de nós está a cada dia mais afiada no ofício de escrever com maestria. Não há muito a ser dito, o texto fala por si e é belo, forte, real e onírico, tudo ao mesmo tempo.

    Parabéns pelo belo trabalho.
    Juntas, crescemos a cada novo trabalho, nesse nosso ofício de escritoras.

    Beijos
    Paula Giannini

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  9. Olá amiga, seu conto é um retrato cruel da sociedade de pobres muito pobres e ricos muito ricos que vivem seguros em suas bolhas, mas sempre há a esperança da infância.

    Imagem: “A gente se esforça tanto para criar o mundo perfeito, sem violência, sem poluição e essa gente escrota insiste em estragar a paisagem.”

    Embora seja um texto curto possui força crítica sem ser panfletário. Cabe uma revisão: Esse “Agente” ficou estranho. E outras coisinhas.

    Gostei do duplo sentido de a bolha ser venenosa. Por que é espuma de lixão ou por que os ricos podres estão dentro dela?

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