Cravos vermelhos – Sabrina Dalbelo

Eu a conheci quando tínhamos apenas nove anos. Éramos crianças inocentes e não tínhamos a menor noção do que o destino nos reservava.

Ela tinha um cheiro de cravo. Eu amo cravo até hoje por isso.

Ela e seu cabelo vermelho, radiante, de andar apressado e pouco assunto. Ela queria mais era brincar, pular e agir como se não houvesse amanhã. Era feliz e sabia disso.

Eu sempre fui mais tímido, perguntava menos do que ela sobre as coisas da vida, mas estava sempre à disposição dela.

Ela se lambuzava no barro e eu saía correndo para pegar um balde d’água. Ela raspava a perna na cerca e eu corria para pegar o curativo, ela cantarolava e eu assoviava ao fundo.

Ela gostava de mim. E eu gostava muito dela. Muito.

Brincávamos pela manhã e, durante o almoço, trocávamos olhares pelas janelas de nossas casas, que eram vizinhas. À tardinha, após a aula, nos reencontrávamos para um papinho. Eu ficava pouco, pois sempre tinha muita tarefa, mas ela eu não sei, pois às vezes eu a via na rua, esvoaçando a saia vermelha do uniforme, aparentemente sem compromisso.

Íamos crescendo e a vida ia nos apresentando cada vez mais atividades.

No decorrer do ensino médio, nos víamos menos e eu chegava a ter saudade do cheiro de cravo dela.

Os anos foram tirando a nossa energia juvenil e impondo distância. Ah, o tempo! Esse é o mais ingrato dos causadores de lamentos.

Disseram-me muitas vezes que ele viria e me atormentaria. Agora vejo que ele nos retira o que temos de mais valioso, a presença.

Eu, sentado aqui nesse banco, lembrando dela e lamentando pelo tempo que não passamos juntos, pelas perguntas que não fiz a ela, pelos caminhos que segui, diferentes do dela, pelo frio que sinto ao segurar essa flor, que tem a cor do cabelo vermelho dela: da menina que marcou a minha vida, do amor que deixei na minha infância perdida, que não está aqui comigo para um abraço.

Aqui, choro e lamento uma ausência.

Choro a falta que sinto de tudo, não só dela.

***

Era tarde.

Melissa fez uma pausa, trocou o apoio para a outra perna, inspirou, estufando o peito, e passou mais uma vez o cotovelo no vidro frio, que se embaçava mais a cada palavra sua que se chocava na sua superfície. Parou por ali o relato que brotava da sua imaginação, mas não deixou de olhar o homem pela janela.

Ana ouvia a tudo atentamente. Ficou surpresa como a irmã podia saber tanto daquele desconhecido, o qual só conseguia observar da ponta dos pés, ao lado dela.

As duas olhavam um homem estranho, solitário, sentado no frio, em plena noite de ação de graças. Ele segurava um pequeno ramo de flores vermelhas, mas a impressão que as duas tinham era a de que não as daria de presente a ninguém.

Apenas um abajur de canto iluminava o quarto das meninas, que demoraram a dormir naquela noite, devido à fartura do jantar em família. A prosperidade do pós-guerra fez bem ao negócio do pai e os jantares estavam melhor servidos.

Melissa não resistiu ao quadro inspirador ao chegar à janela do quarto e chamou a irmã para seu lado, quando passou a narrar-lhe a história que sua impressão enxergava.

– Essa é a história dele, Melissa? – perguntou inocentemente Ana, segurando seu travesseiro preferido.

– Sim, Ana. Ele amou alguém e hoje está só. Veja como está maltrapilho, magrelo e sujo. Não há ninguém que o ame e cuide. – afirmou como verdade a irmã mais velha. – Papai é gordo e sempre está cheiroso. Mamãe cuida dele desde que eram crianças, praticamente. É assim que funciona. Isso é amor de verdade.

– Mas você não está sentindo o cheiro dele, Mel. Isso não é justo. – retrucou a pequena Ana.

– Ana, ele “parece” sujo. Duvido que não esteja fedido também. Além disso, é velho. Pessoas velhas devem cheirar à coisa velha. Lembra do chá da vovó? Acho que idosos gostam de cravos e canelas e essas coisas. – afirmou com veemência Melissa. – Vem, vamos deitar, vou ler uma história mais feliz para você dormir. – completou.

***

Decidira não depositar flores no túmulo de Bento naquele ano.

Queria pegar o vento gelado da madrugada no rosto, sentado onde tantas vezes estiveram juntos, antes da guerra levar embora o que tinham e enterrar os seus sonhos em comum.

No banco, em frente a uma casa bonita, que Bento costumava chamar de “palácio”, Giuseppe lamentava a morte prematura de seu filho, trazendo nas mãos um pequeno ramalhete de cravos vermelhos, em sinal de respeito.

20 comentários em “Cravos vermelhos – Sabrina Dalbelo

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  1. É uma história muito triste. Três momentos diferentes. Um único tema, eu creio – o tempo, senhor absoluto de tudo nessa vida, inclusive da hora da morte. Porque não percebemos que há mais tempo que vida, e vamos desperdiçando pedaços de nós em coisas que, depois, mais tarde, não farão sentido, ou farão, em algum ponto, porque antes não faziam. É assim. Numa linha sempre crescente até não haver mais respiração alguma, até não haver anima – alma – não haver mais vida.
    Parabéns pelo texto, conduzido com sensibilidade, muito bem escrito.
    Um grande e carinhoso abraço!

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    1. Querida Evelyn,
      Adoro ler teus comentários, cheios de análise de sentimentos. Tu és bastante sensível e nos brinda, repartindo isso! Obrigada! Bjos

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  2. Olá, tudo bem?

    Primeira vez que estou comentando aqui. E gostei bastante de alguns contos que li nesse site.

    Quanto a esse texto, confesso que senti um mini nó se formando na minha garganta enquanto eu lia. A autora conseguiu carregar o conto com simplicidade e sensibilidade na medida certa, contrastando a visão infantil, um tanto sonhadora (mas também que não deixa de ser sensível) e a visão real de um senhor que perdeu seu filho.

    O texto está muito bem escrito.

    Parabéns!

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  3. Aqui três narrativas se entrelaçam. Aquela que uma jovem romântica imagina ao ver um homem defronte a sua casa, o diálogo entre essa jovem e sua a irmã mais nova e a a história real do homem do outro lado da janela. O texto é engenhoso e faz pensar em como tantas vezes as interpretações que fazemos e as narrativas que criamos falam mais de nós mesmos do que da realidade. Tema que pode render muitas e boas histórias.Parabéns pelo conto!

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  4. Uma narrativa simples, mas que traz tanto sentimento. A história inventada por duas irmãs e a história real. Não é assim a vida? Aquilo que muitas vezes imaginamos ser, nem sempre é de fato.

    A autora traz num simples relato tanto sentimento e isso é um feito de poucos. O tema, a morte e a ingerência da humanidade que suscita tantas interpretações, nem sempre a correta, nem sempre a desejável. Muitas vezes, deve-se aceitar o que é apenas porque assim é. Gostei do encanto, simples, mas tão terno. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Sandra,
      Isso, gostamos de inventar nossas próprias versões verdadeiras, não é!?
      Obrigada pelo rico comentário! Bjos

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  5. Talentosa Contista,

    Uma narrativa comovente como a imagem requer.
    Creio que a mensagem principal seja justamente trazer à luz a ideia da “interpretação” e de como ela pode ser dilacerada diante de nossas experiências pessoais.
    Não há justiça ou verdade maior do que a que está dentro da gente, mas ela nem sempre é a forma mais justa ou verdadeira das coisas.
    O interessante é que o desafio tinha como base a “interpretação de uma imagem” e foi feita essa brincadeira de contar a interpretação da imagem sob os olhos de outro.
    Parabéns!

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  6. Um belo conto dividido em três partes distintas, cada uma revelando uma história diferente: a imaginada por uma jovem, a conversa entre irmãs sobre esta história imaginada e a história real, mais curta e cruel.
    A narrativa transborda sensibilidade e traz lindas imagens sinestésicas: há cor, há odor, há paladar em cada palavra. Podemos até sentir a neve cair, o toque áspero das mãos do senhor segurando as flores vermelhas. Um retrato sensível e comovente de uma realidade nada romântica, mas com muito sentido.
    O homem apenas se senta, esperando a dor que carrega se acomodar em seu peito para que ele possa mais uma vez render homenagem ao filho morto. Triste, mas magistralmente bem escrito!
    Parabéns!

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    1. Querida Claudia,
      Agradeço teu comentário generoso (quase exagerado, rsrsrsrsrs). Tu pegaste bem a essência do que eu pretendi fazer. Muito obrigada! Bjos

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  7. Achei bem legal esse conto até porque desde pequena e até hoje, gosto de inventar enredos mirabolantes para pessoas desconhecidas com as quais cruzo meu caminho. Assim como as meninas estavam fazendo com o homem sentado de frente à casa delas, com os cravos vermelhos nas mãos. Ficou bem interessante esta mistura de perspectivas, tudo isso aliado à excelente escrita da autora, que nos traz um texto limpo e livre, com uma ótima fluidez e um fluxo de pensamentos que não fica enfadonho em momento algum. Meus parabéns!

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    1. Querida Iolandinha,
      Obrigada pelo comentário. Acho que temos isso em comum, então, né!? Eu também me vejo, há tempos, inventando histórias mil a partir dos mais variados cenários! Bjos

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  8. A narrativa é uma combinação básica de três parcelas, que recriam apenas um momento da realidade — o homem sentado no banco, com uma flor na mão – que corresponde à imagem-tema. Na introdução, o foco narrativo é de primeira pessoa; são os pensamentos que habitam a mente do homem naquele momento: “Eu, sentado aqui nesse banco, lembrando dela e lamentando pelo tempo que não passamos juntos (…)”. Serviu para colocar o leitor na pele da personagem: o retrato do ser que revive , na consciência, o peso de suas perdas.

    As outras duas subdivisões são apresentadas com a neutralidade da terceira pessoa: as duas meninas que observam o homem e criam possibilidades sobre quem ele era, o que fazia ali (Se meu marido estivesse no nosso grupo, diria que esse texto foi escrito por mim, porque vive reclamando que faço muitas “deduções”); e, na parte final, a explicação lógica sobre as questões levantadas pelas garotas.

    A proposta do Desafio era construir um texto inspirado na imagem; aqui temos três pontos de vista narrativos em cada segmento, através da técnica do contraponto dramático. A linguagem clara não permitiu que o leitor se perdesse diante de fatos simultâneos, já que os núcleos de personagens são reduzidos e suas ações estão constantemente relembradas nos diálogos. Há uma variedade impressionante de experimentações, porém a teia que suporta a história na sua totalidade está criada com mestria e com sensibilidade.

    Parabéns pelo comovente e bem escrito texto! Beijos.

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    1. Querida Fátima,
      Muito obrigada por teus comentários, sempre tão profundos, resultado de uma leitura cuidadosa e de um conhecimento notável da literatura como um todo! Eu sou tua fã! Bjos

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  9. Olá Contista querida,

    O ponto alto de sua narrativa é o entrelace entre as três narrativas, mais que isso, devo dizer no entanto, o que me chama a atenção, e muito, é o trabalho da premissa em si. As aparências enganam. O que vemos, nem sempre é o que parece e cada um vive sua realidade, alheio ao que o outro imagina. Melhor ainda, o que os outros pensam, não é, na verdade, a nossa realidade, mas sim a deles.

    Como escritora, um grande exercício é o de imaginar o que há por trás de uma imagem, uma aparência, quantas histórias guardadas por trás de uma única cena… Assim, autora nos traz um leque de possibilidades por ela imaginadas. Possibilidades de histórias, que serão diferentes das minhas, assim como, diferentes das de cada uma das contistas participantes do desafio, se criadas a partir dessa ilustração proposta.

    Parabéns pelo excelente trabalho.
    Juntas crescemos muito em nossos ofícios de escrever.
    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Olá amiga, seu conto me sentou ao lado do velho. Senti até um vento frio e seu cheiro.

    Imagem: “Ele segurava um pequeno ramo de flores vermelhas, mas a impressão que as duas tinham era a de que não as daria de presente a ninguém.” – retrato bonito da ausência.

    As narrativas se esbarram como em uma encruzilhada do tempo. Maldito tempo, que devoramos enquanto nos devora. Aqui a melancolia ficou por conta das perdas da vida.

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