BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst

Era mesmo de espantar. Nem chegava a tocar a pele ou a língua e já ardia como pimenta. Feita de matéria doce, rapadura ou algo substancial e mole como um amarelo quindim. Assim era ela, tão afável como cupido em Dia dos Namorados, tão mordaz como a peixeira guardiã fiel fincada em sua cintura. Era mais do que tudo, um mistério de luzes, um universo de aparentes contradições traduzidas em palavras, ora de amor, ora de puro terror.

− Te chamas como, criatura?

− Não me chamo porque sempre estou presente.

− Nunca te ausentas de ti?

− De mim, jamais. Os outros é que se tornam distantes, como memórias ou lamentos.

− És doce!

− Sou chão!

E assim seguia a menina, que da noite para o dia, tornou-se uma  bela constelação. Fez-se plena onde se esperava apenas areia. Fingiu-se de rude guerreira para que ninguém ousasse desfazer seu disfarce. Tanta inteligência era alinhavada com ligeireza nas tramas de uma alma que se destinou a ser boa. Boa? Talvez, não. Justa, com certeza.

− O que queres ler?

− A palma da tua mão.

− Por quê?

− Para assim conhecer meu destino.

E então, depois de muitas luas e desejos ocultos, seu mundo ficou completo. Nas pequenas mãos que se moviam sem ritmo, nos olhos daquele com nome de anjo, ela descobriu seu destino: ser mãe e jamais sozinha. Se o  crescente corpo coube-lhe inteiro no ventre, a alma expandiu-se no sorriso de menino.

− O que mais querer conhecer?

− As línguas de todos que dão volta ao mundo.

− Para te fazer entender?

− Somente para que eu própria me entenda.

Francês, espanhol, inglês, um dia talvez o mandarim. Tantas falas, idiomas e falhas, tudo tão interessante quanto a vida.

− Ela nunca se cala mesmo quando o silêncio se instala.

Camuflada em enredos sem fadas, ela, menina-mulher, donzela e bruxa, escreveu sua própria história com palavras e tintas colhidas em noites sem par.

− Terás de seguir sozinha.

− Jamais serei a mesma ou solitária estarei.

 − Siga então sua estrela.

Ela seguiu a si mesma, iluminada com a própria luz,  transformando-se em cometa veloz, a desenhar amores e, lá do alto, contemplar o mundo com suas muitas cores espalhadas.

No infinito, abismo de todas as canções, ela tornou-se som e tom. Nos cantos mais obscuros, provocou sorrisos sem fim, pois tinham dela o melhor encanto. A boca que falava verdades, também revelava surpresas. Vermelho tingindo vida e paixão. Trilhas de estações eternas, no colo sereno daquela que nina poesias.

A boca vermelha simboliza o pulsar de um coração insone. A tinta que cobre suas emoções, derrama letras que se fundem em uma nova história. Tão bela, tão forte, tão ela. O nome?  Procura as iniciais da mais bela heroína sem rima. É ela

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12 comentários em “BOCA VERMELHA – Claudia Roberta Angst

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  1. Segui as pistas e acho que essa preciosidade foi escrita para mim – o batom vermelho, a pele pálida, o cabelo escuro… quindim, peixeira, terror, doçura… Um personalidade forte, quase uma punhalada. Achei tão a minha cara que se não for para mim eu tenho uma alma gêmea entre as amigas contistas.

    Só posso dizer que amei, que foi lindo, que foi emocionante.

    Eu me senti viva em suas palavras. Que presente maravilhoso, obrigada!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Excelente conto! Cheio de significados poéticos! Pra mim é a cara da Iolandinha, a Claudia enxergou a mulher por baixo da superfície! Parabéns às duas!

    Curtido por 2 pessoas

  3. “A Claudia leu a minha alma e a escreveu aqui, acho que nem eu mesma me descreveria tão bem” – são palavras da Iolandinha; quem sou eu para contestar? Parabéns á impecável observadora e á homenageada, pelo texto de qualidade e intensidade irrefutáveis! Beijos!

    Curtido por 2 pessoas

  4. Eu amo seu estilo, Claudia. Tem um ritmo na sua escrita, como uma expansão ou uma ascensão permanente ao longo do texto, que é só seu e é muito bonito. Acho que você com poucos elementos captou e refletiu lindamente a Iolanda nas suas palavras. Parabéns às duas! Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

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