Óviro – Paula Giannini

Quando estava só era tudo cinza, retrato sem graça, desses que a gente vê quando abre uma revistinha daquelas fininhas, que vêm dentro de saquinho, acompanhadas de uma pequena caixa de lápis de cor.

Tudo cinza. Tudo sem cor.

A menina abria a janela, e lá estava o sol, desenhado em um riscado com seu sorriso aberto no meio do círculo. Uma página, duas, três. Sol, casa, fruta, flor. Era assim. Se queria cor, umazinha, corzinha só, mesmo que desbotada, que colorisse ela mesma.

O sol amarelo, o cachorro marrom e a nuvem… Rosa. Rosa? Rosa, sim. Sim senhorita, porque esse mundo é todo nosso e o desenho pode ser da cor que a sua cor mandar. Ou da minha.

Com purpurinas?

E pó de pirlimpimpim.

A avó chegara.

A avó voltara e, com ela, aquela mala de trazer tudo. Sonho, riso, imaginação, cor.

A avó chegara e agora o sol piscava para ela com aqueles olhos de sorriso dourado.

Você trouxe um presente, Vovó? Sim. A avó abria a mala e, de dentro, florezinhas, brincadeiras, medalhas e histórias saltavam e preenchiam a vida. Passagem secreta para um mundo de afetos e doçuras, porta secreta para um lugar que era delas só.

Camisola virava manto, e a medalha, prêmio da vovó e sua letras, amuleto da sorte, escudo protetor, tesouro sobre a estante, relíquia de reis e rainhas, e fadas. E agora, ali, tudo era cor, tudo sonho, tudo seu.

A avó inventava histórias, e a menina a seguia. Tudo era festa, brincadeira de cumplicidade única que só se dá no momento em que o amor constrói as pontes. E aquela era uma ponte de arco-íris, e o mundo todo brilhava em cores. Passear de ônibus até o centro da cidade, na frente, do ladinho do motorista, que a terceira idade tinha lá as suas vantagens. E comer tumati, assim mesmo com u que era mais gostoso, porque o tomate preparado por outros não tinha gosto de nada. Tinha. Mas não tinha. De nada.

A avó chegava, e com ela, os cheiros doces de temperos que deixavam a barriga da menina quentinha, e feliz. E falavam de tudo, tudinhu mesmo, sempre assim, com u e maravilhas. Catar feijão, descobrir o mundo, desenhar as letras, mesmo quando preferia os números, jogar basquete com a lua, regrar flores no jardim, e ver as folhas do calendário caindo céleres rumo ao dia 30.

Dia 29 virava aviãozinho de papel e, então, a campainha soava e os ruídos, e pulos, e correias entravam pela porta em forma de primos, também eles com suas malas, roupas e quereres. O puré mais grosso, o leite da manhã esfriado com soprinhos, o pão de queijo assando, e ela de olho, porque vovó levava a toalha para o banho do mais velho. Ele esquecera. Esquecia todo o tempo. E de propósito. Desconfiava. Só a vovó para ter paciência, e para transformar braços em colar de carinho em torno do pescoço.

O calendário caía, voava com seus desenhos diferentes. Para cada dia um. Montanhas, praias, árvores, rios.

Fazer barraca de lençol, assistir a um filme, guerra de travesseiros aos gritos, colorir cadernos em dia de chuva. E contar os causos, as novidades do dia-a-dia. Na escola um amigo de olhinhos puxados, não japonês, mas coreano, tirava o sapato dentro de casa. Onde é que fica? A Coreia? Procurar no mapa. Apontar com o dedo. Na Coreia todo mundo tira o sapato quando entra em casa.

O neto feliz. Já tem bigode? Uma penugem se insinua para seu orgulho. E a pequena cansada, a mais novinha. Na cidade grande só se anda de carro. A menina espicha o olho, busca a cumplicidade da avó. Imagina, só andar de carro. Coisa sem graça. Mas a avó não percebe. Ou finge que não, faz cosquinhas, massaginha nos pés da pequenina. E a menina feliz, mas de olho na porta da geladeira, naquele desfolhar de números, ora apressados, ora menos.

Dia 15 tudo acaba tudo. Fim das férias, fim da festa, e dos primos.

De seu mundo de desenhos, a menina acena da janela aos primos que partem de ônibus. Vão atrás, o cinto atado, não contam mais com os privilégios da idade da vovó.

A menina acena, a mão firme segurando a de sua avó. Sua. E só. No coraçãozinho, ainda em fase de crescimento, a confusão, misto de tristeza e alegria. Os primos partem, a avó não. A próxima viagem das cores de sua vida, só em março. Não para Coreia, mas para longe, algum lugar para ganhar mais prêmios. Vovó escreve história e as conta. Todos amam, não é só seu mundo que aquelas mãos sabem colorir.

Ela recolhe a lágrima e sorri. Tem nó na garganta, e janelinha nova bem na frente. A avó percebe. Não vai sentir saudades? Vai. Claro que sim. As férias foram ultramegapalmer incríveis. Mas o nó já vira borboleta porque, ainda, por muitos dias, a cor pintará seus sonhos com purpurinas e, é óviro, tem aquela sua avó todinha para ela.

Mais num contra para ninguém, tá? Você acha?!

E entrou pelo bico do pinto, e saiu pelo bico do pato, e a vovó que conte quatro.

*para Regina Ruth Rincon Caires, com muito amor e pirlimpimpim.

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12 comentários em “Óviro – Paula Giannini

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  1. Paula, minha doce Paula, como ler e não chorar?! Quanto amor, quantos detalhes, quanta dedicação para me presentear… Você, menina, é daquelas pessoinhas que Deus coloca no mundo e diz: “vai, vai alegrar o coração de quem precisa”… Você é isso – puro amor … Obrigada, muito obrigada! Você mora no meu coração… ❤

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  2. Muito gostoso de ler, leva a gente de volta pro colinho da vovó. Regina, que privilégio ganhar esse conto de presente, heim? Delícia! É texto da Paula? Parabéns!!!

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  3. Uma hora depois, eu pude voltar pra comentar.. juro q o choro nao me permitiu digitar!!
    Que grande maravilha a sensibilidade da Paula.. de outro mundo!!! 🙂
    Que grande maravilha essa vovó.. dá vontade de pedir colo.
    Muito obrigada por esta catarse que me sucedeu hj, aqui com vcs!!

    bjsssss

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  4. “OVIRAMENTE” UM TEXTO MARAVILHOSO PARA UMA AMIGA ADMIRÁVEL!
    CUMPLICIDADE E COMPETÊNCIA RECÍPROCAS! PARABÉNS A AMBAS.

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  5. Paula, este conto é um dos grandes presentes da minha vida!!!!!!!!!! Obrigada, muito obrigada! Que Deus te proteja, SEMPRE… Te amo…

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  6. Que coisa mais caprichada e carinhosa esse conto, Paula. Eu adoro escrever histórias de avós com netas, tenho uma pasta com esse título no meu note onde as coleciono. Acho que uma relação que expande ambos os polos, diferente de mãe e filha, em que as vezes há “colonização”, as vezes disputa. Parabéns, querida! A Regina deve ter amado!

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