RENOVAÇÃO – Juliana Calafange

Nascida na capital da província, Akili fora para a aldeia ainda moça, para se casar com o filho do soba[1] local. Ao longo de trinta anos foi esposa dedicada, teve três meninos saudáveis e fez-se útil à sua comunidade, ajudando na lavra e também ensinando o português para as crianças, pois a maioria na aldeia só conhecia o dialeto macua. E esse era seu maior encantamento, ajudar as crianças a descobrir as veredas do idioma e da literatura, que para ela não havia arte maior no mundo. Foi pelas letras que Akili criou raízes na pequena comunidade. Os livros a ajudaram a superar momentos difíceis e foram testemunhas das suas alegrias naquele lugar. A aldeia passou a ser o seu lar, onde sentia-se respeitada e amada, onde podia viver cercada de juventude e histórias, longe dos conflitos políticos da capital.

Mas o destino teima em ser ardiloso. Os filhos cresceram e um dia decidiram que o futuro deles estava lá na grande cidade. Com o aval do pai, resolveram partir. Se Akili soubesse, nunca teria ido morar na aldeia, nem se casado, talvez fosse melhor morrer seca – ela pensou – tamanha é a dor da separação de uma mãe e um filho. Mas não se pode prender o espírito livre e Akili rezou pela sorte dos seus rebentos. Mesmo que não tivesse seus compromissos de esposa e professora na aldeia, ela já não poderia voltar a viver na cidade. Ao longo dos anos adquirira o jeito caseiro e recluso das pessoas daquele lugar e já não saberia ser feliz fora da pequena vila.

Seguiu com sua rotina. A esta altura já era a professora principal da escolinha local e ensinar era o alento para a saudade que sentia dos filhos. Uns anos depois ela soube que os meninos tinham se engajado na Resistência. O coração de mãe nem cabia dentro do peito, só se continha por causa do seu ofício. Dedicava-se a seus alunos integralmente, a ponto do marido fazer queixa:

– Os pupilos não são seus filhos. Você tem outros deveres por aqui…

– Onde houver criança com fome de leitura, lá estarei eu, disso não abro mão.

O marido na verdade sabia que ensinar àquelas crianças era a única coisa que aliviava o espírito da esposa. Akili rezava todas as noites, quase não dormia. O tempo só deixava seu coração mais aflito com as notícias que vinham da capital: minas terrestres, mutilações, fome, doença.

Quando um dia o madoda[2] chegou contando que a guerra tinha levado seus três meninos para sempre, Akili quis rasgar o próprio peito com as unhas de tanta dor. Chorou um rio inteiro, depois um oceano. Até que decidiu morrer. Sentou-se no meio da praça com a pequena foice usada na colheita e só não acabou com a própria vida porque foi salva no último instante. Foram seus alunos – os antigos e os novos – que a rodearam com uma pilha de livros, pedindo que Akili lesse as histórias para eles. Tiraram a foice da sua mão, com toda a delicadeza. Depois a abraçaram. E começaram a leitura.


[1] Autoridade regional

[2] Indivíduo maduro, digno de respeito

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8 comentários em “RENOVAÇÃO – Juliana Calafange

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  1. Conto dramático e cheio de simbolismo. Achei legal a autora ter criado uma fantasia em cima da realidade da pessoa real. Parabéns às duas, beijos e felicidades.

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  2. Juliana… Isso foi tão triste e tão singelo. Não sei dizer. Tem uma carga dramática grande, mas um final tão acolhedor! Eu gostei demais! Fez-me lembrar uma fábula. Parabéns pela escrita. Um grande e carinhoso abraço!

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  3. Oi, Ju,
    Chorei horrores com este conto, imaginando o simbolismo da imagem final, deste tipo de Sherazade, que segue lendo para continuar viva.
    Parabéns.
    Beijos e feliz 2019!
    Paula Giannini

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  4. É difícil encontrar um título que caia tão bem: renovar é encontrar forças para seguir, depois dos revezes. Parabéns, Juliana, pelo conto, com ares de lenda, tão intenso e com uma lição tão significativa! Beijos.

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  5. Oi Juliana! A literatura como conforto e salvação. Tão bonito isso. Gostei do estilo de narrar que aqui combinou muito bem com a história com ares de fábula que você nos trouxe. Parabéns! Beijos.

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  6. Um conto belissimo, tanto pelo tema como pela construção. Muito rico em imagens e conteudo, passou rapido tamanho o grau de envolvimento do leitor proposto pela autora. Adorei

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