No País da Solidão – Thais Lemes Pereira

Apenas lembro de ter caído em um interminável buraco, desejando descobrir quem o havia cavado. Da noite anterior, recordo que estava sentado de frente para o balcão de um bar, como todas aquelas garrafinhas de conteúdo colorido pedindo “beba-me”. Senti os pelos do braço arrepiarem após dar a partida no carro. Precisei desviar de um animal branco, de porte pequeno, que atravessou com pressa as extremidades da estrada e, depois disso, recordo apenas de estar caindo em um buraco sem fim. Talvez aquela fosse minha sentença por dirigir embriagado: a solidão.

Entrei na primeira porta que encontrei aberta. Uma bonita casinha. Quando me dei conta, estava envolvido por diversos livros, empilhados de forma aleatória na estante. Um lugar que sempre passei em frente, mas nunca tive tempo de entrar. Na verdade, nunca fui um ávido leitor. O calendário da parede acusava a data: quatro de maio!

Passei o dedo indicador pelos livros velhos e amontoados, da sessão mais barata, e me perguntei o motivo que levaria alguém a comprar um daqueles. Acontece que, se eu fosse um leitor, compraria novos, em uma livraria, e deixá-los-ia como peça de decoração na estante.

For-mi-dá-vel — imaginei.

— De nada adianta, se você não irá lê-los — sussurrou uma garotinha ao meu lado, como se estivesse me contando um segredo.

— Quem és tu? — perguntei descontente por sua audácia, porém feliz, por ter companhia.

— Meu nome é Alice — ela respondeu, sorrindo, com a voz leve de criança. — Mas mudo constantemente. Hoje já não sei quem sou.

Alice procurava entre os livros algo que lhe agradasse e achei curioso o fato de uma criança tão nova se sentir atraída por literatura.

— Diga-me criança, o que lhe atrai?

— As gravuras — ela respondeu, respirando a poeira presente nos livros. — Sente? Sente o cheiro das mãos que já tocaram esses livros? O desgaste mostra que já foram muitas vezes lidos.

Respirei fundo, a fim de entender o que a menina dizia, mas acabei tossindo. Não sou alérgico à poeira, mas colocaria minha mão no fogo dizendo que por ali havia um gato.

— Encontrei! — ela comemorou, sentando-se em uma das mesas e me convidando para estar junto dela. — Pode ler para mim?

Alice me estendeu o livro. Eu nunca tive filhos ou sobrinhos. Nunca li para nenhuma criança e, muito menos, para mim. Mas não pude resistir ao pedido da menina que me fazia companhia naquela manhã.

Peguei o livro de suas mãos e ela deu um largo sorriso quando o cheirei. Folheei, observando as gravuras, os muitos diálogos e lendo pequenas frases.

— Engraçado, a menina desse livro se chama… — não terminei a frase, pois ao levantar os olhos percebi que Alice não estava mais ali.

— Volte sempre ao País das Maravilhas! — escutei o balconista dizendo, após atender um cliente e virando-se para mim. — Aceita uma xícara de chá?

Saí do sebo após ler a metade do livro em minhas mãos, encantado com aquela história. Talvez, eu não fosse viver anos tão solitários assim, até a minha metamorfose.

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5 comentários em “No País da Solidão – Thais Lemes Pereira

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  1. Que cativante esta releitura de “Alice no País das Maravilhas”! O valor dos livros é reafirmado incontestavelmente em forma de uma alegoria que simboliza, de maneira perfeita, os sentimentos de um leitor. Parabéns, Thata, pela premissa e construção do seu conto. Beijos.

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  2. Uma das muitas versões do clássico de Lewis Carroll, mas com o charme de o protagonista ser um frequentador de um bar que vende bebidas psicodélicas. Gostei muito da parte em que ele está entre as estantes de livros, isso me fez me lembrar de mim mesma com meus incontáveis livros novos esperando para serem lidos. Gostei bastante desta sua recriação. Beijos.

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