Nada Existe (Nem o Título) – Thaís Lemes Pereira

A vida não é perfeita, mas também não é ruim. Espera. Contentamento é uma das primeiras coisas que aprendi que não podemos ter. Sou feliz? Bem, eu tenho um emprego, estudo como qualquer garota da minha idade, existe minha mãe. Calma, comecei tudo errado de novo, penso mentalmente, respiro e retorno do início, Isa, para começar: defina felicidade…

***

Naquele dia, fui dormir com a última frase dita pelo professor na cabeça.

***

Desci as escadas do serviço que levavam para até a rua. Fiquei fazendo hora extra até tarde e perdi a noção do tempo. Já havia anoitecido e não gosto de sair de lá sozinha. O bairro industrial é muito isolado e, logo na esquina, tem um bar bem frequentado: por bêbados e drogados. Tateei os bolsos a procura do celular, mas não encontrei. Segui o caminho com a intenção de sentar-me na praça, esperando meu pai passar para, enfim, voltar para casa. Sentia-me cansada e tudo que eu precisava era de um banho e uma boa noite de sono.

Atravessei o bar que milagrosamente estava com as portas fechadas, mas mesmo assim fui incomodada por alguns homens embriagados, mendigando moedas para que pudessem beber. Hoje eles nem mentem mais, pedem dinheiro com a desculpa de precisarem sustentar o vício. A voz do meu professor ecoava, conforme tudo que eu observava no mundo. Pobres bêbados. Pobre de quem crítica a bebida constatando seus malefícios, simbólicos demais diante da sedução. Do outro lado dos comerciais de cerveja, estão os idealizadores e seus publicitários, brindando com suco natural. Tudo do mundo foi estrondosamente bem planejado.

Apressei o passo e ao longe vi o início da praça principal. Alguma coisa lá pegava fogo e a fumaça subia de encontro com o céu. Contive os passos, mas a curiosidade foi maior e me deixei levar: notícias quentes rendiam ótimos debates dentro da sala de aula.

Algumas pessoas vagavam perdidas. Fiquei confusa diante daquilo tudo, sentindo que deveria ter lido algum livro sobre o apocalipse zumbi, pois era exatamente o que parecida. Olhei para trás e a rua do meu trabalho ainda permanecia em paz, com a exceção dos bêbados, cantando.

Todos corriam na mesma direção. Era como se toda a cidade tivesse se aglomerado na praça para fazer algazarra. Será que estenderam o carnaval e eu não sabia? Se fosse algum bloco, estava muito bem ensaiado. A expressão de perturbação das pessoas era impressionante. Não havia policiais para conter aquela gente.

No desespero, ao ver uma mulher vomitando sangue na sarjeta, joguei minha bolsa no chão sem me preocupar com dinheiro, chaves, documentos e meu celular, que provavelmente estaria ali.

– Moça – chamei, tentando levantá-la do chão, pois muitos carros passavam rentes à calçada, fugindo de todo aquele transtorno.

Até então, apenas meus olhos estavam conectados ao mundo. Quando abri meus ouvidos, escutei as freadas dos carros. Tentavam se desviar das pessoas que dominavam as ruas. Junto das batidas e vidros sendo quebrados, gritos de pânico formavam sua música.

A mulher agarrou meus cabelos e muitos fios foram arrancados. Percebi que havia sido esfaqueada, manchando minha roupa de vermelho. Ela tentava dizer algo, mas sufocava no próprio sangue. Quando vomitou dentro do decote da minha blusa, soltei-a no desespero e o impacto com o chão fez com que ela caísse morta. Fugi com medo de ser decretada culpada. Vomitei apoiada no poste de luz, sentindo nojo daquela situação.

Arranquei a blusa para me limpar, sentindo ânsia. Depois precisei jogá-la fora, pois não havia condições de vesti-la novamente. Não me importei com a parcial nudez. Ninguém ali parecia reparar, pois muitas pessoas sequer estavam vestidas. “Você nasceu de roupa?”, ele dizia nas quartas e quintas, “Se a sociedade tivesse imposto que andar vestido fosse motivo de vergonha, a playboy teria mulheres usando roupas de inverno.”

Abri espaço na multidão procurando por alguém conhecido, mas havia muitos rostos estranhos. Voltei para buscar minha bolsa, mas alguém já havia espalhado o conteúdo dela no chão. Com dificuldades encontrei meu celular, mas alguém havia pisado em cima dele, quebrando o visor. Felizmente, algumas coisas ainda podiam ser enxergadas. Procurei pelo telefone de casa e não o reconheci. Corri os olhos nos nomes, procurando pelo número dos meus pais, mas todos meus contatos pareciam trocados. Nem o número da minha melhor amiga estava marcado nas últimas chamadas recebidas.

– É a sua vez – escutei alguém sussurrar.

– A minha vez de quê? – perguntei sem obter resposta, largando o celular e correndo na direção que veio a voz.

Ouvi um grande estalo e uma das árvores caiu impedindo a passagem. Os arruaceiros colocaram fogo na prefeitura e casas construídas muito próximas formavam uma corrente de fogo, fazendo que as pessoas escondidas saíssem para as ruas. Nem sinal de bombeiros.

Ao longe observei o carro do meu pai passando com pressa. Julgo até que tenha me visto parada no meio da multidão, mas não estacionou para ir me buscar. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Estava sozinha no meio de todas aquelas pessoas que pareciam ter acabado de fugir de um hospício.

− Isadora! – escutei alguém me chamando. – Isadora, aqui!

Era uma das meninas que frequentava o mesmo curso que eu. Forcei a mente tentando recordar seu nome, mas era inútil. Ela também parecia desesperada.

− Há quanto tempo você está aqui? – perguntei.

− Não muito, mas descobri que precisamos encontrar o caminho de casa. – ela dizia entre os empurrões. – Todos aqui estão procurando o caminho de casa.

− Sim, acabei de sair do serviço, também estou indo para casa e…

− Isa, você ainda não entendeu? – ela me deixou ainda mais confusa. – Vá para a casa descansar!

Uma mulher me olhou de longe, fixamente. Corri atrás dela tentando encontrar respostas, mas fui arrastada pela multidão. Possuíam tanta força que precisei acompanhá-los. Mesmo assim, continuei andando de costas, pois não havia espaço suficiente para me virar. Acabei caindo e sendo pisoteada por aquele bando de loucos. Alguém chutou minha cabeça e eu finalmente caí no sono.

***

Acordei sufocada, inspirando o máximo que conseguia de oxigênio. Era sábado e minha mãe havia me deixado dormir até tarde, como era de costume. Não me levantei. Cobri minha cabeça com medo e comecei a chorar, com receio de ser escutada. Meus pais não sabiam de nada e não entenderiam se eu contasse.

– Isadora, acorda! – ouvi a voz da minha mãe vinda da cozinha. – Lembre-se que prometeu ir para mim no supermercado.

Andei até a cozinha amparada pelo corredor. Sentei-me à mesa e imaginei que meu mal estar poderia ser fome. Preparei um copo de achocolatado, mas meu estômago revirou ao sentir o cheiro. Lembrei da mulher do sonho, vomitando um sangue viscoso. Passei a mão na blusa do meu pijama, como se a mancha vermelha ainda estivesse ali.

− Mãe, você costuma sonhar? – recebi um olhar estranho da minha mãe.

− Sonhar?

− Sim, sonhar.

− Costumo ter pesadelos – ela levantou-se da mesa rindo, recolhendo as louças sujas da mesa. – Com as contas no final do mês.

Procurei minhas chaves, mas não encontrei. Assim como não localizei meu celular e a carteira de dinheiro. Não importava. Não tardaria a voltar das compras. Peguei a bolsa da minha mãe emprestada e caminhei ainda fraca para o supermercado mais próximo.

Inconscientemente, em cada corredor, eu me via parada com alguma lata na mão. Olhava para aquelas descrições sem ler e me focava apenas em uma palavra: “Sinta o real sabor”, “A realidade em sua mesa”, “Tempero real: seja o líder da sua cozinha”. RealidaDE. RealiDADE. ReaLIDADE. REALIDADE. “Tudo ao redor te manipula”, soava a voz do meu professor.

Apoiei-me no carrinho, sentindo as consequências de ter saído de casa sem me alimentar, mas vê-la fez com que minha disposição voltasse. A mulher do sonho.

Abandonei as compras e corri atrás dela esbarrando em algumas estantes e pessoas. Derrubei uma pirâmide de biscoitos, escutando a reclamação dos funcionários e a festa das crianças. Tudo que eu queria era ir atrás das minhas respostas. Quando virei o penúltimo corredor, em um gesto brusco, tudo se apagou e só pude sentir o choque do corpo com o chão frio.

***

Alguma coisa me perseguia. Eu não a via, mas podia sentir que se aproximava. Eu estava em um lugar deserto, de chão seco e meus pés descalços estavam cheios de bolhas causadas pela quentura da terra. Eles doíam, mas não podia me dar o luxo de parar e ser pega.

Avistei um precipício e entre os dois lados uma ponte velha. Era me atirar ou enfrentar a travessia. Continuei correndo e no último instante que possuía para pensar, enfrentei a ponte. Diminui a velocidade, mas continuei correndo. Em um desses passos, uma madeira falsa me levou para baixo, permanecendo pendurada por uma das mãos. A coisa se aproximava e antes que eu pudesse ver seu rosto, me atirei em um caminho sem fim. Do alto, algo me olhava com pena: a verdade.

***

Abri aos poucos os olhos e vi que um homem de jaleco branco estava ao meu lado, analisando minha pulsação. A enfermeira retirava o soro já no final, o que me fez imaginar que eu estivesse ali há mais ou menos uma hora. Vi minha mãe levantando-se da poltrona e perguntando algo que parecia com “Sente-se melhor? Você desmaiou por ter saído de casa em jejum e…”. Voltei a dormir.

***

Liguei a televisão em casa, mas pouco escutava, pois o barulho do lado de fora ainda continuava. Acostumei com o som dos vidros quebrando, com o fato de ter de concertar portas e janelas frequentemente e de conviver com os animais que, assim como os homens, procuravam abrigo dentro das casas.

Todos os canais de TV relatavam o mesmo estado: em diversas partes do mundo casas e patrimônios públicos eram destruídos, cadeias eram arrombadas e hospícios libertavam seus pacientes. O mundo havia virado o caos e ninguém controlava a situação. Presidentes haviam fugido e alguns até se suicidaram. Não tinha mais o que ser feito, a não ser sentar e esperar sua vez. Peguei uma maçã do lado da poltrona e dei uma mordida. Estava podre, mas agradeci por ter pelo menos aquilo para comer. Terminei-a com satisfação e fui dormir para fugir de todo aquele transtorno.

***

Eu não estava mais no hospital. Estava em um quarto, branco e limpo. Deitada no colo da minha mãe, enquanto ela me fazia cafuné. Olhei para ela de cabeça para baixo e vi seu enorme sorriso, demonstrando estar feliz por eu ter acordado.

– Está se sentindo melhor? – ela perguntou.

– Estou – respondi sem mentir. A tontura havia passado e eu estava pronta para voltar para casa. – Onde estamos?

– O médico achou melhor que você ficasse de observação por algum tempo. Quer algo? Comida, um copo com água.

– Água, – respondi ainda confusa. – Minha boca está seca.

Olhei para o espelho pendurado em cima da cama e sorri vendo o cabelo desarrumado. Quando sorri novamente para ter certeza do que eu havia visto, observei que um dos meus dentes parecia sangrar. Quando passei o dedo percebi que não era sangue e sim uma lasca da casca de maçã que comi no sonho.

Minha mãe levantou-se e foi até a mesa do outro lado do quarto. Puxei para junto de mim um bloquinho de anotações disposto sobre o criado mudo, sentindo o desejo de desenhar meus sonhos, tentando compreender se havia entre eles alguma relação. Encontrei as páginas escritas com a letra da minha mãe.

27/01 – Começou os estudos.

04/02 – Começou a ter pesadelos e a falar dormindo.*

17/02 – Largou o emprego, dizendo não ter mais a necessidade de trabalhar.

18/02 – Passou a frequentar as aulas apenas nas quartas e quintas.

19/02 – Começaram os desmaios.

*Obs: perseguições, mortes, choros, fogo, noticiários relatando o fim dos tempos, precipícios e uma senhora desconhecida.

Olhei para aquilo sem entender direito o que era, mas julgando não ser algo bom. Eu nem ao menos sabia que falava enquanto dormia. Minha mãe ficou assustada quando viu o que eu havia lido. Esperava que ela me entregasse todas as respostas sem serem pedidas.

– O que é isso? – perguntei, percebendo que ela não diria nada sem ser questionada.

– Filha, – ela fez a pausa costumeira das mães que significava problema. – é para o seu bem.

– O que é isso? – reforcei.

– Apenas algumas anotações minhas, por precaução.

Quando olhei para o canto superior direito do pequeno quarto percebi que lá estava, sempre atenta, uma pequena câmera filmadora, registrando todos nossos momentos no quarto e transmitindo Deus sabe para onde!

– Mãe, será que você não entende. – comecei a gritar, buscando compreensão. Abracei a mulher que me deu a vida, na minha válvula de escape, esperando que assim ela me ouvisse. – Mãe, olha em sua volta. Mãe isso não é real. É só uma escapatória, você entende? Você me compreende? Por favor!

Minha mãe chorava, esperando que os enfermeiros chegassem logo. Eu via estampado em seus olhos que ela não acreditava mais em mim.

– Mãe, você precisa acreditar em mim – eu disse chorando. – Isso tudo é apenas um sonho. Um jeito de fugir do caos lá fora. Seus pesadelos: você se lembra dos seus pesadelos? Eles são todos reais. É sua vida, não fuja dela!

Parecia que eu a estava convencendo quando os enfermeiros entraram no quarto e a afastaram. Aplicaram algo no meu braço e eu adormeci relutante.

– Por favor, mãe! – eu clamava por sua misericórdia e adormeci vendo-a chorar.

“Mãe, existe?”, havia sido minha última aula.

***

Eu estava na praça outra vez. Não sei o motivo pelo qual saí de casa, mas constatei que seria fome, já que senti o estômago reclamar. Todos os armazéns já haviam sido assaltados. Encolhi-me em um beco escuro lembrando-me do dia que minha tia foi arrastada pelos enfermeiros para uma clínica de tratamento psiquiátrico. Ela havia matado os filhos, alegando que eles estavam com o demônio no corpo. Nunca me esqueci disso.

Uma menina de cabelos negros estava sentada na calçada, do outro lado da rua. Um homem dormia em seu colo, como minha mãe costumava fazer comigo. Não sei se dormir era a palavra correta, pois ele estava morto. Ela possuía uma faca nas mãos e sufocando-o com um dos braços, enfiava com a ajuda da outra mão a faca em seu crânio. Fez isso tantas vezes que a entrada e saída da faca já aconteciam sem dificuldades. Ela me deu um sorriso amarelo. Seu cabelo estava sujo e as roupas brancas manchadas.

Levantei-me, pois ela vinha na minha direção. Ao invés de fugir, andei ao seu encontro e queria que, por piedade, fizesse comigo o mesmo que havia feito com aquele homem. Quando ela levantou a faca para me perfurar e eu fechei os olhos entregando-me com o destino, alguém me puxou , tirando-me de lá. Era a mulher.

– Era você – eu disse para a senhora, enquanto olhávamos o Teatro Municipal sendo devastado.

– Há quanto tempo você não dorme? – ela me perguntou.

– Estou entrando na terceira semana – respondi entristecida. – Percebi que não adianta fugir. Apagando lá, acordo aqui. E você?

– Há muito tempo, perdi a conta. Só dormi recentemente aquele dia. O dia que te encontrei no supermercado.

− O que você queria naquele dia?

− Explicar para você o que estava acontecendo. Assim você não ficaria como os outros, loucos. Vivem assim, pois não aceitam a realidade.

− Defina realidade.

− Quando a elite não conseguiu mais controlar as pessoas eles perceberam que haviam perdido o poder. Não tinham mais o controle nas mãos.

− O que eles fizeram?

− Ensinaram as pessoas a sonhar. Acreditar que isso tudo não passava apenas de um pesadelo e que sua vida real é a vida perfeita que sempre desejou.

– Porque com a gente? – era a pergunta que me atormentava. – Por que os outros não compreendem?

– No fundo todos sabem – ela afirmou. – Mas todos fogem. Alguns preferem dormir eternamente. Caso adormeçam lá e aqui o efeito é diferente.

− Surgem os sonhos.

− Não, surge o comodismo e a mentira. Entendeu o perigo de formar seres pensantes?

Sentamo-nos na porta de uma loja desativada e esperamos pelo espetáculo. Em alguns minutos prédios desabaram e as pessoas comemoravam vitoriosas.

− Os dois mundos estão se misturando.

– Quanto tempo para que tudo acabe? – questionei.

– Menos de um mês, mas parei de assistir os telejornais. Eles afirmam que ainda há esperanças e que tudo está sobre controle.

Há alguns dias atrás fui dormir com a frase do meu professor na cabeça: “Quem disse para você isso tudo em sua volta é real?”.

Acordei e nunca mais dormi.

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