De frente… enfrente! (Fheluany Nogueira)

 

 

A cachorrinha que parece não gostar da casa, não quer saber de ninguém e vive como gente à parte, pelos cantos. E, late a noite inteira, bem de frente das pessoas, numa acusação.

— Não há mais razão para ficar com ela… — o pai vai matar a cachorra cor preta, com manchas marrons… Carrega a espingarda, segue-a por entre a fileira de tijolos no jardim. Nina não escuta o tiro, mas vê o sangue no tijolo cru; não pode olhar a espingarda. O pai matara com raiva.  E isso transformou o mundo em e cinzas.

Ninguém me ama

      Ninguém me quer

   Por isso eu vou

     Comer barata!

— É você, Élio? Nem vem com essa de me fortificar… — Nina limpa as unhas de sujeira invisível, quando escuta, entre lágrimas, o compasso de uma música que ninguém mais ouve — Pode voltar para sua caverna e seus incensos. Não o chamei!

Barata frita! Sshiiiff…

                 Barata assada! Huummmm…

    Sopa de ba-ra-ta!!!

O homenzinho continua a cantar, puxando a ponta da barba grisalha e chacoalhando o cachimbo, para depois, verde de indignação ou por reflexo das vestes, indagar:

— Como assim? Essa maçã não é para mim? Não foi assim que combinamos? A menina descalça, deitada na grama, de barriga para baixo… — bravo, mas fazendo gracinha, sem perder o bom humor.

 

— Filha, venha! Vamos para a casa da vovó – algo na voz da mãe a incomoda, tanto que atende o chamado de imediato.  Ainda ouvindo mais um trecho da canção do velhote, Nina percebe que os pais discutem, que o carro já está com toda a bagagem necessária para a viagem e que o irmãozinho berra preso na cadeirinha.

— E o papai? — a resposta foi um categórico “não vai, tem negócios! A vida dele é ganhar dinheiro.”

 

 

Enquanto segue pela rodovia, Zélia perde a primeira entrada e, em vez de fazer o retorno, decide continuar pelas montanhas, em direção norte; caminho mais longo, só que mais bonito. O zumbido da estrada e o calor do sol, combinados à música repetitiva do pendrive gravado para o bebê, trazem um efeito relaxante, e a motorista abre a janela na esperança de que o vento a mantenha atenta. Mas, os olhos se fecham por alguns segundos…

A primeira ideia que passa pela cabeça de Nina foi: quem apagou a luz? O pescoço dói, a buzina toca e o bebê chora. A garota estende a mão para o irmão, encontrando um campo de força – uma maleta caíra para frente e se abrira. Tateia por baixo do empecilho e acaricia a mãozinha, acalmando o menino. Empurra os pinos do cinto de segurança, estica-se para abrir a porta — os airbags laterais cobrem todas as distâncias — puxa a maçaneta: presa…

Barulho de fora. Vozes agitadas, impossível entender o que falam. Língua estranha! Chutes e mais chutes, pancadas e rangidos. Por fim, o carro se enche de sol… e daquela arenga:

Arranca a cabecinha!

                  Bebe a melequinha! Buéééé…

 Joga o resto fora!

Élio traz ajuda, transbordando de forças e energias, carregado de ervas e sais. E, foi aí que Nina avista a mãe no banco da frente, parece dormir sobre um travesseiro enorme.

— Acorda, mãe! — chama aflita. — Acorda, por favor! — nenhuma resposta.

O homenzinho determina que um grupo de companheiros cuidem do bebê e da mãe, enquanto ele mesmo prepara Nina para providenciar socorro — é a responsabilidade da menina, já que os gnomos não poderiam aparecer.

— Usem a magia dos nós e benjoim — completou o gênio, observando como o veículo perdera a estabilidade rumo a uma ribanceira, onde dera uma série de capotadas.

— Feche os olhos — o anão orientou Nina que sangrava na testa e em uma das pernas —   relaxe e procure sentir a energia. Toque o solo com as mãos, e imagine um círculo com velhos carvalhos de galhos maciços, com raízes no coração da terra. Inspire profundamente. Invoque o anjo da guarda.

A garota, então, abre os olhos lentamente, levanta-se e abraça a árvore mais próxima — conforme a explicação.

— Estranho! Parece que ganhei um presente – Nina tagarela, os machucados vão se cicatrizando, o irmãozinho brinca e a mãe está respirando com menor dificuldade.

­— Breve assomará diante das grutas e penetrará os fundos caminhos onde catará o segredo do chão, cochichará entre os duendes, amará os bichos, penetrará o silêncio das coisas e virá docemente tateando cristais, despojada de fomes e de iras – Élio se torna mais formal e compenetrado, mesmo continuando persistente e terno. Nina acredita nele. O poder da cura vai se concretizando.

 

Uma intensa luz brilha no interior de uma gruta (que ela não notara antes) e se expande em direção a todo o universo, com uma força atrativa. Impressiona a menina o pentáculo, incrustado na rocha:

— Que é isso?

— São os elementos, coincidem com os pontos cardinais: NorteTerra; Sul – Fogo; Leste – Ar; Oeste – Água.

Entraram na loca com suavidade, um lugar de segurança, de aquecimento…. Nina capta o mistério, descobre a beleza e o cheiro denso dos subterrâneos, constata o metal convertido em matéria de consideração, prova a pureza das águas internas.

A gruta não era um fim em si mesma, não era o fim de trajeto; uma etapa imprescindível para compreender a magia. Uma abertura da natureza que acolhe e abriga, espaço para refúgio, proteção do frio, tudo em expectativa, tudo em seu estado puro. A menina se deslumbra diante da própria fragilidade. Entrar ali torna-se uma privilegiada ocasião para soltar as amarras internas, tirar as paredes que separam ou dividem, abrir espaços acolhedores… Ainda meio desorientada, tenta concentrar-se para raciocinar.

A entrada é estreita, como um corredor muito comprido, iluminada por algumas tochas suspensas nas paredes coloridas por uma grande coleção de cristais cravados nas pedras que brotam do chão. Um perfume inebriante sufoca Nina que escuta uma abundância de ruídos, como marteladas, batidas, coisas arrastadas, galhos se quebrando… É ali que os gnomos vivem: no coração da matéria bruta, mais pesada.  Havia riquezas e prosperidade.

A menina continua descendo uma rampa, quase tropeçando em seus próprios pés. Domina sua fragilidade e consegue admirar os seres baixinhos, bonitinhos, alegres e bonzinhos que trabalham. Se alguém sabe onde estão os metais e as pedras preciosas, são eles…

Élio aponta para um rochedo colocado no centro da cratera. Nina se coloca no lugar indicado. Então, torna-se somente cabeça, perde todos os prolongamentos e fica em repouso. Uma realidade inimaginável, de tirar o fôlego. Ela está fascinada com as descobertas, atravessa florestas de cogumelos, poços, labirintos. Tudo lhe entra pelos poros, flutua, cheira, toca, ama… ama sobretudo as coisas, os seres menores, as sombras, as luzes distantes, um som perdido, um frêmito quase indistinto. Nina se basta. Pronta.

 

— Mamãe? Meu irmão? — assustou-se por deixá-los…

— Fique serena. Logo prosseguiremos. O tempo não existe na travessia — o gnomo a tranquiliza.

 

****

 

Embora ainda doesse virar a cabeça, Nina olha para a encosta íngreme, com pedras do tamanho de poltronas, árvores e nenhuma corda. A menina não sente dor enquanto rasteja, sem olhar para baixo e para trás, até chegar à estrada de onde a mãe saíra.

— Pare! Uma menina surgiu do nada! Ali na beira do declive — a passageira grita.

— Socorro! Mamãe precisa de ajuda — Nina pula, agita os braços e corre em direção da minivan. Ligam para a emergência. Os bombeiros estranham o carro estabilizado, que só, por um milagre, não rolou penhasco abaixo. A cena lembra um desenho animado.

 

Zélia começa a recuperar a consciência quando o socorrista desceu escorregando pelo morro. O rosto arranhado e inchado volta-se para o desconhecido e pede que veja as crianças. Ele empurra o airbag e mostra a ela o anjinho, que, para espanto, dormia calmo, envolto em sua manta. Conta que a menina já estava na estrada e como ela havia salvo os outros dois.

Na ambulância, começam a fazer a verificação das lesões. Não há! Apenas marcas. Tudo parece estar funcionando. No hospital, o ritual se repete com raios-X, tomografias, exames diversos. Nada. Cicatrizes na cabeça, no tórax, nos membros, de cada um dos três. Sem lógica.

 

— Minha mocinha é extraordinária — o pai orgulhoso pela coragem da filha, promete dar-lhe algo que quisesse muito. Nina diz que, além de um outro cãozinho, queria um caixa de maçãs, inteirinha… E, conta uma longa história.

— Quanta imaginação! Nunca devemos permitir que os fatos atrapalhem uma boa história — comenta a mãe! Nina pensa no ato de amor e mágica com que fora presenteada, algo sólido, confiável, normal. Não fora uma situação totalmente incômoda! Ela aprendeu estabelecer uma comunhão com a terra. Bom cheirá-la, sentir o movimento subterrâneo das minhocas. O vento se adoça nas noites de inverno; há estranhos e incandescentes fenômenos nas estrelas. Os gnomos se entendem com os grilos e vaga-lumes, falam às pedras e às formigas… Tudo é prosperidade. Ah, o mundo dos duendes não é o mundo dos humanos! E, nos ouvidos dela, ainda ressoam  as notas restantes daquela canção:

Dois passos pra frente,

   Dois passos pra trás,

         Remexe sempre o corpo,

               Que agora eu quero mais!!!!

 

 

 

 

 

 

17 comentários em “De frente… enfrente! (Fheluany Nogueira)

Adicione o seu

  1. Um belo conto onde magia e realidade se misturam num equilíbrio preciso. Se a autora me permite uma sugestão: no primeiro parágrafo o leitor se prende à menina por causa da tristeza que ela sente pela perda de seu cachorrinho. Mas, em seguida, há um hiato nesse sentimento, um distanciamento da personagem que nega a ajuda do duende que vem para lhe fortificar (fortificar é palavra não usual no vocabulário de uma criança – que julgo em tenra idade porque incapaz ainda de entender o motivo ou desentendimento dos pais), assim, na minha humilde opinião, aprofundaria um pouco mais o sentimento da personagem, ou trabalharia melhor essa transição para o avanço dos parágrafos posteriores. No mais, um belo texto!

    Curtido por 3 pessoas

  2. Ah, que coisa mais linda!!! Fiquei emocionada aqui… Gostaria de conhecer esses seres tão mágicos e solidários! Uma pena a morte do cachorrinho, mas talvez tenha sido o elo que desencadeou a ligação entre a menina e a terra, a natureza. Muito bom! Queria mais!!! BJS ❤

    Curtido por 3 pessoas

  3. Gnomos socorristas! Gostei da forma como foram sendo encaixadas as palavras obrigatorias… hehe
    Achei as falas um tanto artificiais e fiquei feliz com o final feliz 🙂
    Parabéns pelo texto, contista!!

    Curtido por 4 pessoas

  4. Querida Contista,
    Tudo bem?

    Não sei se alguma de vocês pode imaginar minha alegria por partilharmos mais um exercício de desafio As Contistas.

    Vamos ao conto?

    Mais do que a mescla magia e realidade, este conto me parece uma linda história de utopia. É na possibilidade de se reverter o mal, que o bem opera no mundo criado pela autora. Não um acidente fatal devastando uma família, não o fim, mas a força de uma menina para salvar todos os seus, através de uma ajudinha dos fantásticos seres da terra.

    Gostei muito do senso de humor do personagem Gnomo e sua amiga, com a história da barata, com quadrinhas, sempre tangendo a menina para o lado alegre da vida. E, mais que isso, equilibrando o texto.

    Parabéns, querida Contista.
    Espero que este seja apenas mais um de muitos e muitos textos que escreveremos e leremos todas juntas.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 4 pessoas

  5. Um conto sobre o otimismo, a esperança, com ares de histórias infantis, mescla do real e do fantástico e lição de vida.Gostei da naturalidade com que a menina conviveu com os mágicos, da canção marota e da forma como a família foi salva. Com certeza, o pai atirou na cachorrinha porque estava doente, sem recuperação e, não, por maldade.

    Parabéns pelo trabalho. Boa sorte no Desafio. Beijos. ❤

    Curtido por 3 pessoas

  6. Um conto com carinha de conto de fadas, com gnomos prontos para socorrer os acidentados. Baseada nos elementais da terra, a narrativa prende a atenção pela curiosidade que temos de saber como ficarão todos os envolvidos no acidentes. Que bom que o final é feliz e Nina tem a promessa de ganhar um novo cãozinho e o caixote cheio de maçãs para o amiguinho. Achei uma história bem gostosa de ler, sem complicações. Parabéns!

    Curtido por 4 pessoas

  7. Li de novo. Encantada com a história e com a forma escolhida para contá-la. “Nunca devemos permitir que os fatos atrapalhem uma boa história”. Premissa para uma boa fantasia. Queria ter escrito… Parabéns, Contista!

    Curtido por 4 pessoas

  8. Olá, contista!
    Belo trabalho, a mágica e o trabalho dos gnomos foi tão bem contado, achei maravilhoso.
    Só um detalhe…gnomos e duendes são diferentes rs. ..o anjo também apareceu, o que não aconteceria num contato, mas amei demais e são só detalhes.
    Beijos

    Curtido por 3 pessoas

  9. Olá, Contista amiga. Confesso que tive alguma dificuldade com o seu conto, magia e fantasia em dose excessiva para mim, tão terrena que sou. Ainda que o meu ser terra não seja o elemental mas o prático. E gostei do conto mas para mim tem precisamente falta de factos. Você tem razão, elas não devem atrapalhar uma boa história, mas alguns fazem falta, pelo menos a alguns leitores. E fiquei indignada com a crueldade do pai, nem que o cão estivesse doente e fosse um ato “piedoso”, a menina teria de ser esclarecida e jamais poderia assistir. Então, ao não perdoar o pai, não aceitei aquela aproximação final. Mas mesmo assim envolvi-me na história, tomei partido, isso é precisamente o que um autor precisa criar em qume o lê – e poucos o conseguem.
    Parabéns, contista.

    Curtido por 2 pessoas

  10. Acho que eu sei quem escreveu esse conto, só por causa da história de comer barata, rs. Um conto onde fantasia e realidade se unem com muita harmonia e doçura. A vida pelos olhos de uma menina. Vi tudo pelos olhos dela, o conto está lindo, só retiraria a parte da cachorrinha, não interferiu na trama e fiquei triste. Sei que parece loucura, mas não gosto que animais morram nem que sejam ficcionais, a menos que isso seja necessário para o deslinde da história. Isso não é uma crítica, apenas uma opinião, viu? Parabéns pelo lindo e doce conto, beijos

    Curtido por 2 pessoas

  11. Olá, amiga contista! Seu conto é uma graça! As palavras foram muito bem encaixadas em uma história de superação e do encontro com a magia e com os gnomos, Muito bom! Não entendi bem por que você decidiu começar com o assassinato da cachorrinha, parece não ter nada a ver com o resto… desculpe se perdi alguma coisa. No mais está tudo muito bem ambientado e gostoso de ler. Parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

  12. Querida Contista!

    Obrigada por me propiciar mais uma leitura de um conto teu!

    Esse desafio foi ótimo, né!? Adentramos em um mundo verdadeiramente fantástico!

    Sobre o teu conto, eu achei muito inteligente usar uma cena bem humana e comum, como um acidente de carro, para inserir os elementos fantásticos. E bota fantásticos nisso, né!? Os gnomos basicamente salvaram a vida da família, de várias formas. Eles encheram a menina de força e bravura.

    Não sei se eu estava preparada para me deparar com um pai resiliente ao final do conto, na medida em que a primeira cena exalta a rudeza dele, mas quem não gosta de finais felizes, né!?

    Parabéns!

    Grande beijo,
    Sabrina

    Curtido por 2 pessoas

  13. Olá.

    Gostei bastante dessa ” aura” infantil dada ao conto, algo bem contos de fadas com cenas inusitadas como a do acidente e dos duendes ajudando. A magia transbordou aqui de forma bastante criativa. Talvez tenha sentido um pouco de falta de maiores explicações, tanto pelo começo quanto pela ” musiquinha” da barata e etc. Mas é um ótimo conto, jovial e sensível. O final feliz é sempre bem vindo.

    Parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

  14. Pra mim esse conto está bem chub, hã? Fofo até não querer mais. Eu já li tanta história com elementais da terra que geralmente torço o nariz. Mas esse não! Gostei dos versinhos em meio ao texto, ajudou no ritmo. Li de uma vez só. Parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: