Passageiras – Sabrina Dalbelo

O Emissário, criatura responsável pela Passagem, é o funcionário a quem incumbe a evolução dos processos. Forjado no início dos tempos, desde a primeira morte de um ser dito vivo, seu grande mister é o de depositar as almas na grande labareda da purificação e, com isso, manter o ciclo da transmutação. Ele perambula nu, não se alimenta e não pensa em nada.

Ele é apenas o ente responsável por guiar as passageiras. Não mata, não cobra, não escolhe, não ganha nem perde nada a partir do seu labor. Existe porque lhe é dado existir.

O Emissário é apenas um, ainda que não seja propriamente uno. Não tem braços, pernas, asas, membros, vontades ou posses, assim definidos. Ele tem a força suficiente para alimentar o Fogo da cura com as almas, e essa é toda a força do mundo.

O lugar onde está o Emissário é cheio de corredores vazios, desabitados, sem corpos, sem tapetes, sem janelas. Não há boas-vindas nem despedidas. Chamá-lo de purgatório seria mascará-lo com o entendimento limitador de “habitar”. Portanto, o lugar da emissão não é um lugar ao qual alguém pertença ou onde se estabeleça. É uma passagem.

O Emissário nunca soube falar linguagens, faladas ou de sinais, não aprendeu a exercitar a escuta, nem usa os pés e as mãos que não tem. O Emissário apenas orienta a fila de almas que adentra pelos corredores, até a fornalha do Fogo, este sim, verdadeiro proprietário do não-lugar, no qual o Emissário atua como uma espécie de governanta e do qual as almas são o combustível.

As almas chegam para a Passagem, sabe-se lá vindas de onde, pois não é dado ao Emissário conhecer origens e destinos. Talvez elas surjam das velas apagadas, dos ventos cortantes, das chuvas torrenciais, das lágrimas de sangue, ou das dores do coração. Talvez as almas façam a Passagem quando se ausentam.

Todas as almas chegam na mesma condição, chorosas. Mas não se ouvem lamentos, nem se enxergam lágrimas. As almas vagam, organizadas, em um silêncio desolador, ainda que desesperadas. O Emissário não sabe disso, e nem conhece o conceito para se importar. Ele está confinado a conduzir as almas ao Fogo, como se alimentasse com lenha uma fogueira.

Uma a uma, perfiladas sem fim, recebem do Emissário a ordem inata de entrar no Fogo. Sob o ponto de vista do Fogo, que tudo vence, o fato da alma atravessar as suas chamas tem um sentido de confronto. Em contrapartida, para as almas, esse ato é recomeço, pois elas são transeuntes em um ciclo eterno de evolução. Elas não passam para confrontar o Fogo, mas para pagar.

O choro que dura séculos só cessa nesse momento, o do Pedágio.

O Pedágio é o preço cobrado da alma perturbada, não importa a vida que tenha levado. É que alma tem significado muito maior do que vida. O preço corresponde a um atributo específico da alma, aquele do qual ela não depende mais para evolução. O atributo é retirado a força pela autoridade do Fogo e o choro simplesmente desaparece.

Cada alma, ao tocar o Fogo, assim, perde uma competência para algo, a experiência em algo, ou a persistência, a persuasão, o compromisso, a liderança, a motivação ou algum outro atributo dispensável para a sua identidade como alma, para a sua energia como organismo perfeito.

As salamandras, espíritos que habitam o Fogo, tem como papel sussurrar ao pé do ouvido de cada alma qual o Pedágio ela deve pagar. São elas as partes do Fogo que transmitem a serenidade às almas na hora da Passagem. As almas não sofrem, as almas não lembram, a partir daí.

A cada alma que passa, o Fogo atinge um vermelho vivo, cor da cura. A cada alma que se evapora na Passagem, o Fogo atinge um tom laranja, cor da vitória.

As almas não sentem perda, pois libertam-se de crenças e dores, unidades de sua constituição inicial.

O Fogo, dono do não-lugar, é o verdadeiro superior e encarregado pelo arbítrio, a quem as almas saúdam e pagam o preço pela Passagem. Ele não é mal, tampouco bom. O Fogo apenas é, para todo o sempre.

O Fogo é puro querer, mas também é poder. Ele purifica o mundo, abre espaço para o novo, para o ressuscitado, faz pó e traz do pó, garante que as coisas recomecem, transmuta.

Surgido dos mais remotos tempos, a partir do ponto zero das galáxias, da centelha das estrelas, do ódio dos deuses, do sexo dos anjos, da conexão entre Norte e Sul, Leste e Oeste, o mais puro entre os elementos, o Fogo é quem aniquila para possibilitar a ressurreição.

O Emissário segue sua rotina, incessante.

Mais passageiras atravessam.

O Fogo nunca se apaga. Ele não erra.

17 comentários em “Passageiras – Sabrina Dalbelo

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  1. Uma espécie de ode ao fogo. Elogio da purificação. Porque através dele a natureza se renova e por que não também as almas? É uma narrativa diferenciada e bastante reflexiva, na minha opinião. Um conto que exige leitura mais atenta.

    Curtido por 4 pessoas

    1. Voltando aqui (estou na tentativa de fazer um comentário melhor, desculpe se não ficar bom)

      “não importa a vida que tenha levado. É que alma tem significado muito maior do que vida.” grande isso, muito grande.

      “Ele não é mau, tampouco bom. O Fogo apenas é, para todo o sempre.”
      fiquei até arrepiada!

      Não tenho nem ideia de quem escreveu isso, mas sinto que é uma alma velha, muito evoluída. Se for isso mesmo que você pensa, acredito que sim.

      Conto muito bom. Um ensinamento.

      Curtido por 4 pessoas

  2. A purificação através do fogo que permite que as almas se transmutem e tudo recomece. Um julgamento? Um veredito próximo ao Juízo Final? Fica ao leitor a decisão da escolha. Texto bem urdido em trama que remete a reflexões pertinentes à nossa humanidade. Passagem primorosa:

    ” O Fogo é puro querer, mas também é poder. Ele purifica o mundo, abre espaço para o novo, para o ressuscitado, faz pó e traz do pó, garante que as coisas recomecem, transmuta.”

    É preciso se desapegar do passado para que o futuro nos alcance. Mas assim que ele nos alcança desapegados do passado, já não somos os mesmos.

    Parabéns pelo belo texto!

    Curtido por 4 pessoas

  3. Confesso que a ideia de recomeçar tudo de novo me assusta. Prefiro pensar que o fogo ‘evapora’ as almas, dando-lhes a paz eterna. Interessantes reflexões afloram depois desta leitura, com frases fortes, de impacto.
    Particularmente, gostei bastante desta: “Ele não é mal, tampouco bom. O Fogo apenas é, para todo o sempre.” Não há culpados ou inocentes, apenas existência… BJS ❤

    Curtido por 6 pessoas

  4. Querida Contista,
    Tudo bem?

    Que maravilha participar de mais um desafio-exercício com todas vocês. Somos tão diversas e múltiplas. Que lindo!

    Vamos ao conto?
    Se para a Vanessa o que assusta é o recomeço, para mim, é o apagar da identidade. Certa vez, há muitos anos, li uma teoria de um padre que dizia que, ao morrermos, nossas almas se juntariam ao todo. Uma espécie de massa de almas, sem identidade, porém, fazendo parte do que ele chamava de Deus. Assustador. O coto me remeteu à teoria.

    Interessante a imagem do fogo para apagar, purificar, dar um reset nas almas, livrando-as do sofrimento, da culpa e da dor. Estamos acostumadas a ver o fogo como purgação e punição infernal. Fato, inclusive, que a autora tratou de cuidadosamente afastar do imaginário do leitor, ao deixar claro que, o local incendiado não se tratava de um purgatório.

    Um conto cheio de filosofia, e, capaz de instigar o leitor.

    Parabéns, Contista.
    Espero que este seja apenas mais um de nossos trabalhos juntas.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 6 pessoas

  5. Muito bonito!
    Realmente uma ode e muita filosofia!
    Lembrei muito de uma cena do filme Deuses do Egito, mas nao como cópia, mas a alusão ao fogo como purificador das almas e o pedágio, no filme as almas precisavam levar dinheiro consigo.. precisavam ter acumulado algo material durante a vida.
    Aqui, não, o fogo realmente as libertava dos fardos emocionais e psicologicos acumulados da vida material.. muito interessante.
    Parabéns, contista!

    Curtido por 5 pessoas

  6. O fogo é um importante instrumento de manejo em diversos ecossistemas, no mundo todo, havendo indicações seguras de que sua própria manutenção seja dependente de queimas periódicas. Na Bíblia, essa ideia aparece repetidas vezes: “passar esta terceira parte pelo fogo, e a purificarei”. Dessa premissa que a autora se valeu para fazer avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar o fogo.

    O texto, situado entre o poético e o didático, expõe ideias, críticas e reflexões éticas e filosóficas, portanto, pode ser considerado um ensaio sobre a purificação através do fogo.

    A metáfora do “Emissário” é forte e complexa, pois refere-se à tubulação utilizada para lançamento de esgotos no mar e, no texto, é o enviado que conduz as almas para o fogo, auxiliado pelas salamandras. Encontrei algum tom apocalíptico, mas com a esperança do recomeço após a limpeza.

    Um trabalho diferente, profundo que desperta para a realidade. Parabéns, tudo bem encaixado conforme as regras do Desafio. Um abraço. 👏👏

    Curtido por 4 pessoas

  7. Mais uma vez, o fogo como protagonista. O elemento fogo como purificador e as salamandras como suas dedicadas auxiliares que promovem a ordem da passagem sem dor das almas. As chamas tudo queimam, purificam e trazem de volta a pureza do recomeçar. Muito bonito isso e ao mesmo tempo assustador, pois também me faz pensar nas chamas do inferno, embora aqui o fogo pareça mais amigo do que castigo. Parabéns pelo trabalho!

    Curtido por 5 pessoas

  8. Aqui não temos propriamente um conto mas uma hipótese sobre a Passagem, a transição das almas após o fim da vida. O Fogo trazendo cura e purificação, sem a hipótese de julgamentos, mas simplesmente como uma etapa necessária. Gostei de ler. Parabéns!

    Curtido por 4 pessoas

  9. Olá, amiga contista!
    Seu conto é quase uma reflexão, uma visão sobre o porvir, muitíssimo bem exposta.
    O fogo -purificador – o não lugar e a ausência de dores e anseios são ideias bastante difundidas em algumas crenças.
    Gostei!

    Curtido por 3 pessoas

  10. Vou comentar este conto? como? o conto é apenas o pano de fundo de uma reflexão ela sim, digna de comentários que nem estará ao meu alcance elaborar. Imagino que para uma pessoa que tenha fé em um qualquer deus que acredita (não sei se é o caso da autora) este conto seja der leitura simples e superficial: os crentes costumam tratar a morte por tu, pois acreditam que andam aqui a sofrer por uma causa maior que decsonhecem, mas que aceitam como tal e pouco lhes importa morrer aqui. para acordar acolá onde já estão muitos dos que amam e aonde ir parar todos os que ainda amam. Para alguém que não crê em entidades exteriores aos seres vivos debaixo do sol, a questão da morte ganha contornos bem mais complexos. Até porque todos estamos de acordo em como “É que alma tem significado muito maior do que vida.”, mas ninguém sabe o que sucede à alma quando a vida acaba e nem existe qualquer garantia quanto à sua continuidade.
    De que me formei? de que provenho? para onde vou? são as perguntas do ego à alma. Acredito que a alma, se pudesse, lhe responderia: “És meu filho” e quando o filho lhe perguntasse: “E de onde vieste tu?”, a alma responderia: “Sou filha direta da vida”
    Que mais posso dizer?
    Uma reflexão soberba e muitíssimo bem escrita.
    Parabéns, autora.

    Curtido por 2 pessoas

  11. Olá, amiga contista! Seu texto não me parece um conto, propriamente dito e sim um reflexão sobre o fogo, as almas que são queimadas para a purificação e ressurreição, um texto muito filosófico. As palavras foram bem empregadas, mas senti falta de um enredo, de personagens, a história ganharia muito se contada a partir do ponto de vista de alguma passageira, narrando tudo o que via e o que sentia. Bem, é isso! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  12. Querida Contista!

    Obrigada por me propiciar mais uma leitura de um conto teu!

    Esse desafio foi ótimo, né!? Adentramos em um mundo verdadeiramente fantástico!

    Sobre o teu conto, o entendi como uma expressão de um lugar imaginário, irreal, talvez um supra-purgatório ou, talvez, o que seria, de fato, um.
    É o fogo que liberta, que salva, que nos ilimita. Gostei.

    Parabéns!
    Grande beijo,
    Sabrina

    Curtido por 1 pessoa

  13. Olá,

    Um texto filosófico que leva a reflexão. Como já disseram um ode ao fogo. Achei interessante e impactante a forma como ele é retratado, assim como a missão do emissário. São personagens de um contexto onde a vida evapora e tudo ao que parece será esquecimento. Um pouco triste eu diria.

    Não diria que é um conto ou mesmo que tenha se firmando com o elemental, mas é um texto impar que vale muito a leitura. Parabéns.

    Curtido por 2 pessoas

  14. Olá, eu gosto desse tipo de texto, na minha visão não é um conto, embora você tenha contado algumas coisas sobre o emissário, a princípio pensei que fosse um conto sobre o fogo, ele sendo a personagem, mas acho que não. Ainda não tendo característica de conto, é um texto que passa segurança e muito interessante de ler. Eu gostei muito, parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

  15. Nossa, Sabrina! Sensacional! Excelente texto e super inspirado, destes que eu queria ter escrito, sabe? Palmas! Fiquei sem palavras.

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