Sal & Amanda (Claudia Roberta Angst)

─ Tem certeza? Não quer pensar melhor? Olha que esse é um caminho sem volta…

Mas Amanda estava decidida. Nem mesmo um único cílio tremulava em hesitação. Nunca tivera tanta certeza na vida. Aquela era mais uma promessa de verão que cumpria sorrindo.

─ Manda ver!

E assim, o som metálico ganhou ecos como relâmpagos subliminares que aos poucos reduziram o silêncio a alguns suspiros e ais de admiração ou talvez espanto.

No chão, o derrame dos cortes, da evolução de processos impostos pela impulsividade de dias intensos orientados pela relutância de não se deixar levar por simples conveniência. Não sentiu dor, nem mesmo angústia, pelo contrário, sentia a cabeça leve, livre de um peso que há muito não lhe pertencia.

─ Isso é o bastante para você, querida?

─ Mais um pouco. Vamos até o fim.

E foram até chegar ao mínimo disponível, à margem da real identidade que enfim emergia. Ela encarou a novidade, depois de travar uma batalha em um terreno desconhecido, como se enfrentasse um vulcão interior e se acostumasse com o calor aos poucos.

─ E ainda quer … o resto?

─ Quero!

A voz baixa, mas firme, não deixava dúvidas. Iria até o fim, queimaria aquela etapa, arderia na fogueira da própria vontade. Era o renascimento necessário após noites insones e sem graça alguma.

O chão pareceu subir, ou parte dele, ou o seu calor. Amanda sentiu-se observada por olhos reptilianos, oblíquas sentinelas à espreita como se quisessem ver até onde ela iria. Chamas invisíveis a todos ali, menos a ela, que já conhecia aquela energia.  Percebia as labaredas lamberem as pernas das funcionárias do salão e demais clientes. Amanda sorriu, já sentindo a transmutação se completar. Como haviam lhe dito. Como ela sempre desejara.

A porta envidraçada abriu-se de repente. Todas ali olharam o impetuoso jovem entrar no salão com ares de que tudo podia. E sim, ele podia tudo. Os olhos de uma cor indefinida traziam a luz de meio dia. Esguio, sinuoso e dúbio, assim ele se insinuava entre as mulheres boquiabertas.

 Salvador Nunes Neto! O que você está fazendo aqui?

Celeste, a dona do salão e, por acaso, mãe daquele rapaz espetacular, quase o enxotou do local, espantada com a naturalidade do jovem.

─ Só vim trazer a lâmpada que pediu, e dar uma olhada …

E olhou. E olhou de novo. Mais uma vez. Até decorar a imagem que Amanda também via no espelho. Sem se tocarem, perceberam as labaredas se aproximarem, fundirem-se em uma procura sem pressa, lentas ardências, cortes não revelados.

 Tá, então me dê logo isso e suma daqui, moleque! ─ Celeste que não primava pela delicadeza, mas prezava a privacidade das clientes, arrancou a sacola das mãos do filho e o foi conduzindo para fora com autoridade matriarcal.

Ele se foi deixando um sorriso que mais pareceu um abraço. Quente, e ao mesmo tempo, úmido. Amanda sentiu o roçar da pele escamosa, do ser que se alimentava do mesmo fogo que agora compartilhava com ela.  Acompanhou o rastejar que a impulsionava para além do momento.

Depois de receber os últimos toques e retoques em seu novo visual, Amanda levantou-se apressada, deixando um rastro de – Oh! Que linda! Ficou demais! – pelo corredor até chegar à porta. Antes de dar mais um passo, fechou os olhos e suspirou. Sabia que ela a acompanhava como uma sombra alaranjada. Agradeceu sua presença e quase entoou uma prece, um apelo, talvez um pedido de socorro. Não deixe que ele se vá.

 Só ia esperar mais duas horas. ─ Ele brincou, exibindo dentes e a língua como convite.

Ela sorriu e quase se jogou nos braços daquele que a fazia refletir estrelas no olhar. Salvador, o jovem e belo Sal. Jovem demais para ela, alguns diriam, mas Amanda reconhecia-se plena ao se deitar com ele. Uma aventura clandestina, como toda paixão que nasce imperiosa e sedenta, avessa a qualquer censura.

 ─ E então, gostou? ─ Perguntou passando a mão na cabeça quase desnuda.

Sal a puxou para dentro do carro e longe dos olhares curiosos, alisou sua nuca, fazendo movimentos circulares até atingir o topo da cabeça. Os cabelos curtos, uma penugem macia e vermelha, eram de fato uma surpresa e tanto. Havia sido esse sempre o maior atrativo de Amanda: a sua capacidade de renovação, a transposição de limites, o descaso pelo convencional.

─ Mais bonita do que nunca.

Pôde sentir o gosto de noz moscada nos lábios, o suave apimentar do desejo que os ligava tão fortemente. Ela cheirava a rosas, e ele a café.

Não encontraram razão para adiar o prazer, mas antes tinham um compromisso a cumprir. A sombra quase em chamas ainda denunciava a presença do elemental, que cobrava lealdade a sua natureza.

No pequeno apartamento de Amanda, iniciaram o ritual juntos: velas, incenso de sândalo, ramos de arruda, o pedido por mais sucesso e riqueza. O rapaz aprendera a respeitar aquela mania de Amanda e não se opunha a qualquer crença. Achava interessante a vitalidade que a namorada dedicava aos elementos da natureza, mas preferia estar no mar, entre uma onda e outra.

Depois, era só mais entrega. De ambos, sem qualquer compromisso. E lá estava ela, nas costas desnudas, marcadas pelo suor e o sal após o amor. As linhas desenhadas na pele, do animal inusitado, quase dragão, quase mulher. Salamandra em chamas, alimentando-se do calor a expandir da alma.

Encontravam-se como fugitivos de uma outra história. Sabiam que não seriam bem acolhidos pela sociedade que, afinal ditava as regras, e só enaltecia o ego do medíocre e pacato cidadão. Amanda não ligava para isso, importava-se somente com o que era revelado pela chama da vela, mensagens que eram decifradas em segredo e aqueciam sua alma. Não haveria alho ou cruz, ou mesmo bala de prata, que impusesse fim àquele enredo.

O tempo passou mais rápido do que o chicotear de uma cauda mágica. A tatuagem nas costas de Amanda envelhecia, mas ganhava novas cores, tantas outras que pareciam brilhar mesmo no escuro. Salvador nunca pediu por mais explicações, deixou-se levar pela misteriosa presença de algo maior, mais profundo, que também alimentava seus sonhos.

Um dia, uma tarde qualquer de fim de verão, resolveram sair ao sol. Passos seguidos de perto pela salamandra rainha que, afinal, encontrara companhia de outras iguais. Salvador e Amanda podiam sentir o rastejar e as chamas deixando um rastro atrás de si, mas nada questionaram. Não era a primeira vez que isso acontecia, nem seria a última. Não falavam mais sobre o mistério, apenas repetiam os rituais e aproveitavam o calor que lhes proporcionava tanta vitalidade.

Naquela tarde, sob o sol quente sem pausa ou sombra, Amanda ouviu a mensagem que antes só lia na chama da vela: ouse e se deixe queimar. Talvez, Salvador tenha escutado as mesmas palavras ou apenas intuído, movido pela grande cumplicidade que experimentava junto àquela mulher.

─ Então, vamos?

Ela concordou com a cabeça, piscando para trás, como quem dispensa qualquer proteção. Salamandras entrelaçavam seus próprios corpos, transmutando cores e odores desconhecidos pelos intocados pela chama etérea.

Deram-se as mãos e assim seguiram lado a lado. Amanda levando um girassol e, ele o sorriso sem fim. A cada passo, ficavam ainda mais próximos, ignorando os olhares intrigados de conhecidos e outros pedestres desavisados. Alguns tropeçavam no vazio, outros praguejavam ao sentir a calçada queimar, mas nenhum ousou reclamar da sorte.

O destino, antes só experimentado em reclusa harmonia, agora era revelado a todos que quisessem olhar, apreciar, ou até mesmo julgar e condenar. Eram, enfim, eles mesmos sob a luz do dia. Os mesmos de sempre, de todos os anos, renascidos e revigorados. Experimentavam a liberdade como única cura, o gosto da maçã proibida com canela.

Seguiram em frente. Ávidos e felizes, sob o sol do entardecer. Sol que amansa. Sal e Amanda. Salamandra.

19 comentários em “Sal & Amanda (Claudia Roberta Angst)

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  1. Um romance romântico! Confesse minha incapacidade nessa área da escrita. A história tem poesia e cadência. Um ritmo gosto que nos leva até o final como uma dança encantadora. Amanda mudando fisicamente, mas também mudando por dentro e encarando o destino: amor e amar e ser livre amando. Gostei muito, muito embora o elemento fantástico não esteja visível, apenas sutil nas palavras. Talvez se ele pudesse realmente se materializar na transformação da personagem como tal, a fantasia tivesse um peso maior.

    Curtido por 3 pessoas

  2. Mais uma vez vou me intrometer no site…
    LICENÇA!

    Gostei bastante desse conto. Um romance “indigesto” para a sociedade, porém, muito acalentador para nós leitores, especialmente para aqueles que adoram um bom e tradicional romance. Sal e Amanda formam um daqueles casais “polêmicos” que não vemos por aí. Foi uma narrativa interessante, leve, que focou corretamente na forma como os dois se sentem em relação um ao outro.

    Lindo, lindo, lindo.

    Parabéns!!

    Curtido por 5 pessoas

  3. Um romance inusitado, que traz o amor como protagonista dessa estória que traz equilíbrio e cadência em doses certas. Não atentei para o elemento fantástico, mas as palavras bem escolhidas formaram uma boa trama. Muito bom!

    Curtido por 5 pessoas

  4. Um casal diferente dos padrões sociais que resolve se revelar. Gostei da narrativa, e também do casal, principalmente dela, pulso forte e apaixonante. ABS ❤

    Curtido por 5 pessoas

  5. Querida Contista,
    Que coisa maravilhosa poder participar de mais este exercício-desafio com vocês.

    Vamos ao conto?

    Seu conto é romântico e sutil. Ele fala da situação de um casal, supostamente diferente, mas não deixa claro qual, exatamente, é essa diferença. Assim, o leitor pode imaginar a seu prazer, se estaria a diferença em sua ousadia para se vestir, se estaria na sexualidade de um deles, de ambos, ou, se a questão em si estaria ligada à escolha de ambos pelas Salamandras (aqui no caso, pensando no desafio fantástico)..

    Em meu ponto de vista, mais que falar em diferenças, este conto nos traz como mensagem, a importância de se assumir plenamente quem se é, como se é, e, como se quer ser.

    Gostei muito do primeiro parágrafo, deixando meio dúbio, para o leitor, a questão do corte de cabelos. Muito bom!

    Parabéns, Contista.
    Espero que este seja apenas mais um de muitos textos que desfrutaremos juntas, todas nós, tão diversamente belas e talentosas.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 5 pessoas

  6. Olá, Ana

    Um conto que é muito bem conduzido por uma narrativa atraente, jovial e até mesmo poética. Belas descrições e desenvolvimento dos personagens.

    Um romance que começa sutil mas que aos poucos é conduzido pelo fogo da paixão, aqui manifestado pela salamandra. Ela revigora a Amanda de toda as formas. Dar-se a entender que ela usa muito os favores do elemental, mesmo que este não apareça de forma muito clara.
    Gostei do conto, parabéns.

    Curtido por 5 pessoas

  7. O elemental do fogo está bombando neste desafio. Muitas contistas fascinadas pelas salamandras, pelo calor do verão, pelo incêndio da paixão. Aqui, a autora resolveu deixar o elemental meio de pano de fundo, como coadjuvante talvez. Mas até que ponto? Pareceu-me que Amanda aos poucos foi se transformando, virando ela mesma a salamandra que já estava tatuada em sua pele. Gostei dos rituais e principalmente do final feliz junto ao rapaz. O fogo do amor arde nos corações daqueles que ousam amar, apesar de todas as diferenças e obstáculos. Achei muito romântico. Parabéns!

    Curtido por 5 pessoas

  8. “Sol que amansa. Sal e Amanda. Salamandra” — amei o jogo de palavras, tipo calembur, um trocadilho para misturar as palavras ou os sons, e criar sentidos diferentes, dando lugar a outros significados que enriqueceram o texto.

    O enredo é simples: história de amor proibida pelos tabus da sociedade, por causa da mulher mais velha; com o tempo o fogo cresce e o casal decide revelar a paixão. Mas, bem construído, com imagens e cenas envolventes e calorosas, adequadas ao tema proposto..

    No início da narrativa, pensei que a mulher estava fazendo uma tatuagem, mas era um corte radical dos cabelos — trecho bem ao estilo pedido pelo espírito do Desafio e pelo elemental escolhido. A tatu só apareceu depois – uma salamandra, como não poderia deixar de ser.

    Leitura fluida, prazerosa e um final feliz que encanta. Parabéns pela produção e boa sorte. Beijos.💖

    Curtido por 4 pessoas

  9. Para mim o destaque aqui é o ritmo da narrativa. Impulsividade me pareceu sua interpretação do elemental fogo e seu texto, acredito, fluiu e se desenvolveu a partir dessa premissa e hipótese. Gostei demais da forma como você integrou as palavras mandatórias ao texto. Texto escorregadio como um réptil, no melhor sentido. Adorei, de verdade! Beijos.

    Curtido por 4 pessoas

  10. Oi Ana Calêndula! Que conto intenso, cheio de calor e sensualidade. Muito bem escrito, as palavras obrigatórias foram muito bem colocadas, com naturalidade e precisão. O amor dos dois fica meio enevoado, não entendi muito bem porque era proibido ou não convencional… não dá a entender que a diferença de idade seja tanta, mesmo se for, não é tão incomum hoje em dia, só se eu deixei passar alguma coisa… Uma fantasia leve, um realismo com toque de superstição e fantasia, muito bem pensado e executado! Parabéns!!

    Curtido por 4 pessoas

  11. Li este conto, como alguns outros, antes de me decidir a participar também e agora vi o comentário que excessivamente curto para ser admissível a uma participante e vou acrescentar um pouco. Se retirarmos o fantástico a esta história, ela torna-se a história de amor entre uma mulher fogosa e sensual, já madura, e um jovem cuja fogosidade casa perfeitamente com aquela mulher. O fantástico é, aqui, um elemento acessório, já que o elemento fogo está intimamente retratado à protagonista, é uma mulher fogosa no mais amplo e melhor sentido da palavra. O final é de conto de fadas, ao estilo “o amor venceu e foram felizes para sempre”.
    Mas o que gostei mais de tudo foi do tracadilho que vai cadenciando a leitura: sal, amanda, salamandra. Yin yang.
    Parabéns, contista.

    Curtido por 2 pessoas

  12. Olá! Que conto saboroso, este seu! Aliás, sabor é o que não falta nesta narrativa instigante, exótica e inteligente que vc trouxe para nós. Gostei bastante desta mistura de uma realidade comum no nosso mundo (salão de beleza) com personagens tão diferentes e inesperados. Achei super bacana que, no final, o nome de ambos formasse SALAMANDRA, que além de um animal comum, também é um animal mitológico ligado ao fogo. Pelo que pude compreender, eles não podia namorar porque quando estavam juntos geravam calor e fogo a ponto de incomodar os outros seres que coabitavam o planeta com os dois. Para resumir, um conto super criativo e bonito, que eu amei ler. Beijos!

    Curtido por 2 pessoas

  13. Querida Contista!

    Obrigada por me propiciar mais uma leitura de um conto teu!

    Esse desafio foi ótimo, né!? Adentramos em um mundo verdadeiramente fantástico!

    Sobre o teu conto, eu gostei bastante. A atmosfera do “vai mais fundo” do início do conto dá uma ideia sexual (eu achei hahahah) e aí descobrimos que Amanda está no salão de beleza, passando por algum serviço “mais profundo”… e a gente sabe que diz respeito ao cabelo dela, que é especial, e a gente sabe que ela é diferente, mas a gente não sabe tudo, o conto não conta.

    A gente sabe que Amanda e Sal formam um casal especial, que sai fogo dessa paixão e que eles, juntos, são o próprio elemento fogo (sal + amanda).

    Eu adorei, tudo, o que está dito e o que não está dito, porque eu acrescentei na minha cabeça. O tom fantástico está sutil, mas não importa.

    Achei mais paixão que romance. Adorei.

    Parabéns!

    Grande beijo,
    Sabrina

    Curtido por 2 pessoas

  14. Olá!
    Mas que história interessante, a conexão da senhora com a salamandra, uma simbiose perfeita. E Sal.. uau, encantador!
    Não vi porque manterem-se em segredo por tantos anos…mas… cada um cada um né, nao vamos julgar hiahuha
    Parabéns, contista, seu conto é muito criativo.

    Curtido por 2 pessoas

  15. Lembro da série “A Casa das Sete Mulheres” e da Salamandra como personagem. Adorei a história, mas confesso que a participação da Salamandra podia ser mais vistosa, rs. Hum, posso estar enganada, mas esse é um conto de características sabrinescas, rs. Será? Será? Acho que é desnecessária a palavra “salamandra” ao final, ou ao menos da forma como foi colocada, ficou didático. E o Sal, tudo de bom! ❤ Parabéns, Contista!

    Curtido por 2 pessoas

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