Ovos Nevados – Paula Giannini

Ingredientes
1 litro de leite integral
6 claras
6 gemas
12 colheres (sopa) de açúcar (cheias)
3 gotas de essência de baunilha
Raspas de casca de limão
Uma pitada de Flor de Sal

 

Modo de preparo
Claras

Bateu as claras com força. Toda a força que aqueles braços finicos, como o marido costumava brincar quando ainda não era o-marido, eram capazes de produzir. Batia. Focada. Preferindo usar o garfo no fundo do prato, quase a ponto de a louça rachar.
Que se danasse. Que rachasse. Quebraria outros ovos e racharia tantos pratos quantos fossem necessários. Desabafava sozinha engolindo o choro e os sapos. Tantos.
Claras em neve.

Queria-as fofas e firmes. Queria-as, quando viradas de cabeça para baixo, coladas ao fundo, e sem jamais cair. Perfeitas. Mais que perfeitas. Mais que mais que perfeitas. Como tudo que costumava fazer.

Tentava.

Que sabia ela?

Nada.

Não sabia nada. Só que era burra. Mais que isso. Que se dedicava a tudo e todos apostando suas fichas de vida na felicidade dos outros. Dos seus, como costumava dizer sorrindo.

Sorria.

Era incrível como aprendera a sorrir sempre. Sorria sorrindo. Sorria chorando. Sorria, você está sendo filmada, emoldurara em sua cozinha, a fim de lembrar a si mesma que era assim que deveria ser. Feliz. Acreditava na felicidade. Ainda que nem tudo corresse como desejaria que fosse. Mas afinal. O que corre? Não se pode controlar o mundo. Os outros. O destino. A burrice de burros ainda mais burra que sua própria burrice.

Batia.

As claras.

Em neve.

Afastou a cortina. Ninguém chegaria tão cedo. O céu estava azul e as nuvens brancas.
Como as claras.

Em neve.

Batidas.

Firmes.

Perfeitas.

Sorriu, acrescentando 6 colheres de açúcar às neves, uma a uma, e continuou batendo. Focada. Firme. Até obter uma espécie de suspiro.

Largou o garfo.

As mãos vermelhas. Os dedos doendo. Tortos. O indicador apontando para o lado contrário ao que ela poderia querer indicar. Sentia-se cansada. Talvez se o céu não estivesse tão azul, tudo fosse mais fácil. Talvez pudesse culpar o tempo. A chuva, a falta de sol. Em algum lugar, lera que a luz solar era um dos fatores que mais influenciavam o humor das pessoas.

Talvez o marido devesse pegar mais sol.

Assim como ela. Nas mãos.

Os dedos tortos. A palma virada para o lado contrário a fim de brincar de apontar para a direção correta. Uma direção que ninguém jamais seguiria. Cada um anda pelos caminhos que deseja andar e de nada adiantava, à uma mãe de família, querer consertar as tortas linhas escolhidas por todos ao seu redor. Só Deus! Costumava brincar, rezando para que a matemática do além fizesse algum sentido no final do tal caminho.

Ligou o fogo.

O leite ferveria na panela enquanto checaria os outros ingredientes necessários para a receita. Planejava ter todos para o jantar. Todos reunidos. Marido, filhos e netos. Todos entrariam por aquela mesma porta através da qual os vira ir e vir durante a vida inteira. Ruidosos. Sorrindo. Mal disfarçando problemas, dissimulando planos, e mais que isso, estratégias estapafúrdias para resolver os tais problemas.

Tortos.

Não os dedos.

Tampouco os filhos.

Mas os problemas.

O mal humor do marido.

O sorriso da filha tão parecido com o dela.

A letra no envelope fechado sobre a mesa.

Sorria, você está sendo filmada.

O leite fervendo subiu até a borda da panela, mas Marília baixou o fogo bem a tempo. Meteu a colher nas fofas nuvens de clara, jogando-as no leite, a fim de cozinhar. 15 segundos de cada lado e nada mais, virando com cuidado para que não se quebrassem. Operação delicada para uma noite na qual, sabia, pisaria com cuidado para que também seus amores não se rachassem como os ovos. Ofendidos, nervosos, incapazes de entender todo o bem que ela lhes queria. Incapazes de compreender seu silêncio de amor. Ou de enxergar algo que não fosse a si mesmos.

Retirou as claras com a escumadeira.

Não podia ela, Marília, tomar para si a culpa e o temor pelas felicidades de todos a seu redor. Mas tomava-se e, culpada, doía-se pela falta de tino de um, de amores de outro, pelo excesso de risos da terceira. Pelo humor do marido, a cada dia pior. E pelo silêncio em suas entranhas, crescendo, desapercebido, sem que ninguém se desse conta.

Tampouco ela.

Sorriu.

Também ela demorara para se perceber a si mesma. Ocupada que vivia em querer ver a todos felizes, se não fosse pedir muito.

Mas era.

E custou a perceber que a tontura não era normal, as náuseas exageradas, o tremor, fora de propósito.

No céu, nuvens já não tão alvas, anunciavam a proximidade do final de tarde. Suspirou. O tempo seguia seu curso, como da mesma forma seguiriam os filhos. As vidas. O marido. Os humores.

E

Aquilo que…

Não

Ousava

Dizer

O

Nome.

Só queria sorrir.

E esquecer que precisava abrir aquele envelope de uma vez por todas.

Queria sorrir.

E por uma noite única, breve, uma só, queria ser ela a pessoa a ser cuidada. Queria sentar-se em seu sofá azul petróleo e admirar a festa de todos. Cálida. Espectadora.

Queria um sorriso.

Não o seu.

Mas o de alguém.

Qualquer um.

De preferência o de todos, reconhecendo um pouco seu esforço. Sua dedicação. Cansava-se de ser a mãe. A líder. A cozinheira. Queria ser a filha. A mimada. A frágil. Delicada. Queria o direito de uma vez, apenas uma, ter uma hora para si, sem se preocupar com nada mais. Nada.

Queria o direito de rachar.

Pegou um recipiente fundo e colocou as nuvens retiradas do leite quente dentro dele.

Reservou.

Modo de Preparo

Creme

Agora precisaria bater as gemas. Outro esforço colossal para os já não tão finicos, tampouco motivos-de-brincadeira-do-marido braços. Nada era como um dia foi. E já sem forças para engolir os tais sapos e choros, já com as gemas com as outras 6 colheres de açúcar dentro, ligou a batedeira.

E gritou.

Libertou o berro sufocado, abafando-o com o ruído do eletrodoméstico. Como deveria ser. Filmadora alguma seria capaz de capturar aquele momento. Seu. Único. Dentro do direito que lhe cabia de desabar, ainda que por uns minutos.

Pingou a baunilha.

O perfume doce da orquídea era o toque para a perfeição do sabor. Na medida. Como tudo deveria ser.

E quando o creme se formou na batedeira, deixou-se escorrer junto ao leite do cozimento.
Do lado de fora, a noite já dominara o dia quase que por completo. Esparsas nuvens, poucas, junto ao horizonte ainda traziam o resto do tom avermelhado daquilo que há pouco fora luz. Precisava se apressar. Logo, também o silêncio do grito, já desligado da tomada, seria dominado pela ruidosa confusão de crianças crescidas ou não.

– Sorria! – O marido, já com o humor restaurado por suas preferências notívagas, clicava o momento. Seu novo hobbie. O celular.

Na panela, o creme engrossava, mexido sempre, sem ferver jamais.

Não sorriu.

Tampouco o marido percebeu as lágrimas misturadas ao vapor que fugia do doce retirado do fogo para não talhar.

Mexeu com colher de pau até esfriar.

E respirou.

Era a sua hora.

Precisava saber.

Sentia-se culpada.

O amor é culpado. Sempre. Costumava brincar dramática. E era. Sim, também ela era capaz de silêncios secretos, e de dissimular estratégias estapafúrdias para que a vida de todos não rachasse a seu redor.

Fosse como fosse, certamente, tudo seguiria seu rumo. Com ela. Sem ela. Com risos. Sem estes. Felizes ou não. Todos tortos e retos, e desentortando, também eles, os caminhos de seus próprios filhos.

E dedos.

Esticou os seus, enfiando a unha na ranhura do envelope. E puxando o grampo que o fechava, retirou de dentro o resultado da biopsia. E leu.

Negativo.

Jogou o creme por cima das nuvens de suspiro cozidas. Um céu banhado por creme inglês e flor de sal. A flor de seu sal, escorrendo aliviada. Uma gota ou duas, nada mais. Uma pitada para abrir o sabor.

Ninguém perceberia.

Nada.

Raspou a casca de um limão e polvilhou sobre a iguaria de família. O jantar seria animado. E torto. Como sempre. Como tudo.

Amassou o resultado e jogou no lixo antes de abrir a geladeira. E colocando o doce para gelar, Marília ouviu a campainha soar.

E ouviu a filha sorrir de fora.

E as crianças.

Depois os filhos.

Entrando todos pela mesma porta.

A de sempre.

E o cachorro.

Demoraram todos a chegar na cozinha. Como sempre. Como nunca. Todos seguidos pelo pai atento ao foco certo no celular.

E sorriram.

Afinal, estavam eles, todos, sendo filmados.

 

***

*Este conto faz parte do Livro Como a vida – histórias e receitas nem sempre tão doces quanto as sobremesas.  Editora Patuá. 2019.

18 comentários em “Ovos Nevados – Paula Giannini

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  1. E não é que você conseguiu novamente? Adoçou a narrativa com uma ternura que me fez torcer para que o resultado naquele envelope fosse o menos preocupante possível. Logo imaginei que fosse um exame, mas poderia ser uma carta de alguém ou talvez um bilhete suicida antecipadamente escrito. Sei lá. Muita coisa passou pela minha cabeça enquanto Marília batia as claras em neve, as palavras se misturando ao creme da narrativa. O final foi ao mesmo tempo uma surpresa e uma alegria esperada. Quem já não conheceu uma dona de casa assim, tão preocupada com todos e tão desocupada de si mesma?
    Gostei mesmo.. O meu conto favorito (por enquanto) dos que li dos seus doces/textos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Cláudia,
      Você é sempre tão gentil comigo…
      Que surpresa ser este o seu preferido. Fico muito feliz.

      Obrigada.
      Beijos
      Paula Giannini

      Curtido por 1 pessoa

  2. Deixando de lado o conteúdo, que merece um comentário mais apropriado e pensado, gostei imenso em como você conseguiu mesclar o mundano, o ordinário, com a medidatação sobre a loucura em que vivemos… Somos todos absurdos. E não percebemos…
    A mistura saiu perfeita. Parabéns! 🙂

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    1. Oi, Jauch,
      Obrigada pelo carinho da leitura e suas palavras gentis.
      Somos mesmo muito absurdos.
      Beijos
      Paula Giannini

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  3. Emoções e comida sempre ficam lindamente misturadas em suas histórias perfeitas. Vc vai nos conduzindo nos pensamentos de Marília sem que suspeitemos minimamente do que se trata o conteúdo do envelope, mas, mesmo sem saber, sentimos que algo está muito errado naquelas vidas, e que isso vai muito além da doença (ou a falta dela) que mais à frente descobrimos. É a doença da tristeza, das dores da alma mal curadas, dos sorrisos falsos escondendo lágrimas, daquela sensação de desperdício que “uma certa idade” nos dá. Gosto do modo como escreve enfatizando palavras-chave para traduzir, sem escrever excessivamente, o que se passa em corações e mentes dos personagens de suas histórias. Obrigada por mais esta viagem.

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  4. Nossa, Paula, que conto bom! Já li alguns dos contos do livro, esse agora, mas quero lê-los todos em sequência por que vejo neles uma continuidade de proposta. Aqui, na minha leitura, você mistura o dia que se vai, com a receita que avança e com a reflexão e o enfrentamento da realidade por essa mulher, Marília. Como no preparo de uma iguaria, você mistura os ingredientes da trama e o resultado é tal como esse doce: uma espuma macia, mergulhada num molho, com uma flor de sal para fazer um contraponto, uma aspereza, nesse doce. Seu estilo de sintaxe e de paragrafação também é uma marca. Nos força a um ritmo de leitura que eu, com meus parágrafos longos, estilo tão diferente, gostaria de reproduzir. É isso, amiga. Gostei muito. Preciso ler esse livro. Beijos!

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    1. Querida Elisa,
      Obrigada por suas palavras de amor e incentivo, sempre tão generosas.
      Já voltou ao Brasil?
      Acredita que estou con=m saudades?
      Nosso encontro foi breve, mas intenso.
      Muitos beijos
      Paula Giannini

      Curtido por 1 pessoa

  5. Comer é um dos maiores prazeres da vida. Mais, é uma necessidade. Cozinhar exige curiosidade e desejo. Mia Couto disse: “Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros.” Assim são suas receitas-poesia. Há algo mágico nelas, uma delicada feitiçaria, um misto de criatividade e vida. Essa narrativa é uma forma poética de juntar elementos genuinamente diferentes e torná-los agradáveis.

    Sabia que o envelope traria um mensagem importante, pensei em muitas coisas e também em resultado de uma biópsia, mas a surpresa veio mesmo assim. Imaginei um “negativo” e a morte, mas amei o final feliz.

    Seria repetitivo dizer o quanto aprecio, não só suas receitas, mas todos os seus textos, a estruturação dos parágrafos e frases, o vocabulário. Um estilo próprio. Parabéns, beijos!

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  6. Um conto lindo, como se cada palavra levasse o doce da sobremesa. É lindo, porém triste. Eu tenho medo dessa invisibilidade, de tudo isso acontecer comigo um dia como mãe, esposa, mulher, amiga… às vezes acho que em alguns aspectos, já está acontecendo, essa coisa de parecer que você não é tão essencial assim, porque está ali e era para estar. Adorei a estrutura, dá um ritmo muito bom, cadenciado, poético. Parabéns!

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  7. Mito bom, Paula. Muito bom. Calculei sobre o que seria o envelope logo que ele foi mencionado e evitado. Terminou da forma certa. Quanto ao conteúdo, a receita é maravilhosa, mas o paladar que a leitura oferece é ainda muito melhor. As suas receitas, as suas histórias, o seu estilo, tudo sempre tão bom, suave e verdadeiro. Obrigada pelos belos momentos que me proporciona. Beijos.

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  8. Olá, Paulinha! estou colocando as leituras em dia (tentando). Já havia lido seu livro e foi com grata surpresa que releio seu conto aqui. Há uma dor em cada receita, uma dor que está no dia-a-dia das mulheres. Aquele cozimento trivial que ninguém percebe, mas que causa uma perda irreparável ao não ser feito. Assim é o cozinhar, assim são as mulheres, mães e esposas, filhas e netas. A mulher que escamoteia seus sentimentos para a família bem passar. Esse sacrifício que é sacrilégio, mas também sortilégio do amor. Não dá para escaparmos impunes dos seus contos que nos pega nos ingredientes. Esse é um dos muitos que me encantaram. Amei.

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  9. Lembrei-me dos meus dezoito anos, quando estava com o resultado do exame de gravidez nas mãos, sem coragem de abri-lo, rsrsrs. Que bom que deu tudo certo para Marília. Fiquei com vontade de fazer esta receita, parece uma delícia, hahaha.
    Bjs ❤

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