Aritana, Santiago e um fantasma um tanto inconveniente (Bia Machado)

I

— Não sei se reparou no que a placa dizia, señorita… Señorita?

— Van Der Ley. Aritana Van Der Ley, sua criada.

O detetive achou engraçada a expressão da jovem sentada diante dele, parecendo analisá-lo de forma tão silenciosa e profunda, à espera do que ele diria.

“Van Der Ley, deixe-me ver… deve ser holandês”, pensou Santiago. Mas para ele estava difícil reconhecer a origem de “Aritana”. Talvez dos trópicos?

— Na placa está escrito: “Admite-se auxiliar de detetive, não é necessário experiência” — disse Aritana — e, apesar de ser uma braziliaanse, entendo muy bien o castelhano.

“Ah, então é isso, elementar!”, pensou. E que braziliaanse! Em nada ficava a dever às espanholas: os cabelos avermelhados estavam graciosamente presos com uma fita vermelha, acetinada e comprida, que lhe caía por um dos ombros. Na cabeça ela também equilibrava um pequeno chapéu de veludo negro, de onde um fino véu de renda caía e lhe cobria os olhos. Estes, apesar da barreira, podiam ser admirados: grandes, de um castanho bem escuro, muito vivos. Apesar de nunca ter se casado, por mais que já estivera uma vez comprometido e apaixonado, e justamente por se apaixonar tão perdidamente sofreu como jamais imaginou que sofreria, ele sabia apreciar a beleza feminina como ninguém.

Saindo de seus pensamentos, comentou o que ela havia dito:

— Posso ver que entende, sim! Sua pronúncia é perfeita! Chamo-me de la Vega. Dom Santiago de la Vega. Então, vem das terras de Nassau?

— Sim, do Brasil Holandês. Bem longe, como vê. Especificamente da Cidade Maurícia. Até que foi divertido esse tempo todo no mar e no ar… Bem, voltemos à placa. Sim, vi que está admitindo auxiliares. E auxiliares de detetives geralmente são homens, claro, mas não entendo o porquê disso. Que tipo de trabalho detetivesco uma mulher seria incapaz de fazer, já que a placa especifica que a experiência não é necessária?

— Simples: para elucidar mistérios não há hora e nem lugar. E há certos lugares onde uma señorita não deve ir aqui em Nova Granada, assim como não é de bom tom que uma moça esteja por essas ruas em horário adiantado…

— Se conhecesse o lugarejo onde morei, saberia o real significado de “lugar perigoso para moças”, Dom de la Vega. Minha mãe era neta de índios tapuias, ensinou-me como devo me proteger.

— “Era” neta?

— Minha mãe faleceu, assim como meu pai. Nós três lutávamos pela independência do Brasil Holandês quando isso aconteceu. Tenho minha própria pistola e um punhal, sempre os carrego comigo. Eram apenas esses os impedimentos, Dom de la Vega?

— N-não — surpreendeu-se Santiago. — Há também o fato de que meu auxiliar precisará morar em minha casa, visto que não saberemos a que horas teremos que trabalhar, se alguém vai nos chamar no meio da noite e… Por Deus! O que está fazen…

Aritana abriu o alfinete que segurava sua longa saia e esta caiu ao chão. Debaixo, para alívio de Santiago, uma calça de couro, justa, com vários bolsos. De um deles, tirou a pistola e, de outro, o punhal.

— Acabei de dizer que sei me proteger. Passo boa parte do tempo usando calças, são mais confortáveis se precisar correr ou subir em algum lugar. Se tentar alguma gracinha comigo, muy simples: uso meus brinquedinhos.

— O que as pessoas dirão de uma moça solteira morando em minha casa?

— O senhor se incomodaria tanto assim com isso?

— Eu não, mas…

— Nem eu. Danem-se os outros.

— Certo, certo, entendi… Bem, há também a questão das armas que utilizo. São um tanto complicadas, muito científicas…

— Precisa de armas assim para encontrar ladrões e assassinos? Que armas são essas? Tenho certeza de que posso aprender a manejá-las, se tiver paciência para me ensinar!

Santiago notou que ela estava um tanto alterada, talvez com medo de não ser contratada. Algo lhe dizia que ela daria conta do trabalho tranquilamente e ele não costumava se enganar em suas deduções. Mas algo também lhe confidenciava que ela era audaciosa demais, impetuosa demais. E a audácia sempre anda de mãos dadas com a inconsequência.

— Há mais coisas envolvidas. Atualmente, as pessoas me procuram pouco por causa de assassinatos e roubos. E… elas me procuram mais por causa de… fantasmas.

— Como disse? – perguntou a moça.

— Fantasmas. Nova Granada está infestada de criaturas sobrenaturais! A cada dia, um novo caso! É espantoso, señorita Van Der Ley! Temo que isso seja demais para a señorita.

Aritana gargalhou, jogando a cabeça para trás.

— Por acaso disse alguma piada, señorita? – questionou Dom Santiago.

— Não, mas é que… Ah, fantasmas? — disse ela, ainda rindo. — De onde eu venho, Dom Santiago, há coisa pior.

— Pior?

— Já ouviu falar em caipora? Mula-sem-cabeça? Boitatá?

— Não, eu…

— Essas criaturazinhas que citei fazem qualquer fantasma ficar rubro de medo. Faça-me um favor?

— S-sim, qual?

— Enfrentei uma longa viagem, de navio até Sacramento e de dirigível até aqui. Mostre-me qual será o meu quarto, preciso descansar.

— Mas…

— Pensei que tivesse se convencido de que posso ser sua assistente — Aritana lançou um olhar desafiador, quase ameaçador para ele. Viu que aquele homem de cabelos castanhos, com alguns fios grisalhos perdidos entre os fios escuros era ainda jovem e tinha até um jeito infantil demais para a idade que deveria ter. A tal segurança, porém, escondia uma personalidade tão comum quanto a de qualquer outro homem: ele necessitava de uma mulher que o comandasse!

“Foi bem como me avisaram…”, pensou ela, aguardando a resposta dele.

Santiago desistiu de enumerar dificuldades. Que braziliaanse era aquela?

— Quanto a isso, señorita, estou plenamente convencido.

Só bastava se convencer de que não teria problemas com ela.

“Que falta me faz, Wallace!”, disse Santiago a si mesmo, em pensamentos. Lembrou-se do assistente anterior, um ex-médico inglês que o acompanhara por muito, muito tempo. Até que encontrou uma paraguaia nas ruas de Nova Granada vendendo chipas e oferecendo tereré gelado e… em menos de duas semanas, estavam casados!  Casaram-se e foram para a Inglaterra, cuidar de negócios da família de Wallace. E Santiago ficou sem o único amigo em quem confiava totalmente.

 

II

Aritana pôde comprovar em pouco tempo o que Santiago havia lhe dito: Nova Granada estava infestada de fantasmas! No porto, no Palácio do Governo, nos teatros, nas casas… O que havia acontecido para que eles resolvessem voltar aos montes do além-túmulo? Fosse o que fosse, as armas usadas pelo detetive davam conta do recado: produzidas pelo renomado cientista Erick Stendhal, faziam com que o trabalho fosse simples: bastava apertar o gatilho do Paralisador Ectoplasmático C3PO e o fantasma não teria como fugir. Depois, com apenas um tiro certeiro da Pistola de Fusão R2D2, o fantasma se transformaria em água. Caso fosse uma assombração da própria família, esta poderia até optar por jogar aquela água em algum local tranquilo, como o mar ou um jardim, para que parte dos restos mortais do ente querido repousasse para sempre ali. Com a garantia de que as gotinhas não se juntariam novamente, voltando a assombrar alguém.

— Meu trabalho… — ia dizendo Santiago ao cliente que os contratara naquela manhã, após terminar o trabalho de uma madrugada inteira para capturar uma alma penada, quando Aritana o corrigiu:

— Nosso trabalho…

— Nosso trabalho é garantido, Sr. Hernandez! Sua tia jamais voltará para reclamar qualquer herança que seja.

O senhor Hernandez, um pançudo magnata, dono da única companhia de submarinos da América Espanhola do Norte, respirou aliviado. Aproveitou também para suspirar mais uma vez pela bela Aritana, o que incomodou um pouco (um pouco?) de la Vega.

— Ficarei eternamente grato a vocês… Aqui estão seus honorários… E para a señorita Van Der Ley, um mimo que tenho certeza ter sido produzido especialmente para adornar seu formoso pescoço!

Ao dizer aquelas palavras, Hernandez pegou uma caixa de cima de sua mesa de trabalho e, abrindo-a, mostrou a Aritana um colar de pérolas magnífico.

— Oh! Não posso aceitar, eu… — a recusa da moça fez Santiago se perguntar se estava sendo verdadeira mesmo, ou só fazendo um charme.

— Claro que pode, claro que pode… — afirmou Hernandez, ele mesmo colocando o colar no pescoço da braziliaanse.

Santiago pigarreou. Não queria admitir, mas aquela cena o estava incomodando mais do que queria se sentir incomodado. Além de milionário, Hernandez era viúvo e tinha a fama de velho que adorava gastar seu dinheiro infindável na companhia de belas moças.

— Bem, o líquido do que um dia foi o fantasma de sua estimada tia está aqui, nesta garrafa, Sr. Hernandez. Por certo, já que é um homem do mar, providenciará para que ele seja despejado, em uma cerimônia, nas águas do oceano, estarei enganado?

— Redondamente enganado, Dom de la Vega! Minha finada tia não merece isso. E muito menos o seu fantasma! Vou resolver isso já!

Dizendo aquilo, Hernandez abriu a garrafa e despejou todo o líquido pela janela, molhando pessoas que andavam na calçada.

Assim que conseguiram se livrar das tentativas de conquista do magnata, Santiago e Aritana resolveram ir a pé para casa. Fazia dias que eles apenas andavam pela cidade de madrugada, estavam sentindo falta da luz do dia.

— Que noite, não? — perguntou ele.

— Sim, foi uma noite agitada. O fantasma daquela senhora estava irredutível!

— Eu também estaria, se fosse ela. Imagina saber que sua fortuna agora está nas mãos de um velho daquele? Você também não ficaria colérica? Mas vejo que o trabalho compensou, não é? Além do polpudo honorário que recebemos, você ainda ganhou de presente um valioso colar!

Aritana parou e levou a mão ao pescoço. Parecia ter se esquecido completamente da joia!

— Se não fosse pelo sono atrasado, eu nem o estaria usando, mas estava cansada demais para recusar… Bem, vou desfazer-me agora disso, da melhor maneira!

Após tirar o colar, olhou pela rua e viu uma mulher de roupas rotas sentada na calçada, tendo um bebê ao colo, que chorava insistentemente de fome. Caminhou até ela, sendo seguida por Santiago.

— Aritana, não vai me dizer que…

A braziliaanse entregou a joia à mulher. Virou-se para Santiago, com uma expressão que parecia perguntar: “E você? Não vai ajudar também?” Santiago deu à mulher algumas notas e moedas, que garantiriam comida por pelo menos um mês. Não sem um pouco de resistência.

 

III

Santiago tinha que admitir que fora conquistado por Aritana. Tudo nela era perfeito: desde o batom exageradamente vermelho, que contrastava maravilhosamente com sua pele clara, até a forma como controlava a R2D2. Nunca tinha se importado muito com roupas e acessórios femininos, mas agora, quando passava diante de uma vitrine de uma loja qualquer desses artigos, ficava imaginando se aquilo tudo cairia bem na braziliaanse. E é claro que cairia, ele tinha certeza.

Depois de mais algum tempo de convivência, resolveu que a convidaria para um jantar, na primeira folga noturna que tivessem. Quando não estavam em serviço, Aritana costumava recolher-se no quarto, ou no máximo ia até a biblioteca. Ele, talvez por medo de ficar perto dela mais do que o necessário, ia para o Clube dos Policiais, conversar com amigos da época em que servia a El-Rei como Investigador da Coroa.

Na noite em que finalmente tomou coragem, saiu mais cedo do clube, em tempo de comprar um delicado buquê de rosas para evitar alguma recusa de seu pedido por parte dela. Será que Aritana recusaria? Ele não tinha como saber. Em seus quase quarenta anos, tinha se apaixonado apenas uma vez e não fora feliz. Uma doce lembrança do seu tempo em Oxford, lembrança essa que repousava em um túmulo do outro lado do oceano. Ele jamais se esqueceria de Elizabeth Hardy, mas era Aritana quem estava em seu presente.

 

IV

Chegou em casa e se lembrou de que era a noite de folga do mordomo. Logo, ele mesmo teria que bater à porta do quarto dela e fazer-lhe o convite. Conforme subia as escadas, ouviu o som abafado de vozes. Parando em frente à porta do quarto de Aritana, conseguiu ouvir a voz da braziliaanse a discutir com alguém, cuja voz também parecia familiar a Santiago. Antes de entrar, prestou atenção ao que diziam.

“Não estou plenamente certa de que ele já está apaixonado por mim, como a senhora afirma, de forma tão segura.”

“É claro que ele está! Tenho certeza disso! Mas eu conheço meu filho, ah, se conheço! Se depender dele… Jamais haverá casamento!”

“Por que afirma isso? Ele é um pouco inseguro e atrapalhado, mas…”

“Ser inseguro e atrapalhado nunca foi o problema do meu Santiago! Seu problema é a timidez, além de um amor platônico por uma inglesinha que a essa hora já deve até ter nascido de novo! O tempo está se acabando…”

Tomado de cólera, Santiago esmurrou a porta e entrou no aposento, gritando:

— Madresita!

Estavam Aritana e Dona Mercedes de la Vega, mãe de Santiago, paradas no meio do quarto. O detetive, furioso com o que tinha escutado, nem se incomodou de estar revendo a mãe depois de anos de sua morte, desta vez em sua versão fantasmagórica. E ela não tinha mudado nada. Embora translúcida, ainda mantinha a altivez. E a prepotência.

— Olá, Santiago, hijo querido!

— Que história é essa? Será que eu escutei bem?

— Você nunca foi surdo, hijo, deve ter escutado bem, sim.

Santiago virou-se para Aritana, que também estava pálida, tal qual um fantasma.

— Quer dizer que você, Aritana… Estava apenas… Apenas…

— Não brigue com a pobre! Tenha modos, hijo! – gritou o fantasma de Dona Mercedes.

— Apenas tentando conquistá-lo, Dom Santiago? — Aritana completou a frase do detetive. — Bem, no começo sim. O fantasma de sua mãe me trouxe até a frente do seu escritório. E me contou que você… Bem, precisava de uma esposa, que fosse doce e ao mesmo tempo forte e decidida. E que ela estava cansada de procurar…

— Ela é das minhas! Nem se assustou quando apareci para ela! – afirmou Dona Mercedes.

— Calada, madresita, calada! Ou não respondo por mim.

— Ah, é? O que vai fazer com o fantasma de sua pobre madresita? Usar o C3PO e a R2D2? Ah, hijo ingrato! Tudo o que eu quis na minha existência terrena foi vê-lo casado! Casado! Será que nem mesmo agora, no além, poderei realizar esse desejo, um desejo de qualquer boa mãe? Como posso descansar em paz dessa forma? Eu quero ir sossegada para o paraíso! – o fantasma de Mercedes começou a chorar.

— Será que nem depois de morta pode deixar que eu cuide dos meus problemas por mim mesmo? Eu devia usar a R2D2 em você, madresita! Não sei onde estou com a cabeça que não a uso!

Mercedes desapareceu, deixando no ar o eco de seu choro incontrolável. Santiago, virando-se para a moça, constatou:

— Da próxima vez, confiarei mais em minhas deduções, Aritana! E agora…

— E agora, eu devo me retirar, é claro.

— É claro! — Repetiu Santiago, sem pensar.

— Eu só queria que soubesse que… — ela parou a frase e por alguns segundos ficou quieta, olhando para ele de um modo que quase fez com que ele a perdoasse. Quase.

— Diga logo, seja o que for, señorita Van Der Ley!

— Esqueça. Aguarde-me lá embaixo, por favor… Desço em instantes.

Santiago ia saindo do quarto quando percebeu que durante todo o tempo estivera segurando o buquê. Virou-se e atirou-o sobre a cama, já bem despedaçado.

— Comprei-o para a señorita. Tome, é seu por direito. De certa forma, o mereceu.

Ele esperou por vários minutos, que pareceram intermináveis. Por fim, depois de mais de meia hora, escutou uma janela batendo por causa do vento que anunciava chuva. Subiu novamente até o quarto e viu o armário vazio, aberto, assim como a janela, também aberta. Aritana preferira descer por ali a se despedir dele. Uma pétala de rosa tinha ficado presa à cortina. Aritana tinha levado o buquê consigo.

 

V

Duas semanas depois, Santiago contava tudo o que acontecera a Erick Stendhal, seu amigo inventor, enquanto este ajustava a R2D2, um pouco desregulada após Aritana tê-la utilizado sem os devidos cuidados.

— Quer dizer então, meu amigo, que sua mãe estava tentando lhe arrumar uma esposa a qualquer custo? Releve, homem, é apenas uma mãe desesperada…

— Meus dias de sossego terminaram! Desde o dia em que descobri o plano das duas, madresita, ou o fantasma dela, não me deixa mais em paz, da mesma forma que fazia quando era viva! Aparece no mínimo três vezes por dia, suplicando para que eu vá atrás da senõrita Van Der Ley…

— Ah, sim, é Van Der Ley o sobrenome da pequena! Então só pode ser ela que… Sabia que já tinha ouvido falar dela antes… Foi você quem me disse um dia que tinha agora uma braziliaanse como assistente, não foi?

— O que está querendo dizer? Sabe do paradeiro dela? Onde a viu? — Santiago deixou a fleuma totalmente de lado. Precisava saber onde estava Aritana! Não suportava mais desconhecer seu paradeiro. Não conseguira uma pista sequer sobre isso, mesmo tendo procurado em todos os hotéis e pensões. Sabia, porém, que ela estava na cidade, pois seu nome não constava de nenhuma lista de passageiros, nem de locomotivas, nem de navios, nem mesmo sequer de dirigíveis. Seu medo é que tivesse saído da cidade de carruagem ou até de balão… E ela tinha coragem para aquilo! Se isso acontecesse, não a encontraria tão cedo!

— Então está querendo encontrá-la? Pensei que estivesse magoado, de la Vega… — disse Erick, divertindo-se com a incapacidade do detetive em esconder o que ainda sentia pela moça.

— Estou magoado, estou sim! Mas eu preciso que ela volte, consegue entender? Minha casa não é mais a mesma, sem a presença dela… E eu… Eu preciso daquela impetuosidade toda de volta… Detesto admitir, mas madresita está totalmente certa! Pela primeira vez acertou na minha “pretendente”. E eu acho que ela também sentia algo por mim, acho que tentou dizer-me quando partiu, mas não lhe dei chance! Por Deus, Erick, diga logo o que sabe!

— Calma, amigo. É claro que vou dizer. Bem, faz uns cinco dias, por aí, que me foi dada na rua uma propaganda de um desses circos que eventualmente passam por Nova Granada, com atrações mais adultas que infantis… E, em destaque, anunciava “Aritana Van Der Ley, sensual atiradora braziliaanse, neta de índios tapuias”. O folheto dizia ainda: “acerte todos os alvos e ganhe um beijo francês da bela Aritana”. Confesso que até me animei, minha Josephine que não me ouça, se minha mira não fosse péssima… Ah, que mal há em um beijo, não é mesmo? É isso, só pode ser ela, a sua ex-assistente. Está se apresentando em um circo, agora não me lembro o nome… Ei, Santiago, você esqueceu a R2D2!

De la Vega nem sequer ouviu a última frase de Erick.

 

VI

O Gran Circo Ferdinand Roche levava o nome de seu dono. Quando Santiago se sentou na arquibancada, o apresentador começava a anunciar:

— E agora, o momento mais esperado! Ela, a atiradora de mira precisa, que nunca erra um alvo… Será que hoje ela vai errar, senhores? E será que alguém vai acertar todos os alvos e ganhar um beijo? Se ela errar, seu desafiante ganha o beijo. Se o desafiante acertar tudo, ele também ganha! Uma chance dupla! Apresento-lhes então, senhores, direto das terras do Brasil Holandês, a belíssima Aritana Van Der Ley!

Santiago prendeu a respiração quando a viu. Usando um vestido de veludo vermelho, estava mais linda que nunca segurando uma pistola prateada.

— E agora, vamos escolher aquele a quem será lançado o desafio, de atirar em todas as garrafas e tentar ganhar um beijo da bela Aritana! Será que hoje, finalmente, nossa bela Aritana beijará alguém?

Caminhou com firmeza até o meio do picadeiro e atirou, vagarosamente, em cada um dos alvos, pequenas garrafas de vidro, estilhaçando-as todas.

Diante da plateia quase que totalmente masculina, que aplaudia e gritava, Aritana agradeceu, curvando-se. Ao correr os olhos pela arquibancada, jurou estar vendo o detetive, mas devia ser alucinação. Não, não era, era Santiago de la Vega! Seu coração acelerou e nem se importou com o candidato que foi escolhido. Então, ele tinha vindo atrás dela!

Aritana sorriu um sorriso amargo. Já tinha combinado com Ferdinand que na pistola do desafiante haveria um tiro que “falharia” no meio do caminho, não atingindo a garrafa. Assim, ela nunca beijaria ninguém. Aquilo lhe soava como enganação, mas logo ela conseguiria o dinheiro necessário para voltar à sua terra, de onde não deveria ter saído, agora estava certa. Voltaria, com o coração dolorido por ter afastado Don Santiago de  sua vida.

Tinha?

O que ela esperava, porém, não aconteceu: o homem escolhido, de aspecto estranho, o rosto barbado sujo e fedendo a uísque, acertou todos os alvos! Aritana não conseguia acreditar.

— Ferdinand! O que aconteceu? — Perguntou desesperada, indo ao encontro do dono do circo.

— Desculpe, beleza —  o homem fingiu tristeza. —  Mas ele pagou muito bem pelo seu beijo. Depois eu lhe entrego a sua parte! Agora vamos, dê o beijo nele, pois parece que Antonio Rivera não pode esperar nem mais um minuto pelos seus lábios!

— Desgraçado, sabe até o nome dele inteiro! Eu devia saber que…

Rivera puxou Aritana para si, prendendo-a em seus braços.

— Cadê o meu beijo, queridinha? Paguei bem por ele, agora capriche!

Diante do terror de ser beijada por aquele homem nojento, Aritana só foi perceber os gritos das pessoas quando Santiago a arrancou dos braços dele. Mas não era por causa disso que as pessoas gritavam, mas sim por conta do ser sobrenatural que invadira o Gran Circo e sobrevoava por todo canto, com uma gargalhada retumbante. Às vezes parava e encarava uma ou outra pessoa, que ou desmaiava, ou saía correndo.

Aritana abraçou-se a Santiago e só abriu os olhos quando os gritos cessaram. Quem tinha ficado, Ferdinand e Rivera entre eles, jazia desacordado no chão.

— Eu não me perdoaria se esse beijo tivesse acontecido! — confidenciou Santiago.

— Apesar de tudo, você veio atrás de mim.

— Eu posso ser tímido e desajeitado… Mas louco eu não sou! — Afirmou ele, finalmente beijando a braziliaanse.

— Viram a minha performance? O que acharam dela? — Dona Mercedes os surpreendeu no meio do beijo. — Nunca me diverti tanto nessa minha vida pós-túmulo! Ah, se me acostumo com isso…

— Madresita! Não sei como agradecê-la, mas será que podia nos deixar a sós, ao menos por alguns dias? — suplicou Santiago.

— Claro, hijo, claro! O que uma madre não faz por um hijo tão precioso? Só me responda uma coisa…

— Diga, madresita…

— Vou poder ir ao casamento, não vou?

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21 comentários em “Aritana, Santiago e um fantasma um tanto inconveniente (Bia Machado)

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  1. Que delícia de história, Bianca! Fantasmas e seus caçadores com armas especiais e exclusivas; muita ação e um romancinho encantador. O fantasma da madresita foi é bastante conveniente… Tramou o amor entre os dois e fez que tudo desse certo (Ops! Spoiler).

    Um texto divertido, o início é meio dramático e curioso, mas o desfecho é leve, inesperado, fazendo com que acompanhemos o trajeto das emoções através das situações criadas. Algumas delas são ótimas e me fizeram dar boas risadas. A ambientação meio-Brasil e meio-castelhana deu um ar interessante à trama. O texto flui, senti a mudança no relacionamento de Aritana e Santiago, que são personagens com características marcantes. Enfim, conseguiu manter a minha atenção até o final, totalmente envolvida com a narrativa precisa.

    Beijos e parabéns!

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    1. Obrigada pelo comentário, Fheluany, eu sinto falta de escrever coisas desse tipo, de aventura, romance, que se passam em tempos alternativos, principalmente do Brasil. Por isso gosto tanto do Steampunk, ele possibilita isso tudo ao mesmo tempo, rs. Aproveitei que hoje está mais calmo e revisei mais uma vez, acabei alterando algumas coisas, tirando repetições e reorganizei o texto na cena do circo… Que bom que gostou! ^^

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que conto mais louquinho e gostoso de ler! Aventuras,detetives, fantasmas que não assustam, armas surpreendentes, uma dupla de protagonistas cativantes, ambientação insólita e para terminar uma final feliz. Impressionada em ver como você conseguiu juntar essa mixórdia de ingredientes em um conto absolutamente envolvente. Parabéns pela história, me diverti bastante lendo. Acho que você devia investir mais nesse gênero cômico-louquinho. Beijoss

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  3. Haha! Um conto que me fez lembrar um romance adorável que li quando era adolescente. Náo pelo enredo, mas pelo comportamento dos personagens. O nome deve ser algo parecido com As Aventuras do Sr. Pickwick , de Charles Dickens. Seu texto é leve, divertido, inteligente e cheio de referências (identifiquei Star Wars, Conan Doyle, o escritor Stendhal e até o filme Ghost Busters). Muito bacana, Bia, meus parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ah, sim, do Dickens só li David Copperfield e Oliver Twist. Já me falaram desse livro dele, que é bem gostoso de ler. Vou procurar! Você acertou em todas as referências, fiz uma miscelânea e me diverti escrevendo! Só para constar: o Erick Stendhal já tinha sido personagem de uma novela minha de viagem no tempo, chamada “Paralelos”, que escrevi durante um desafio no Orkut, faz teeeemmmmpo… Eu não ganhei, acho que fiquei em terceiro ou quarto, o desafio era tipo Big Brother, cada semana um saía e depois que o desafio terminou, o pessoal pediu para eu postar os capítulos que tinham ficado faltando e eu fiz isso… Estou tentada a dar uma ampliada nesse texto, o “Paralelos”. E aí, depois, quem sabe nesse aqui…

      Curtido por 1 pessoa

      1. Ah, vc deveria mesmo investir nesta área, vc fez um texto delicioso! Adoro referencias em tudo, filme, livro, porque é um plus além da própria obra. Leia o livro que mencionei sim. Vc vai amar!

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  4. Delicioso texto com um humor na medida e na leveza que guia o leitor num enredo cativante. Senti também a referência ao amigo Wallace – Watson. Concordo com as meninas, vc devia investir no gênero que envolve e nos alegra.

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    1. Obrigada pela devolutiva, Sandra! Sim, Wallace é uma referência ao Watson, tendo como base um filme que assisti sobre Sherlock e Watson na época da faculdade, chamado “O Enigma da Pirâmide”, conhece? Eu adorei. A referência à inglesinha, o amor de antigamente do Santiago, também foi com base nesse filme, rs.

      Curtido por 1 pessoa

  5. Uma leitura bem divertida para começar meu dia. Que bom! Aritana, uma personagem bem construída e caracterizada como uma beldade destemida. Adorei Madrecita, também. Fantasmas e humor combinam, não é mesmo? Parabéns pelo conto leve e tão agradável de se ler.

    Curtido por 1 pessoa

  6. Olá, Bia. Obrigada por um conto, bem-humorado, leve, que se lê de ponta a ponta com um sorriso nos lábios, imaginativo e carregado de charme. Aritana, bela, sensual, arrebatada, o sonho de qualquer homem; Santiago, tímido mas não temeroso, sensível, relutante e apaixonado; e a Madrecita, essa mãe manipuladora, divertidamente malvada e cheia de truques. Achei o máximo e termino a minha noite da melhor maneira. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Querida Bianca,

    Que gafe e desperdício eu ter pulado este conto sem querer. Mas, agora estou aqui. Que criatividade, hein?! Gostei bastante, pena que você não ande participando do EC, esse aqui seria tiro e queda no Sabrinesco que vem por aí.

    Quase um filminho de Far West a Brasileira, não é? Gostei muito, sobretudo da ambientação do conto, com ares, de certa forma, de steampunk, que aprendi a amar desde um certo desafio. Outro ponto alto foi a inserção da lendas brasileiras, para quem conhece Caipora entre outros, fantasma não faz medo. rsrsrs

    Parabéns!

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pelo comentário, Paula! Na época da Contos Fantásticos, o conto foi classificado como novelesco, deve ser similar, ahhahha… Já pensei em várias histórias tendo um Brasil alternativo… E faroeste, adoro! =D

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