O astronauta – Elisa Ribeiro

tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano

Walter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis

Vendo-o atrapalhado em despir o casaco, antecipei-me. Peguei a bagagem de mão dele e coloquei-a sobre a esteira do raio-X.

 “O que senhor trouxe nesse bolsa, pai? Chumbo? ”

“Livros, minha filha…”

“Livros, pai? O senhor trouxe mais de um livro pra ler durante a viagem? ”

“Claro! Durante a noite, enquanto você sonhava e o avião balançava, eu li um pouco de cada um…”

Cinco!  O responsável pela inspeção de bagagem examinou-os meticulosamente, um a um, entre as folhas inclusive, procurando drogas talvez, pouco se importando com a funcionária da companhia aérea que repetia com sotaque francês, pela terceira vez, nossos nomes brasileiros.

O ponto alto da viagem foi Londres, papai nunca havia estado lá. A visita ao Museu Britânico, o programa que mais rendeu. O melhor momento, sem dúvida, ele me explicando em detalhes a história da campanha de Napoleão no Egito, da descoberta da Pedra da Roseta e de como Champollion a decifrara. Se me cansava? Um pouco. Menos porém do que o tanto que eu admirava aquela memória estupenda, tão preservada mesmo depois dos oitenta anos de idade.

*

Pensava nisso enquanto preparava algo para comer no apartamento dele. Era memória ainda, logo seria saudade, adiante, esquecimento.

A visita havia sido difícil, mas eu não conseguia deixar de ter esperança, como deve ser quando a história das pessoas que amamos se aproxima do desfecho. Ou do próximo começo, quem saberá?

Porque tinha esperança, fazia planos. Com metas realistas, entretanto. Por exemplo, não ousava imaginar uma nova ida à Europa, mas levá-lo em passeios pelo Rio mesmo, quando ele tivesse alta.

Pouco antes da última internação, havíamos ido ao Jardim Botânico. Ele, sentado na cadeira de rodas conduzida pela cuidadora que visitava o lugar pela primeira vez. Eu, um pouco melancólica, menos pelo estado de saúde dele, que na época ainda prometia melhoras, do que pela distância entre o que via e a lembrança do lugar que costumava visitar, levada por ele na infância e de mãos dadas com meu namorado, anos mais tarde, na juventude, os dois cursando uma disciplina de botânica na faculdade. Talvez fosse o olhar mais crítico depois de tantos anos passados, talvez uma armadilha da memória. Tudo me parecia embaçado, gasto, esquecido da antiga vitalidade.

Papai, não. Agradecia comovido a mim, a Deus, à cuidadora, por estar ali. O sol, o verde, os cacaueiros, jacarandás e dendezeiros de sua infância, a sombra das mangueiras. Comprou uma orquídea no orquidário para enfeitar a casa. “Sua mãe adorava”. Depois pediu ajuda para alcançar o tronco de um jatobá imenso; queria tocá-lo, sentir-lhe a textura, o cheiro.

Em um dos breves momentos de lucidez na UTI do hospital, havia prometido levá-lo ao Pão de Açúcar num próximo passeio. “A vista mais linda do Rio de Janeiro! ”, reagiu, a língua enrolando por causa dos remédios, os olhos em outro tempo e lugar. 

Eu achava o mesmo. A melhor vista de Copacabana! A ferradura perfeita, as ilhas ao fundo, a parede de prédios à beira-mar tão surpreendentemente integrados à paisagem quando vistos de cima, a areia branca e larga.

*

Muito havia de ler no apartamento do papai; quase nada de comer. No deserto da geladeira, algumas fatias comíveis de um presunto antigo e um resto de queijo mofado. Enquanto preparava um sanduíche com o pão meio murcho que havia encontrado na padaria perto do hospital, a reminiscência da viagem a Londres e da explosão de euforia que havia sido a visita ao Museu Britânico, me levou para uma outra época e um lugar bem distante da Zona Sul da cidade.

“Vou levá-lo ao Museu da Quinta da Boa Vista” planejei, imaginando o tanto de conversa que a visita renderia. O derramar inesgotável de conhecimento abrigado na  mente do meu pai era, desde sempre, a coisa de que eu mais gostava no convívio com ele.

*

“A próxima vez que viajar de disco-voador vou te levar, filha. Tem muitas dessas no espaço” foi o que ele disse aos meus ouvidos atentos depois de uma explicação longa, detalhada e certamente fantasiosa do que era um meteorito. Era a minha primeira vez em um museu. Assombro puro, olhos arregalados, de mão dadas com ele, bem pequena.

Em casa, quando contei à minha mãe sobre o meteoro e a viagem espacial, ela me disse que só quando eu tivesse doze anos. “Não é, papai? ”, complementou. Uma expressão ambígua no rosto, misto de repreensão e cumplicidade.  

Liguei a televisão com o sanduíche no colo. Na tela labaredas, fumaça, paredes sendo consumidas pelo fogo. Senti um arrepio com a coincidência quando entendi ser o Museu Nacional, o mesmo que eu havia planejado visitar minutos antes, que se desfazia em meio às chamas.

Nunca mais o lugar da minha lembrança. Nem com meu pai, nem no futuro com os netos.  

O coração disparou quando o telefone tocou bem cedo na manhã seguinte. É no pior que sempre pensamos primeiro. Perguntaram se eu era a responsável pelo senhor fulano, meu pai.

“Sim! Aconteceu alguma coisa? ”

Meu pai havia recebido alta para o quarto, foi o que disseram. Necessitavam da presença de algum responsável para que a remoção fosse feita.  

Papai passou o dia inteiro sonolento, dormindo ou cochilando; depois de uns dias de UTI, muito sono é o que qualquer doente precisa para se recuperar. Eu havia passado o dia inteiro no hospital, estava cansada e entediada, só aguardando a cuidadora que viria me render como acompanhante depois do jornal da noite.

A notícia de que meteorito do Bendengó havia resistido ao incêndio no Museu foi o destaque do noticiário. “É, minha filha, nesse país tem que ser duro, frio, mineral e alienígena para sobreviver incólume a tanta ignomínia”, a voz soou forte, grave, quase como costumava ser. Citou o peso do meteorito, a data em que fora encontrado e começou a contar os detalhes da descoberta. Aproximei minha poltrona, acomodei-o melhor suspendendo um pouco o encosto da cama e liguei para a cuidadora dizendo que não precisava vir me render. Passamos a noite inteira conversando.

*

Tive que vir embora para Brasília antes de ele ter alta para casa. A licença no trabalho havia acabado. Minha irmã mais velha me substituiu no papel de responsável, as cuidadoras continuaram na função delas, de acompanhantes incansáveis.

“Você tem que ir mesmo? ”

“Tenho, pai, infelizmente. Tenho que trabalhar. ”

“Qualquer hora pego uma carona em um disco voador e vou lá ver você”, apertou os olhinhos, uma piscada.

“Fica falando essas bobagens, a enfermeira vai dizer que o senhor está senil, caduco, e vai mandar o médico receitar remédio para consertar o juízo. ”

Abracei-o apertado.

“Daqui a duas semanas volto, vou dar um jeito de arrumar umas folguinhas no trabalho. ”

De Brasília, acompanhei pelas câmeras instaladas no apartamento sua chegada quando teve alta e depois, todos os dias, a rotina dele, desde o despertar até a hora em que se recolhia para deitar. Nada notei de diferente na noite em que ele apareceu no meu quarto.

Fazia frio, a janela estava aberta, levantei na intenção de fechá-la. Quando afastei a cortina, dei com meu pai do lado de fora, minha mãe um pouco atrás. Vestiam uma roupa que parecia um traje de astronauta, no cabelo dela, presa de lado, a orquídea do Jardim Botânico. Os dois flutuavam. Meu apartamento fica no quinto andar.

“O disco voador está estacionado aqui perto. Vim te buscar…”.

Respondi que não podia, tinha muitas coisas para fazer no dia seguinte. Ele fez um trejeito com a boca, um beijo; minha mãe acenou um tchau.

Despertei tremendo de frio, desliguei o ar condicionado, tomei um gole de água, o marido ressonando ao lado. Pensei em dar uma conferida na câmera pelo celular, mas achei que podia acordá-lo.  

No dia seguinte, logo cedo, a notícia. Meu pai havia partido durante a noite na sua última viagem.

Até hoje as duas malas com objetos, sobretudo livros, que recolhi como lembranças do seu espólio, continuam fechadas. Em certo sonho recorrente, vejo-as consumindo-se em chamas. Acudo apavorada, mas logo me tranquilizo. O melhor legado dele é sólido e  não combustível. E está muito bem guardado.

22 comentários em “O astronauta – Elisa Ribeiro

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  1. Um texto belíssimo e de fácil visualização por conta do seu talento em ambientar os cenários, desta vez, reais e conhecidos por mim. Acredito que esta seja uma história real, então eu lamento muito pela perda de seu pai. Seu conto ficou muito emotivo e empático, vendo vc contar o que aconteceu,ficamos com sentimento de nostalgia por não termos tido a felicidades de conhecer e conversar com ele sobre livros, cultura e viagens em naves imaginárias. Beijos.

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  2. O texto está minuciosamente elaborado, como uma rede com fios de emoção e ingenuidade, amor duradouro, promessas cumpridas. Ao final essa leitora foi capturada. Contém muita melancolia e tristeza nas entrelinhas, talvez por despertar (ou resgatar) algo que falta hoje em dia: saudade, amor, atenção com os idosos.

    Linguagem e conteúdo se amarram perfeitamente, flutuando do informal para o poético. São situações do cotidiano vistas com suavidade, com sensações bem descritas. A fantasia ganha um espaço, que nesse caso, caiu bem. O epílogo é digno de uma das melhores histórias que já li desafios afora.

    O tom jocoso empregado em algumas passagens também desperta um sentimento intimista e uma certa fofura à narrativa. O protagonista é carismático, humano, falho, esperançoso, o que o torna verossímil, como não poderia deixar de ser, porque a minha impressão que fala do seu pai, de fato. Perdi o meu, em agosto do ano passado. Tinha 95 anos, lúcido e divertido. Não gostava tanto de ler, mas amava uma boa anedota.

    Um trabalho sensível, inteligente que cativa. Excelente!

    Grande abraço!

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    1. Muito obrigada pelo comentário tão gentil, Fátima! Sim, falo do meu pai, mas não sei se ele se reconheceria no personagem (rsrsrs). Certa vez escrevi uma história sobre um personagem idoso, já com algumas fragilidades, inspiradíssimo nele, mas ele, vaidoso, não se reconheceu e eu tive que arranjar uma desculpa. Muito feliz que tenha gostado. Ganhei o dia com esse “epílogo é digno de uma das melhores histórias que já li desafios afora”. Beijo grande, querida!

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  3. Que conto mais lindo, Elisa! O amor entre pai e filha, o sentimento de pertencimento a uma linda família, entremeado pela fantasia. Momentos de um passado cheio de histórias de infância e do Brasil. Momentos voltados para um futuro, pai astronauta vindo em sonho se despedir. Muito bem costurada a sua trama. Parabéns!

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    1. Emocionante!!!Muitas saudades do seu pai.Sua descrição me transportou .O Fernando adorava conversar com ele.(Fernando).Aliás,quem não gostava.
      Parabéns!!!Bela homenagem.
      Beijos.

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      1. Muito obrigada pela leitura e o comentário, Maria Amélia. Figura inesquecível, meu pai… Beijo grande, querida. Lembranças ao Fernando.

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  4. Olá, Elisa. Há histórias (raras) que não precisam ser verdadeiras para ser reais e esta é uma delas. Esta relação entre pai e filha, a cumplicidade dos dois, pode ser no Londres, no Rio, Nova Iorque ou outro sítio qualquer. Relação entre pai e filha é unica e muito diferente de pai-filho e de mãe-filha ou filho. Essa magia que acontece com algusn pais e algumas filhas só encontra um vago paralelo nas avós (não sei porquê, mas só em nelas) – algumas, claro, não todas. Não sei se o relato corresponde a factos que tenha vivido com o seu pai, podem ter sido outros mas assim, esta história é verdadeira. Tive a sorte de também ter momentos desses com o meu pai, cumplicidades nossas, conversas só possíveis entre nós. É realmente um legado incombustível, um legado de amor e partilha. Lindo! Obrigada pela leitura. Beijos.

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    1. Oi Ana! Concordo com você que há uma química especial nas relações pai-filha e também naquelas entre algumas avós e netos, mas nunca parei para pensar no que tais relações tem em comum. Uma continuidade mais poética, talvez, pela descontinuidade do gênero no primeiro caso e geracional no segundo, talvez. Filosofando, aqui. “Conversas só possíveis entre nós”, exatamente! Obrigada, querida, pela leitura!

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  5. Querida Elisa,

    Chorei.

    Você tem uma habilidade incrível com narrativas da terceira idade, não é? Esta aqui daria um incrível roteiro para filme, um curta-metragem… Sério… História linda, sensível, cheia de amor, além de imagética. Um conto para elevar a alma.

    Beijos e os mais sinceros parabéns.

    Paula Giannini

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    1. Oi Paula! Então te fiz chorar? Bingo!! Eu curto mesmo personagens idosos. Volta e meia eles aparecem nos meus contos. Certa vez um amigo meu disse que eu perdia tempo com isso, porque histórias de velhos não tem público. Mas eu insisto, é mais forte do que eu (rsrsrs). Será que rende dramaturgia, mesmo? Vou pensar… Você me ajudaria?

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      1. Elisa, também já ouvi muito isso, acredite. Porém, discordo. Adultos podem ler sobre crianças, sobre velhos, sobre animais…. Se quiser investir em roteiro, ajudo sim. Roteiros para vídeo, em geral, são mesmo escritos por várias pessoas.
        Beijossss
        Paula Giannini

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  6. Olá, Elisa! Foi esse o conto que integra a coletânea do Museu do Carreira Literária? Não consegui ler sem ficar com um nó na garganta. Há uma beleza em resgatar as relações humanas para além das palavras. Seu texto é um bordado que se faz de emoção, historicidade, fantasia e saudosismo na medida, formando uma textura rica de sentidos. Eu embarquei na sua história e me vi menina como a protagonista. E me vi seduzida por esse pai que a leva a tantos lugares de conhecimento e de fantasia. E me vi atrelada a esse sofrimento que é tão humano, a decrepitude do corpo dos pais, a saudade antecipada, o desejo de embarcar num disco voador para outra dimensão. Um conto perfeito que nos aflora as emoções, o que temos de melhor! Amei. Parabéns.

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    1. Oi Sandra! Sim, esse é o conto que escrevi para a coletânea do Carreira. O livro ficou bem caprichado. Muito obrigada pela leitura e comentário. É um texto com muitas referências pessoais. Logo em seguida a perda do meu pai só conseguia escrever sobre morte. Felizmente essa fase parece ter passado. Beijos, querida!

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  7. Olá, Elisa !
    Mais uma vez você foi sublime! Um lindo conto com uma sensibilidade incrível! Seu talento deixá-nos envolvidos com os personagem e emocionados pela história!

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  8. Que lindo! Apesar de triste, é uma bela história, onde o amor entre pai e filha é quase palpável. Tenho muito medo de perder meus pais, deve ser uma sensação horrível… 😥
    Bjs ❤

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  9. Oi, Elisa! Foi aqui que parei, rs. O “Vou comentar logo para não ficar muito atrasada” se transformou em meses e meses, com dois desafios no meio e por aí vai… Obrigada pelo conto, é lindo, emocionante mesmo. Eu chorei aqui. Mas também fiquei feliz por toda essa ternura, cumplicidade, por uma vida que da forma como você descreveu, foi tão bem vivida e até pelo disco-voador, que tenho certeza que é verdadeiro. 😉

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