RALF – Glub Glub

Júlia ainda não sabia como iria convencer Guilherme, o irmão mais velho, mas mesmo assim já havia descrito o que levaria para a mostra científica da escola: Ralf, um peixinho dourado. Há poucos dias o animalzinho aquático havia somado à família quando o irmão completara treze anos. O dia fora divertido como há muito não acontecia: pai e mãe reunidos, cineminha, parque de diversões… O aniversariante quase empobreceu o pai na barraca de tiro, mas acabou acertando o alvo e levado Ralf como prêmio para casa. Agora Júlia seguia os passos de Guilherme de perto, com ouvidos e olhos atentos.

RALF

Primeiro veio a percepção de cores: o perolado da areia, o verde dos musgos sobre as pedras, o azul do céu…, depois as sensações acompanhadas de certezas muito além de instintivas. Frio molhado, ciência de estar molhado… Em um instante o glub glub que o rodeava explodiu violento enquanto seu corpo pequenino convulsionou elétrico.
— Vamos, Ralf! Mexa. Vamos! Vamos!

— Ô, paaaaai!
Tentou, sim. Tentou organizar as ideias, canalizar as energias. Estava vivo, isso era fato. Podia perceber muito mais do que aquilo o que tocava e via, e entendia também os sons. Uma certeza familiar dizia que a voz falava com ele, de que nada ali era novidade. Entretanto, como se seu corpo estivesse congelado, sentia a mente voando apressada para longe. Preso em um estado epfânico/catatônico, com o ventre voltado para cima e boiando na água do aquário, Ralf, o peixinho, permanecia com a boca escancarada como se estivesse abocanhando o universo.
— O que foi que você fez? — Falou Júlia adentrando no quarto sem conseguir acreditar no que acabara de ver.
— Eu? Nada. Eh… Foi um acidente. É que…
De repente, da mesma forma em que o choque havia colocado Ralf naquela condição, os movimentos retornaram e o peixinho nadou de lá para cá fazendo os irmãos calarem-se e observarem aquele ato com a raridade de um fenômeno jamais visto.

— Ufa! Alarme falso! — Exclamou o moleque ao mesmo tempo em que chutou o barbeador elétrico do pai para debaixo da cama.
O silêncio pairou no quarto por alguns segundos enquanto Júlia atentava para a oportunidade que tinha em mãos. Ralf examinou os dois a sua frente e a compreensão do feito ocorrido minutos atrás o deixou com uma enorme vontade de rir. Entretanto, teve os pensamentos interrompidos quando sentiu a água trepidar com força unido a voz da menina.
— Ok, minha vez.
— Não! Pera aí.
Mas a garota foi muito mais rápida que o irmão e num piscar de olhos já havia carregado o aquário com Ralf para o quarto pertencente a ela.
— Não! Devolve. Ele é meu. Pai! Paaaaaaaai!
E o peixe, com todos os sentidos aflorados, experimentava o universo balançar à medida que o aquário era agitado e a água esparramava no chão. Medo, dor, impotência… A grandeza da vida o esmagando em sua condição de peixe. Talvez fosse imprudente tamanha percepção de mundo.
— Shiiiii! Cala boca. Ou eu conto pro pai o que cê fez.
Então o mexe mexe parou, Guilherme, hirto no quarto da irmã perguntou-se acerca daquela sentença. “O que ela sabia?” Não precisou falar. Júlia, com toda frieza das pessoas que sabem ter poder sobre as outras, explicou enquanto pousava o aquário na mesinha do computador.
— Cê pegou o barbeador do papai e deixou ele cair no aquário. Eu vi.
— Não conta!
— Tá! Mas agora o Ralf vai ficar comigo um pouco.
— Um pouco? … Quanto?
— Eu decido. Ele podia ter morrido com o choque, sabia?

— Agora vai lá e busca a comida dele.
Guilherme demorou para sair do quarto. Queria argumentar, mas a irmã, apesar de mais nova, era sagaz. Vencido, caminhou porta a fora.
— E, Gui, cê tem nem sombra de barba.
Gargalhou da situação do irmão e bateu a porta com força. Se prestasse mais atenção naquele momento, poderia ver bolinhas de ar no aquário. Ralf, assim como ela, explodia em risos


Uma semana havia se passado após o ocorrido. Sete dias como na criação. A vastidão e vazio de ser e existir, e de repente, Bang! Uma redoma de vidro, dezesseis litros de água, cento e vinte sete pedrinhas lisas… A capacidade de reter memórias. Cada vez que Júlia trancava-se no quarto e ensaiava a fala para o evento científico da escola, numa alusão incidental a Santo Antônio, Ralf sentia o aquário se estreitar. “Peixes são animais pecilotérmicos, ou seja, de sangue frio. Eles retiram o oxigênio da água através das brânquias. O hábitat natural dos peixes é aquático: lagos, rios, oceanos…”
“…e sabe o que mais? Vou te deixar no laguinho que fica atrás da escola.”


Júlia certificou-se que estava sozinha, para só então correr. O pequeno copo descartável não tinha espaço suficiente para o peixe dourado, mas a lagoa não era assim tão distante. Tinha pouco tempo até o irmão procurar por ela a fim de tomar a condução que os levava e trazia da escola. Se não houvesse chovido, poderia seguir sem que ficasse com os pés atolados na lama, mas o córrego já estava à frente. Parou próximo e exclamou quando percebeu o volume d’água que parecia crescente.
— Uau! Eu não sabia que era tão grande assim.
A menina chegou mais perto da borda, não iria simplesmente jogar o peixe na água. Fitou o animalzinho e o agradeceu pelo serviço prestado.
— Aqui, Senhor peixe! Muito obrigad…
De súbito a terra cedeu, a água corrente trazida pela chuva fez Júlia ser arrastada para o fundo, e sem que ninguém estivesse perto para ajudar, seguiu debatendo-se em linha reta.


Era madrugada quando Júlia abriu os olhos. O maquinário hospitalar, a luz branca, os lençóis… De um lado a mãe jazia adormecida em uma cadeira próxima, do outro o pai fazia o mesmo, só Guilherme tentava subir troféus na batalha do joguinho de celular. As imagens confusas do que havia acontecido se perderiam na cabeça da menina um dia, assim como aquelas palavras liquidas que ouvira de Ralf.
— Ei, Gui! — E o dedinho levantou na vertical até os lábios para que o irmão fizesse silêncio. — Ele me salvou. Foi ele.
Guilherme se surpreendeu ao ver as feições da irmã mudadas. A boca fazia um arco circular em cada lábio, e ao invés de falar ela produzia sons ininteligíveis como se estivesse embaixo d’agua.

Personagem que inspirou essa história.

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17 comentários em “RALF – Glub Glub

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  1. Essa foi uma das fichas mais criativas, na minha opinião. E eu adorei a criatividade com que a autora criou sobre o Bento (que na sua versão virou RALF). A maneira como a autora nos conduz para dentro e para fora do aquário, ora mostrando o ponto de vista do peixe, ora das crianças. E esse universo dos irmãos, muito bem construído, essa relação de cumplicidade e implicância, esse misto de realidade e fantasia, tão peculiar e que está presente no final, onde o leitor se pergunta: o que foi que realmente aconteceu? Curti muito, parabéns!

    Curtido por 5 pessoas

  2. Este é um conto que eu não queria comentar. Porquê? Porque cheguei a desejar que me saísse este personagem, ou seja: este personagem levou-me a desejar viver a experiência de ser aquele peixe e contar a minha história. E criei as minhas expectativas próprias para a história que iria ler e claro que a autora deste conto não é eu e o conto teria sempre de ser muito diferente e a desilusão inevitável. E ela aconteceu, uma certa desilusão, eu queria algo diferente dele. E além disso nem é ele o protagonista, a protagonista é a menina quem conta a história que imagina que terá havido com o peixe, imagina ou acredita. Então e tentando adotar os critérios propostos pelo desafio, eu diria que o conto cumpre perfeitamente com o guião, mas que o personagem principal foi relegado para, talvez principal ator secundário. Nada disto significa que gostei menos por isso, não. Um abraço carinhoso.

    Curtido por 5 pessoas

  3. Olá, Contista! Há nesse conto uma certa magia, a capacidade do peixinho reviver e fazer reviver os que estão à sua volta. Ao depararmos com Júlia, ingênua e sagaz, espirituosa e negligente, a personagem ganha ares tão humanos, com defeitos e qualidades, com sua história de se ludibriar o irmão para depois, soltar o peixe à natureza, ao mundo que o contém e que, no final, também a contém. Um belíssimo conto com uma história primorosa. Parabéns!

    Curtido por 6 pessoas

  4. Olá. Meu cachorro se chama Ralph. É a primeira vez que vejo um peixe com semelhante nome. Uma história meiga onde uma menina evita que o irmão projeto de psicopata mate um peixinho. Após o choque provocado por Guilherme, o peixe passa a conseguir compreender a fala humana, e descobre que a menina pretende devolvê-lo à natureza logo depois de uma exposição na feira de ciências. Quando a menina está colocando o peixe de volta, acontece algo com a menina, e ela vai parar no hospital, onde tenta informar ao irmão que o peixe a salvou. Este final ficou com lacunas para mim. Afinal, o que aconteceu com a menina? E o peixe, ela conseguiu colocá-lo no lago? Por que ela falou que o peixe a salvou? Talvez o problema esteja comigo, a leitora, mas, para mim ficou faltando algo para a correta compreensão do texto. Se puder me explicar, ficaria muitíssimo grata. Beijos.

    Curtido por 6 pessoas

  5. Olá, Contista querida,

    Ao acabar de ler o texto e passar para a ficha, tive uma boa surpresa. Acho que o Bento/Ralph foi bem executado.

    A estrutura da narrativa é muito bem construída e eu gostei de pensar que algumas das propostas da ficha, como o fato de o peixe ajudar a menina, ter ficado um pouco abeto no texto, pois está relacionado à compreensão da criança sobre o que aconteceu. E isso não condiz com a realidade, necessariamente.

    As lacunas não me incomodaram, é o que quero dizer.

    Parabéns! Eu gostei bastante, está muito bem escrito!

    Curtido por 6 pessoas

  6. Olá, Contista!

    Obrigada por participar do nosso desafio 🙂

    Com certeza essa ficha era uma das mais instigantes e criativa. Um conflito muito difícil de se resolver. A leitura como um todo é muito agradável, com bastante fluidez não cansa em nenhum momento, ao contrário, queria mais. Concordo com o que Anda disse, aqui o Ralf ficou em segundo plano não sabemos muito bem até onde vai suas habilidades, o fato de ter gerado elas através do acidente com o barbeador foi uma ótima sacada.

    Acho que faltou mais, como não tinha limite a autora podia ter desenvolvido mais esse final e o vínculo que o peixinho, segundo a ficha, tinha com a família. Não sabemos ao certo o que aconteceu com ele. Trocaram de lugar? Vamos ver se teremos respostas depois do desafio.

    Parabéns!

    Curtido por 6 pessoas

  7. Quase um conto de fadas! Desventuras entre irmãos, peixinho e um pouquinho de … magia! Gostei, bastante fluído e instigante. Para mim, no tropeço final da menina, a energia que emanava de Ralf ainda estava presente devido ao acidente com o barbeador, e isso fez com que ele e Júlia trocassem de lugar. Coitadinha da menina, foi parar na lagoa! E como Ralf se comportará como um humano? Ele irá atrás de Júlia? Merece continuação hahaha. Bjs ❤

    Curtido por 5 pessoas

  8. Olá, querida amiga Contista!
    Seu conto está escrito de uma forma tão natural, tão firme e fluida que é muito gostoso de ler, dá pra notar que tem paixão pela escrita! Eu fiquei admirada com o seu conto, é completamente diferente de como eu faria. Isso é o mais legal desse desafio, enxergar novas possibilidades. Você escreveu o seu conto, não se apegando demais a ficha mesmo que tenha se apegado o suficiente. Eu gostei desse final, pra mim, ela caiu no rio, com peixinho e tudo e o peixinho a salvou, conferindo a ela sua natureza, daí o irmão não entendê-la, ficou no campo do fantástico. Eu gostei muito! Parabéns!
    Um abraço!

    Curtido por 6 pessoas

  9. Eu simplesmente amei esse conto! Criatividade não falta, mas também não falta a sensibilidade de tocar o leitor com uma história que começa ingênua, mas de ingênua não tem nada. Gostei demais do final também, porque o fantástico está presente, embora sutil, em toda a trajetória, mas evidencia-se ao terminar. Parabéns pelo conto!

    Curtido por 5 pessoas

  10. Olá Contista! Você trocou o nome e a cor do meu peixinho… Magoei!.. Para mim, um sinal de que você usou as indicações da ficha mas contou a sua própria história, o que achei ótimo. A história ficou bem bacana, os elementos do enredo bem imaginativos e conectados. A descarga elétrica e a tromba d´água, o peixinho salvando a menina durante o acidente, o elemento fantástico insinuado pela a menina fazendo boquinha de peixe no final, uma graça. Só acho que um rio, ao invés de um laguinho ou uma lagoa, ficaria mais consistente com a ocorrência da tromba d´água. Espero que tenha curtido receber essa ficha, que flertava com o infantil e o fantástico. Eu gostei demais do resultado. Um conto adorável! Beijos.

    Curtido por 4 pessoas

  11. Olá, glub glub pra você! Achei o conto fofo, pois o personagem trabalhado já era um encanto na ficha. Como já falaram, ele não foi o protagonista do conto, mas personagem essencial para o desenrolar da trama. Não sei se consegui entender bem o final. A menina resolve devolver o peixinho à natureza, chega à beira de uma lagoa, o solo cede devido ao aumento de volume d’água causado pela chuva e ela é arrastada para a provável morte. Ralf, o peixinho, troca de lugar com Júlia, ou entra dentro dela? Por que a garota diz que ele a salvou? O elemento fantástico ficou bonito, mas misterioso. Depois me conta qual foi a sua ideia, tá? 🙂

    Curtido por 2 pessoas

  12. Muito criativo este enredo com um caso de amor pelos animais e uma transmutação da alma do peixinho para o corpo da menina. Gostei da ideia e da execução. Parabéns ás autoras – do personagem, que mesmo não sendo o protagonista, teve um papel fundamental e da trama interessante. Beijos.

    Curtido por 3 pessoas

  13. Gostoso este conto!!
    Mais uma vez a criatividade venceu!! Que bárbaro!!
    Gostaria de ver este conto maior, para criar mais momentos com o peixinho,, eles foram ótimos.. ele nao só ganhou o dom da consciencia e de reviver como tb o bom humor!! kkk
    Entendi que ao final ele salvou a menina com seu superpoder de reviver, acredito… mas nao entendi q ela ficou meio-peixe… acredito q ela jamais falaria como humana novamente… rsrs ja fiquei imaginando a vida futura dela, q complicação.. embora a linguagem de sinais está ae para ser aprendida! 😛
    E o que aconteceu com Ralph? terá entrado na menina?
    Pena q trocaste o nome dele, gostei do nome da ficha.
    Parabens pela criatividade, contista!

    Curtido por 3 pessoas

  14. Boa noite, Contista!

    Já li seu texto. Gostei sim,mas achei curto para proposta. Compreendi que a menina caiu no córrego e o peixe a salvou talvez utilizando um dialeto de peixe. Haha! Então, por que Ralf? Por que Bento Conegut? Haha! Em todo caso, tem umas passagens bacanas aí quando descreves o aquário e a mentalidade do peixe (algo do tipo), gostei disso. Gostei das crianças também e acho que a menina o soltou porque também compreendeu que a vida ali em uma redoma não é vida, né?
    Enfim, gostei do seu texto, mas queria muito ver o desenvolvimento dessa trama pela autora da ficha. Sei lá, instigante de fato!
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  15. Esse texto foi uma grande surpresa pra mim. Já começa pela personagem inusitada, que era para ser a principal, mas ficou coadjuvante, porém eu nunca imaginaria o rumo que as coisas tomaram… Eu entendi uma coisa ao final, que houve uma troca, mas será isso mesmo? Não me incomodam finais abertos, de forma alguma, mas se tiver uma versão sem cortes avisa a gente, tá? Todas as personagens me cativaram e isso é muito bom! Fico pensando o que eu faria ao escrever uma história com essa ficha, ficaria doida, mais ainda do que fiquei com a minha, rs… Parabéns e obrigada por dar vida a essa proposta de conto. 😉

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  16. Eu adorei esse conto, a ficha é excelente, tudo me levou para um universo de magia, onde tudo torna-se possível, “geralmente” bonito (como foi aqui) e impressionante.
    Ralf é um peixinho peculiar que após sofrer algumas agruras nas mãos de Guilherme é liberto pelas mãos de Júlia, que ao tentar colocá-lo num riacho quase se afoga.
    Achei muito clara a salvação vinda por Ralf, afinal ele possuía poderes fantásticos, salvou a pequena – imaginação de criança ou não, ficou doce, emotivo.
    Meus parabéns, contista, e boa sorte!!

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  17. Querida Maria,
    Parabéns pelo conto.
    Incrível como sempre gosto tanto do que você escreve.
    A história é instigante e a parceria com a personagem criada pela Elisa foi perfeita.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

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