Distâncias – Carola Saavedra – para inspirar

(Publicado no jornal O Globo 2008)

Eu sempre sabia quando ela chegava, não porque ela tivesse horários fixos, mas pelo barulho dos sapatos. Os saltos dos sapatos eram um latejar lento e contínuo a percorrer degraus, lances de escada, a escada que se estendia em estreitas curvas pelo interior do prédio. Enquanto isso, sentado à mesa da cozinha, eu esperava, os passos que se aproximavam, o momento exato para abrir a porta, quando o ruido se espalhasse, quando a sua presença do outro lado. Abrir a porta e encará-la, somente alguns instantes, depois pedir-lhe que entrasse, que sentasse ali comigo, um café, um copo d’água, me falasse qualquer coisa sobre o tempo, ou sobre o dia, ou sobre a hora, ou então pedir-lhe que entrasse, que entrasse e simplesmente ficasse ali, sem dizer nada, nós dois em silêncio olhando pela janela, lá fora, o vento e a paisagem e o barulho das árvores, em câmera lenta, nós dois como diante de um filme, ou de um aquário. Mas os passos se aproximavam e voltavam a se distanciar, o meu olho encaixado no olho-mágico, minha mão envolvendo a maçaneta da porta que eu nunca chegava a abrir.

Naquela época eu raramente pensava nela. Naquela época os meus pensamentos enroscavam-se nas horas feito algas ou feito espirais.

Um dia ela se mudou para o outro lado da cidade. No mesmo instante, o outro lado da cidade distendendo-se, afastando-se, até tornar-se o lugar mais improvável, o lugar mais distante. No início eu ainda ouvia seus passos nos passos de cada um que chegava, no início ainda havia a porta e a janela e o aquário Depois os ruídos cada vez mais leves, depois cada vez mais suaves, até que um dia desapareceram, os dias atrás da porta, o café, o copo d’água, e eu me acostumei a não mais esperá-la chegar.

Eu raramente pensava nela. Durante um ano. Naquele ano eu pensei em outras coisas, naquele ano tudo continuou igual.

Talvez houvesse se passado muito mais tempo até que um dia, nos encontramos por acaso. Cumprimentei-a com um aceno escondido, reservado, talvez esperando que ela não me visse, não me reconhecesse, talvez que ela fosse embora, preocupada, correndo, imaginando ter esquecido qualquer coisa no forno, na geladeira, no varal. Ela se aproximou, me viu, me reconheceu, mas algo havia mudado, olhei-a com atenção, os olhos, o nariz, a boca, o cabelo, mas o que eu notava eram seus sapatos, seus sapatos que agora não tinham salto, os passos que agora eram leves, como se o chão inteiro fosse de borracha. Ela se aproximou como se nunca houvesse ido embora, eu sorri como se todo aquele tempo a houvesse estado esperando. Ela disse que tanto tempo, eu respondi que por aí. Ela disse que de vez em quando, eu respondi que talvez, que sempre, que sim.

Passamos a nos encontrar, talvez uma, duas vezes. Eu ligava como que por acaso, ela inventava desculpas para atender, eu esquecia o número do prédio num caderno antigo, ela perdia as chaves entre as almofadas do sofá. Ela nunca estava pronta, eu tocava a campainha, ela, a sua voz ampliada pelo interfone, que a rua, que o vento, que o dia, que a hora, eu colava o interfone ao ouvido, ela não dizia nada, ela descia as escadas correndo, eu nunca desligava. Pelas ruas, caminhávamos feito dois desconhecidos, surpresos, desconcertados, sem saber o que dizer. Tropeçávamos nas calçadas, trocávamos os nossos nomes, pedíamos água e café sem açúcar nos terraços dos cafés. Ela me oferecia balas de gengibre, eu lhe oferecia tabaco sem filtro que ela nunca aceitava. Eu fumava e ela parecia sumir por trás da fumaça. Eu gostava quando ela quase desaparecia e o seu rosto tornava-se difuso e inquieto. E era como se ela sorrisse.

E passavam-se horas enquanto o tempo passava. E dormíamos juntos na mesma cidade. E nunca nos tocávamos. E desviávamos o olhar. E nunca nos despedíamos. E nossas mãos se perdiam nas esquinas, entre os postes, entre a multidão.

Ela me escrevia cartas que nunca mandava.

Eu inventava promessas que nunca fazia.

Ela marcava encontros em lugares inexistentes.

Eu confundia os nomes de ruas conhecidas.

Eu ia embora todas as tardes. Ela nunca voltava.

E durante o caminho, nos meus passos, na calçada, havia sempre uma mesma rotina, um mesmo itinerário.

O motivo da escolha – Conheci a obra de Carola Saavedra através do livro O inventário das coisas ausentes, gosto do modo como a escritora narra, sem entregar todo o jogo, mexendo com algo na psiquê da leitora. O livro Com as armas sonolentas – 2018 – indicado ao Prêmio Oceanos 2019 – me arrebatou. Ele fica ecoando na leitora. Indico!

Sobre a autora –

Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, e mudou-se para o Brasil com três anos de idade. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em Comunicação. Vive no Rio de Janeiro. É autora dos romances Toda terça (Companhia das Letras, 2007),  Flores azuis (Companhia das Letras, 2008; eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), e Paisagem com dromedário(Companhia das Letras, 2010, Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti). Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta. Acaba de lançar  O inventário das coisas ausentes (romance, Companhia das Letras, 2014). Com armas sonolentas (Companhia das Letras, 2018 – semifinalista ao Prêmio Oceanos).

Boa leitura.

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4 comentários em “Distâncias – Carola Saavedra – para inspirar

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  1. Que ótima escolha, Paula. Só a conhecia de, acho, de um post seu sobre ela. O texto é ao mesmo tempo suave e denso, no sentido de permitir uma leitura carregada de interpretações e profundidade, como um poema. Muito inspirador. Obrigada por compartilhar! Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida amiga, recomendo “Com as armas sonolentas”. O livro vale muito a leitura. Este conto que postei é antigo e foi o que achei na internet.
      Beijos
      Paula Giannini

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  2. Demorei para ler e me demorei lendo. Que conto delicioso! Os dois no jogo de ser não sendo, ou não ser, querendo. Bem bacana, criativo, bem escrito. Lembrou um filme que adoro chamado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, em que a protagonistas criava situações para observar o seu amor, sem que ele conseguisse chegar perto dela. Achei criativo e delicioso. Um grande abraço para vc e meus parabéns pela extraordinária história que trouxe para o nosso deleite. Um beijão.

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  3. Com um tecido narrativo forte, o conto constrói um estudo de intimidades e desejos, trabalhados de forma delicada e sensível e as consequências trazidas pela distância; é um movimento de deslocamento da zona de conforto.

    Interessante como se trabalha a primeira pessoa, com um narrador masculino, recurso que pretende deixar evidente o que há de ficção no ficcional. A linguagem é poética, envolvente e ao mesmo tempo cotidiana.

    Obrigada, Paula pela leitura prazerosa e inspiradora. Parabéns, Carol Saavedra, pelo trabalho de qualidade. Beijos.

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