Hamster – Paula Giannini

Tic.

Às quatro-e-trinta começa o giro.

Roda-gigante, roda-da-vida, um olho no sonho, o outro na tela, enquanto brilho do relógio arrebenta lhe a retina.

Bom-dia.

Mau-dia.

Não há outro jeito. Não para você. Que se a noite é curta, seu tempo é ainda menor.

No quarto ao lado as crianças dormem, graças a Deus que é pai, mas que devia ser mãe.

Mãe.

Porque pai é duro. Pai é fúria, é temor.

Para que será que serve, Deus meu, deixar que seus filhos passem por tanta prova, por tanta dor? Para que será?

As mães são diferentes, porque para elas, na guerra, a luta é sua, o fardo é seu. E, se os seus pequenos dormem tranquilos, é a ela que se dão graças. A ela, que cospe na pia, o gosto do café engolido às pressas junto ao sono e à pasta de dente.

Fazer o quê?

Não tem o quê.

A roda não para, não pode, não vai.

E você precisa correr.

Tac.

Terceiro ônibus, são seis-e-trinta, e já se julga. Que mãe se culpa e se condena, tudo junto em uma só. Não houve minuto para beijar os pequenos sonhando. Não houve tempo para lamber um a um.

Não há remédio, um beijo apenas, unzinho só, e você, sardinha-humana, hamster-sardinha perderia a todos.

Ônibus.

Tempo.

Metrô.

Tic.

Às sete-e-trinta, já de uniforme, bater cartão. Porque na casa de Dona-Patroa, se a carteira é assinada, o livro-ponto também. Mas vale à pena, que para quem sonha, trabalho é mais que graça. Não de Deus, mas, toda sua.

Já nove-e-trinta, varrer a casa e lavar o banheiro de olho no relógio, que, grudadas à geladeira, instruções para o almoço já gritam suas urgências e prioridades.

Descascar batatas, picar os temperos, mexendo sempre a panela, fervendo água para o arroz.

Tac.

São dez-e-trinta, não vai dar tempo. Um pé na terra, o outro no sonho. Você tem fé, experiente, já corre há anos nessa roda-insana.

Exatamente onze.

Não as horas, mas os anos.

Começou cedo. Ainda assim, são doze-e-trinta.

Arruma as crianças para o colégio. As da Patroa, porque as suas, a essa hora, comem feijão no refeitório. As daqui também. Você suspira.

O Feijão iguala as classes, a sobremesa não.

Aqui, sorvete. Lá, sagu.

Tic.

A roda corre, já treze-e-trinta. Cozinha limpa, roupas passadas, há um tempinho para respirar… Encostar na vassoura, o olho espichado na televisão. A patroa assiste a novela requentada, e, se o galã beija a mocinha, serão as duas a suspirar.

O sonho iguala as classes, a novela não.

Se sonha com marido? Se benze, que não. Deus a livre de homem gritando, controlando, averiguado, mandando na vida, chamando de nomes.

As algemas invisíveis também igualam as classes. As visíveis não.

Deus a livre.

Mas à patroa não. Diz que sente falta de algo, que tem medo, que de estar só, que desvalida. Diz que, se pensão pode atrasar, o dia das visitas também. As do pai, claro, porque as dela chegam logo, para o chá da tarde.

E acaba a folga, e acaba a novela antes mesmo chegar ao fim.

Tac.

A janta pronta, dezessete-e-trinta. Hoje sai tarde. É a vizinha quem busca seus filhos. É ela quem vê o dentinho mole da pequena cair. Ela filma. Você perde. Quase. Vai assistir pelo celular. O próximo ônibus, só sai às vinte.

Tic.

Chega tarde, já todos dormem. Faz gelatina, dobra roupas, costura meias. Toalha na cabeça, coração na mão, beija os seus filhos que, estão todos crescendo…

Tac.

Meia-noite-e-trinta, o sono pesado. Não vai dar tempo. Para o sonho, não.

Tic.

E às quatro-e-meia, você levanta que é hora da vida.

Roda.

Que roda-de-mãe não pode nunca parar.

(Este conto, aqui retrabalhado, foi publicado na Antologia Mulheres Oscenas II)

7 comentários em “Hamster – Paula Giannini

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  1. Oi, amadinha. Tudo bem? Li o seu conto e ele me fez lembrar de outro que comecei a escrever mas não terminei. Também era feito com frases pontuais que guiavam o leitor pela vida caótica de uma mulher, e seu envolvimento com um homem muito diferente. A rotina desimportante de uma pessoa invisível. Desimportante mas essencial, é a vida dela. Desimportante porque é uma repetição do fazer sem conseguir, do sobreviver sem viver, do amar sem tempo para dar amor. Tantas assim, não é? Sabe,eu ouço pessoas invisíveis. Paro e ouço. Elas se sentem tão importantes quanto eu também, na minha própria invisibilidade. Beijos.

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  2. A sensibilidade aflora nesse texto primoroso com uma linguagem cheia de efeitos, criando um ritmo pontuado por frases curtas. As longas marcam o compasso de uma mulher que serve, mas não é servida pela vida, enfatizando a distinção de classes, de de valores e de carências. Soberbo!

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  3. Uma prosa poética que se orienta pelo ritmo interior no agrupamento das imagens captadas pela sensibilidade e projetadas pelo mundo da sugestão. Basta ler para comprovar. O texto mostra a renovação constante e o sabor humano que a técnica da contista impregna. Parabéns, Paula, pela forma com que transportou para esta página a realidade do cotidiano e o descrédito de nossa época. É sempre um prazer ler você. Beijos.

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    1. Querida Fátima,
      Obrigada pelo carinho da leitura, sempre tão atenta. Suas palavras soam como abraços.
      Isso do cotidiano é algo que me chama muito para a escrita… 😉
      Beijos
      Paula Giannini

      Curtido por 1 pessoa

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