A COPA DE 1970 (de Lenise M. Resende) – Para Inspirar

Armando era um bom homem, muito amado pela família e amigos. Depois de sofrer três enfartes, precisava se cuidar e evitar emoções muito fortes.

Só que durante a Copa do Mundo não era fácil evitar emoções. Nos dias de jogos do Brasil, a família se preocupava, e a esposa acompanhava as partidas atenta as reações dele.

De vitória em vitória, o Brasil chegou à final. Como brasileira, a esposa de Armando comemorava e, como companheira, sentia alívio por saber que bastava um jogo para que suas preocupações diminuíssem. O coração de Armando, no entanto, não resistiu e, na véspera da partida, ele faleceu enquanto dormia.

O cemitério onde Armando seria enterrado ficava em um lugar alto, cercado de casas, por estar situado em um bairro residencial. No velório havia muitas pessoas, e a viúva estava sempre cercada de amigos e familiares.

Os filhos e os netos, inconsoláveis, chegavam a preocupar os amigos. Mas, conforme ia se aproximando a hora do jogo, a capela ia se esvaziando.

Ninguém ia embora do cemitério. Rodinhas discretas eram formadas em volta dos coveiros, que escutavam o jogo em seus radinhos de pilha. A cada gol do Brasil, a cidade enlouquecia. Lá no alto, no cemitério, os amigos de Armando assistiam as comemorações nas ruas próximas. O barulho dos fogos era ensurdecedor.

Discretamente, os netos do falecido se retiraram da capela. Logo depois, com a desculpa de procurá-los, os filhos também se retiraram. A partir do segundo tempo do jogo, somente a viúva permaneceu ao lado do corpo.

Não era fácil esconder a alegria, mas, a cada gol, a vontade de gritar era reprimida por todos. O filho mais velho de Armando, torcedor fanático como o pai, andava de um lado para o outro, mordendo os lábios, evitando emitir qualquer som. Terminada a partida, no entanto, não se conteve mais, e por todo o cemitério ecoou seu grito de “Brasilllllllllllllllllllllllllllllllllllllll!!!!”

Esse grito foi a senha para que os parentes, os amigos do falecido e os funcionários do cemitério se abraçassem com entusiasmo.

Nesse momento, sobrepondo-se ao barulho dos fogos e das buzinas de automóveis, ouviu-se a voz da viúva, avisando que o padre havia chegado para as orações antes do sepultamento.

Certeza de que o padre rezou um pouco rápido, ninguém tinha. Mas, que os coveiros estavam apressados, foi bem visível. Armando foi enterrado no dia 21 de junho de 1970, quando Brasil e Itália, dois bicampeões mundiais, entraram no estádio Azteca, no México, para decidir quem ganharia a posse definitiva da taça Jules Rimet.

A Copa de 1970, vencida pelo Brasil, que bateu a Itália por 4 a 1, foi a primeira a ser transmitida pela televisão via satélite. E, uma das lembranças que as crianças da família guardaram desse dia, foi a de ter visto as comemorações de longe.

Ao chegar do enterro, elas não tiveram permissão para ligar a televisão ou ir até a rua comemorar, por estarem de luto.

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O motivo da escolha 

Lenise escreve poucos contos e para mim isso é um pecado! =)

Sobre a Autora

 

Nasceu no Rio de Janeiro, RJ, cidade onde reside. Formada em Magistério, além da Literatura dedica-se às Artes Plásticas. Autora de quatro livros de poesia, dois deles são infanto-juvenis e ilustrados por ela, que também ilustrou seus dois livros de contos infantis. Pela Caligo ela lançou o romance De bem com o Mal do Humor, Medrosamente:Ensaio sobre o medo e Mortalmente: ensaio sobre a Morte. Visite a loja virtual da editora e conheça mais um pouco sobre suas obras. 

 

4 comentários em “A COPA DE 1970 (de Lenise M. Resende) – Para Inspirar

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  1. Uma narrativa escrita com leveza e sem julgamentos, quase uma crônica ao mostrar a realidade de forma mais objetiva, fiel e a refletir sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia. Uma história dividida entre o triste e o prazeroso: familiares e amigos, perdidos em emoções, entre a Copa de Futebol e o velório de um ente querido, também torcedor.

    Todo texto é um pronunciamento sobre o real, quando se trabalha com as ideias do seu tempo e da sociedade em que se insere. A autora mostrou a paixão nacional pelo futebol, sem usar de clichês, de maneira crítica e com apoio no concreto das relações sociais.
    Parabéns, Lenise, pelo estilo claro, simples, conciso; pela eficiência ao mesclar sua voz de narradora às dos personagens para mostrar uma visão de mundo diferenciada. À medida que lemos vamos encontrando uma forma peculiar de retratar a sociedade diante dos nossos sentidos. Muito bom trabalho.

    Parabéns, Bianca, pela escolha. É, de verdade, uma pena que a escritora não se dedique mais a contos. Um grande e carinhoso abraço.

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  2. Ótima escola, Bia! Parabéns, Lenise, pelo conto, excelente. Já conhecia seus poemas, mas conto foi o primeiro que li, espero que poste mais.
    Armando, o torcedor fanático que morre em plena final de copa, impedindo que seus familiares e amigos possam aproveitar o dia que ele certamente mais amava rs.
    É trágico, tem um lado cômico bem sutil, gostei demais da crônica/conto.

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  3. Um conto com ares de crônica. Como carioca, super me identifiquei com o velório da família torcedora. Parabéns e obrigada por nos apresentar a ótima autora.

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  4. Há na escrita de Lenise algo que aproxima o leitor de uma realidade, que embora não seja a sua, se torna muito familiar. Mesmo quando o tema, futebol no caso, não desperte o interesse imediato, o contexto tão humano arrebata a atenção. A linguagem simples, correta, sem voltinhas barrocas, faz com que a leitura flua com muita facilidade. Um conto, quase cronica, que emociona e diverte.
    Parabéns pela escolha, Bia.

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