Somos Esquisitos Juntos (Fheluany Nogueira)

Somos Esquisitos Juntos

 

 

Hoje é o último dia de aula. Isso significa que estou oficialmente de férias. É difícil acreditar que as festas estão chegando. Tudo acontece tão absurdamente depressa que não há jeito possível de se preparar para a velocidade.

Estamos prontos? Não estamos prontos…

Todo mundo está querendo afirmar que é Natal e apontam como argumento, sem réplica, as arvorezinhas absurdas cobertas de luzes, tombadas ridiculamente, mostrando os fios elétricos que lhes dão vida e os poucos enfeites das lojas. E, outro argumento, mais evidente, são dos grandes sacos vermelhos sobre costas encurvadas e o olhar de falsa alegria dos homens fantasiados de Papai Noel.

O Natal é meu feriado favorito. Por quê? Os presentes, sem dúvida…

A única coisa ruim é que vivem dizendo que já estou crescida e os meus pais, realmente, começam a relaxar com suas obrigações de me presentear. Nos últimos anos, tenho ganhado as mesmas besteiras: pijamas, meias, bombons e uma escova de dentes elétrica. Fico indignada. Tenho tantas coisas bobas e baratas que poderia abrir uma loja de $1,99 ou qualquer coisa do tipo.  Preciso é de um Iphone, última geração. Meu!

De qualquer forma, sugeri que a família avaliasse com cuidado a nossa proposta de orçamento, absurdamente baixo, para as festas e voltássemos a conversar.

Estamos prontos? Não estamos prontos…

 

Mamãe e eu passamos a maior parte da manhã decorando nossa árvore de Natal artificial. Folhas verdes, flores douradas, bolas vermelhas, uma calma quente. Rostos redondos de anjinhos perfumados, vestidos longos, uma estrela decorativa. Manhã comprida…

Mas as caixas de magros presentes tão coloridas, ainda não estão debaixo dela. Nem vão ficar.  Cada ano é em uma das casas da grande família que prepara a festança. É para criar afeições, explicam. E é para outra casa, outra árvore que os presentes vão.

Enquanto a gente mexe com a árvore, papai e minha irmã estão do lado de fora cuidando do que chamam projeto supersecreto. Na verdade, ele está distraindo aquela arteira, para que ela não destrua tudo, como aconteceu no ano passado:

Era nossa vez de oferecer a ceia. Os parentes chegaram, os mesmos rostos de outras épocas. Colocavam os embrulhos que carregavam junto à árvore, que vasculhavam interrogativos. Quem seria o seu amigo oculto?

Quase todos sentados à mesa. Petiscos regados a suco, vinho e cerveja, embalados pelo Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez…, a predileta do papai. Depois ouvimos Jingle Bell e, é lógico, Noite Feliz. A playlist de músicas natalinas foi longa, nem dá para citar todas!

Meu primo Rafael provou um pouquinho da comida e, contrariando os tios, saiu:

— Mas é natal — o rapazinho prometeu chegar em casa às onze horas da manhã. — Vou beber a noite inteira. — só ele via pela frente a noite imensa, inacabável, cheia de surpresas e embriaguez. Noite densa para ser tateada com dedos tontos, crispando. Minha grande surpresa seria que ele espalhasse a alegria das festas; ser fonte de grande orgulho para a família e fizesse aumentar drasticamente a renda da casa.

 

Ai! meu Deus! Fiquei tão envergonhada. Tentei explicar para minha irmãzinha que o fato de ela ter apenas cinco anos e meio, não lhe dava o direito de subir à mesa e começar a cantar e dançar como se fosse a Anitta ou alguém assim.

Mas ela não me ouviu. Saltitou pelo tampo da mesa, pulando obstáculos, digo, pratos, cantarolando uma letra improvisada, em batida de funk, enquanto comia salgadinhos rufles com pedacinhos escapando entre os dentes que faltavam. Ainda bem que não se machucou quando a mesa virou e ela caiu em cima do Papai Noel musical dançarino, que o vovô exibia como se fosse uma das sete maravilhas do mundo moderno (palavras dele). Ela acertou o brinquedo com tanta força que arrancou o violino das mãos dele. Ufa! O bolo de nozes que a tia Letícia fez com tanto carinho ficou a salvo, por pouco.

 

 

Neste ano, a ceia vai acontecer na casa da tia Letícia, aquela do bolo de nozes do ano passado. Já imagino como vai ser:

Entro no carro, com papai, mamãe e a maninha. A noite já caiu; estamos felizes. Antes, eu ficava sempre feliz. Agora, a proposta é meio a meio. Eu mostro a selfie com uma amiga, que quero publicar no Instagram. Pergunto se está tudo bem. Dizem que sim. Não sei se está tudo bem; esforço-me para seguir as regras.

Ficamos presos no semáforo por causa da indecisão do carro à frente. Papai rosna para o outro carro. Mamãe fica brava com ele, mas rosna também. (Lembro-me de quando Lila era bebê e fazia esses rosnados engraçados. Certa vez a levamos a um cinema. Fazia um frio atípico para a estação, e ela estava enrolada. De vez em quando, saía um “Rahhhrrrrr” bem alto do cobertor de bebê, e as pessoas das fileiras à frente olhavam para trás, tentando ver quem ou o quê fazia aquele som.)

A luz fica verde. Conversamos sobre bobagens. Por um momento, é agradável não perguntar sobre escola, dever de casa nem amigos. O ar está fresco e perfeito, e as janelas estão um pouquinho abertas; Simone canta Bate o Sino, no rádio.

— Gosto dessa música — diz mamãe e conta que, anos atrás, com seus amigos, fazia listas de cem músicas favoritas, e essa sempre estava na lista.

— Continua na lista ainda hoje? — perguntei. Eu estou curiosa. Antes, ficava curiosa o tempo todo. “Conte uma história de quando você era menina”, pedia. Quase não peço mais isso agora. Para mim, curiosidade é uma admissão demasiado ansiosa de que há coisas que não sei.

Para mim, o relógio anda para a frente, e quero olhar para a frente – há tanta coisa para ver. Estou indo para o ensino médio. Em dois anos, poderei dirigir. Em três anos, começarei uma faculdade. À frente. Sempre à frente. Depois do Natal, Ano Novo, vida nova…

E mamãe olha para trás. Sempre para trás. Está comigo ou Lila no colo, tentando fazer dormir. Anda conosco pela loja de presentes, enquanto nós vamos e voltamos entre uma coruja de pelúcia ou uma bolsa da Grifinória. Ajuda-me com o dever de matemática quando os problemas eram tão fáceis que ela calculava as respostas de cabeça. Assiste O Rei Leão conosco pela primeira vez…

 

O reencontro com a grande família é muito bom. Às vezes. Beijinhos e beijões. Os olhares para os presentes debaixo da árvore. A expectativa.

 

— Ei, pai — peço — posso usar seu celular? Esqueci o meu. Tá tão ruim… Preciso mandar uma mensagem para a Carol. Sabe? Da escola.

— Claro — responde. Eu clico, digito e envio. Ela responde. Achou incrível que meu pai deixasse usar o celular dele. Eu também. Ergo os olhos para ele e sorrio. Até sei o que ele pensa: Os dentes são perfeitos; o aparelho se foi.

— Você não adora essa música, pai? — entreguei o fone, encantada com a lista atualizada que prepararam para este ano.

— É especial. Sabe de quem é?

— Amor de Natal, de Gabi Luthai.

— Shiii! Hora de rezar! — a vovó solicitou.

— É. O Natal não pode perder seu significado… dar lugar ao consumismo — uma tia comentou.

— Mas eu prefiro lembrar que neste Natal, por conta dos empregos temporários, muitas pessoas puderam resgatar um pouco da dignidade — outra tia interferiu.

Pai Nosso que estais nos Céus, santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso Reino… — todos, a uma só voz.

Tenho catorze anos, já ouvi na escola: uma idade turbulenta. Mas agora, no frescor da noite, eu sorrio e seguro as mãos dos familiares, e cantamos juntos uma versão moderna de Anoiteceu (Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel). Somos uma família. Somos esquisitos. Somos esquisitos juntos.

Ah! Esqueci de falar que Lila se comportou muito bem. Quase… estava tão chateada com o que tinha acontecido no Natal anterior, que a carta que ele escreveu ao Papai Noel foi muito dura.

Ah! O melhor é que ganhei um celular novinho… com muita memória! Vivaaaa!!!! Êeeeee!!

 

13 comentários em “Somos Esquisitos Juntos (Fheluany Nogueira)

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  1. Esquisitos… e quem não é? Mas o importante é isto, estar junto, viver o clima verdadeiro de união e fraternidade. Lembranças boas terá esta menina quando crescer, do mesmo modo que me lembro do Natal junto aos meus avós… Um belo conto, simples e profundo, olharei para a data de um modo mais especial, pensando quais as lembranças estou cultivando com meus filhos… Abraços. ❤

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  2. A visão e as lembranças de uma pré-adolescente sobre o Natal: os pais, a grande família, o primo desgarrado, a tia boa cozinheira, a irmãzinha arteira (Parece-me que havia um certo ciuminho aí, hein?), enfim todos os elementos corriqueiros em uma família.

    Narrativa ágil, atual, com um Natal século XXI. A linguagem da personagem-narradora está bem coerente em um texto bem escrito e fluido, com estilo narrativo personalizado, apropriado, palpável… Gostei muito.

    Parabéns pelo texto alegre, plástico. Feliz Natal para você e sua família, tão musical quanto este que nos apresentou. Um grande abraço.

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  3. Olá, Contista querida!
    Que conto gostoso de ler! Tão verossímil na voz dessa adolescente que custa crer que foi escrito por uma adulta…rsrsrsr isso prova que sua alma é jovem e que você sabe reviver a adolescência, mesmo que no “papel”. Toda família tem asa suas esquisitices e como é bom vivê-las… ainda lembro dos natais na casa da minha avó… que saudade!!Espero que a minha filha também tenha boas lembranças dos natais na casa da avó… Ótimo conto! Parabéns! Um feliz Natal pra você!! Bjooo

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  4. Um conto narrado por uma pré-adolescente que se recorda com bom humor e carinho de outros natais, sem perder a realidade dos fatos. A linguagem simples, própria de uma menina torna a leitura fluida e nem percebi quando terminei o trajeto. Uma trama leve, sem grandes surpresas, mas algumas boas pitadas de humor e delicadeza.
    O título escolhido é ótimo também. Quem não tem suas esquisitices familiares? Que bom que a menina ganhou um celular ao invés de meias.
    Parabéns!

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  5. As impressões de uma adolescente sobre alguns Natais vividos em família. Gostei em especial do momento que acentua a distinção do efeito do Natal, esse momento em que todos ficamos mais sentimentais, entre mãe e filha. Á nostalgia da mãe corresponde a pressa por parte da filha adolescente de que o futuro chegue logo.Gostei da forma como isso foi retratado no conto. A narrativa flui em meio a breves diálogos e um monólogo interior bastante convincente e verossímil graças a linguagem ágil e moderna. O olhar que essa jovem dirige à família, também me soou verossímil e muito contemporâneo. Não há tédio, nem contestação, há uma espécie de tolerância, a mesma que observo em alguns jovens com quem convivo, fruto, atribuo, de um maior preparo para a aceitação da diversidade, que não havia em gerações anteriores.
    Gostei muito, amiga Contista!
    Beijos carinhosos e Feliz Natal!

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  6. Olá, mocinha.

    Estou aqui pensando que este conto tem muito de lembranças vividas pela autora. Estou certa? Festas de natal são assim mesmo. Acontece de tudo. O seu conto me fez lembrar como o natal pode ser divertido, engraçado, e, às vezes, até trágico.

    Já aconteceu de tudo nas festas da minha família, inclusive chegar com um monte de travessa de comida na casa errada. Quase não nos deixaram sair. Gostei do seu conto. Ele nos remete às nossas próprias vidas porque é muito parecido com a realidade.

    Vc deve ser uma grande observadora da alma humana. Parabéns. Um grande abraço e um excelente natal para você. Beijos.

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  7. Oi, amiga Contista!
    Adorei seu conto! Alegre, ágil, tão próximo de nossas vidas….me peguei lembrando dos natais passados, da minha adolescência, da baita expectativa que eu vivia, sabendo que encontraria “toda” a família reunida, os primos, aiiii que saudade boa.
    Saudade de quando “todos” eram aqueles, que estavam lá, hoje muitos já não estão…
    Éramos esquisitos juntos, mas estar junto é tão bom! ❤
    Bjokas e um Feliz Natal e um excelente 2020 pra você!!

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  8. Olá, querida Contista.

    Tudo bem?

    Esquisitos somos todos. Todas as famílias, vistas de fora o são, e, mais que isso, muitas vezes estranhamos as nossas próprias, achando que os outros não sentem o mesmo. Bem, aos poucos me convenço que sim, todos nos sentimos, de certa forma, desconfortáveis no seio do lar e seus hábitos, e festas, em algum momento da vida. E é aí que reside o ponto alto de seu conto. Ele fala de algo universal. Talvez não para todos, talvez, apenas para artistas, escritores, sei lá…

    Lembro de me sentir assim vezes sem conta. Não me encaixo em churrascos de família… rsrsrs Engraçado é que com a idade, essas coisas mudam e a gente começa a prezar aquilo que era desconfortável. Então, outro gol de seu texto é o fato de a personagem protagonista ser uma adolescente.

    Já li todos os contos postados até aqui, e, estranhamente, parece que cada um fala de um pedacinho de mim, talvez de todas. Isso é lindo, parece que estamos todas sintonizadas.

    Parabéns pelo trabalho gostoso de se ler.

    Desejo um Natal de muito amor e um Ano Novo de luz para você e os seus.

    Beijos
    Paula Giannini

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  9. Olá, contista!!
    Que adolescente bonitinha!! em um certo ranço próprio da idade, mas ela é mais alto astral do que resmungona.. que bom!!
    Uma historia muito bonitinha tb.. parabéns!!

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  10. Querida Contista, me fez chorar na primeira leitura… Lembrei que meus natais costumavam ser assim, quando minha bisa ainda era viva iam todos (ou quase) para a casa dela, mas em 1988 tudo mudou, eu e minhas irmãs fomos pra outra cidade e no primeiro Natal longe da bisa, ela faleceu. Eu nunca consigo lembrar da data certinha, mas foi logo depois do Natal… Essa adolescente narrando ficou perfeita, visualizei como se fosse um filme e aquela atriz Maísa pudesse encenar a personagem… Você devia investir nesse tipo de texto, infantojuvenil. O Prêmio Barco a Vapor está aí! 😉 Te desejo um Natal e um Ano Novo cheio de paz, amor e saúde. ❤

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  11. Olá querida Contista,

    Nós somos como a personagem desse conto. O Natal é sempre uma data que nos deixa lembranças, que nos vemos como indivíduos, contabilizando desejos e sonhos, mas também como membros de um grupo… se não pertencemos, é nessa nata que cogitamos de.

    Natal é lembrança, natal é estar junto, natal é reunião com gente diferente que fica esquisita e igual junta.

    Que o teu natal seja junto com as pessoas que tu ama e seja muito feliz. Um 2020 maravilhoso e de muita inspiração.

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  12. Olá,

    Uma história cotidiana sobre o natal, narrada por uma personagem comum o que nos faz se assemelhar a ela e a sua vida. Me identifiquei em vários pontos..me parece um conto relatando um natal que todo mundo conhece.

    A leitura é gostosa e passa rápido, boas descrições e uma escrita segura. No fim tudo ficou certo e ela faz o que nos fazemos, relembramos.o natal anterior. Natal é lembrança.

    Parabéns, feliz natal?

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  13. Boa noite,Contista!

    Legal o seu conto, porque os diálogos agilizam e fazem a gente se colocar lá, no meio dessas vozes e cenas.
    Eu gostei da sua narrativa, o conto ficou com um frescor especial, pois misturou a fala com a família em si e a data festiva.
    Minha família também é super esquisita junta, mas… Estamos aí.
    Parabéns e boa sorte.
    Feliz Natal!

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