A imponderabilidade de tudo – Ana Maria Monteiro

Sobre o corpo da menina deitada, jazem agora todos os sonhos que nem chegou a sonhar e os futuros que não irão acontecer, cada dia, cada momento, cada natal.

São tantos! Quem dira? Quem diria, ao chorá-la no agora, a que distância lhe estaria no futuro – ou talvez não.

Morreu na véspera de natal, de forma estúpida, como a morte de qualquer criança, inesperada, inevitável e ainda estragou a festa a toda a gente, e muitos pensaram nisso por momentos, quase envergonhados com essa racionalidade que permitiram que se insinuasse em meio à tragédia e à dor que sentiam, tão reais. Mas é a vida em cada um a impor-se, a chamar ao “aqui e agora”.

A menina morreu e os seus natais não aconteceram. Não aconteceram os rituais que, assim, a avó também não chegou a conhecer; não aconteceram os presentes abertos com olhos enormes, animados pela curiosidade, mais do que pelo que estaria embrulhado ali dentro e que logo depois ignoraria, ou talvez não, mas o importante viria mesmo a ser a descoberta do que teria sido escolhido para si; não aconteceram as carícias, os toques de pele, as químicas indecifráveis do amor; não aconteceriam as gargalhadas em família ou entre amigos ou em sabe-se lá que situações; não aconteceria nenhum dos natais dos filhos que não viria a ter; não aconteceriam as opções, as boas escolhas, os “tropeços” inevitáveis; não lhe aconteceria mais nenhum natal.

Sobre o corpo da menina deitada, repousa uma versão desconhecida de cada um de nós.

14 comentários em “A imponderabilidade de tudo – Ana Maria Monteiro

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  1. Trata-se de um texto carregado de metáforas, linguagem concisa e poética. Imponderabilidade é o estado em que não se pode discernir se há ação de um campo gravitacional ou há uma queda livre, a sensação de ausência de compressão de apoio, resultante da ausência de força normal. No conto ocorre exatamente assim: a morte da criança deixa sonhos, vida em suspensão.😢

    Com uma sensibilidade intuitiva, a autora enroupa vistosamente suas palavras, por vezes definidora, mas sempre cheia de sutilezas e de lirismo, segura no hábil manuseio delas, sem tirar do trama, entretanto, a sua espontaneidade.

    Parabéns pelo labor artesanal, pela leitura agradável. Que este Natal traga , para você e para as pessoas a quem ama, a sua versão conhecida de fé, amor e solidariedade. Um grande abraço.

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  2. Dizem, que para sermos felizes, é importante não deixarmos morrer a criança que há dentro de nós. A minha, se já não morreu, encontra-se hospitalizada e em coma. Um conto triste e pesado, mas que faz-nos repensar os motivos da vida, os motivos pelos quais comemoramos o natal e qual objetivo disso tudo. Abraços ❤

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  3. Olá, Contista!
    Uma reflexão bem profunda sobre o imponderável – realmente….quantas meninas mortas temos em nós?
    Eu tenho ressuscitado a minha, num trabalho longo e até penoso.
    Fica também a questão da morte real, essa então um vazio que nada, mais nada poderá preencher.
    Grande beijo, amiga, Feliz Natal e um ótimo 2020!

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  4. Querida e competente autora, que conto maravilhoso!

    O impacto inicial da morte de uma menina já nos abre o peito e nos deixa vulneráveis para as suas palavras, e elas nos conduzem para toda uma vida que não seguiu adiante. O texto nos conduz com suavidade, mostrando tudo aquilo que um dia vivemos, mas que a sua protagonista jamais faria. No fim vc faz um link onde junta o drama daquela vida, com a vida de cada uma de nós, suas embevecidas leitoras. Que lindo! Um dia quero escrever assim.

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  5. Um conto curto e impactante. Já de início revela que a menina está morta, pois há um corpo que não celebrará o Natal. Ao invés do nascimento de Jesus, há o findar de uma vida ainda mal começada. Um futuro que se despede antes mesmo de chegar.
    Uma linguagem precisa, delicada, mas firme para se falar de um tema tão doloroso. Crianças não deveriam morrer, jovens não deveriam ter que se desfazer de planos que nem traçaram ainda. Uma dura realidade que não combina com as festas de fim de ano. Mas quem escolhe o dia de partir?
    Parabéns pelo texto que espeta mais do que pinha. Um Feliz Natal e um alegre 2020. Beijos.

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  6. Querida Contista,

    Tudo bem?

    Seu conto é extremamente profundo e bem escrito. Eu poderia ficar por aqui falando dele e de todas as camadas que possui, durante horas.

    No entanto, vou me debruçar sobre a primeira, a morte física. Não é segredo que passei por um luto de criança recentemente. Algo duro demais. Algo imponderavelmente brutal, ferida sem cura que terei que carregar para sempre e que arrancou de mim, além de tudo, o véu de um tipo de inocência de que estaria “a salvo” do mal. Doce ilusão… Desde que meu neto amado se foi, tenho pensamentos recorrentes sobre aquilo que ele está perdendo no momento, uma festinha no colégio com os irmãos, um aniversário, o dentinho que não chegou a nascer, as palavras que não chegou a pronunciar… Um Natal. Mais um. Ele que só teve um, único.

    Então, chorei muito, muito mesmo. Quase não consegui juntar os cacos para comentar aqui. Mas, a arte serve para nos tocar. E você me tocou verdadeiramente. Tanto que, em certo momento, parecia que seu texto era meu… Ou, que eu dizia aquelas palavras ali escritas.

    Li todos os contos postados até aqui, e, estranhamente, parece que cada um fala de um pedacinho de mim, talvez de todas. Isso é lindo, parece que estamos todas sintonizadas.

    Parabéns pelo trabalho tão profundo.

    Desejo um Natal de muito amor e um Ano Novo de luz para você e os seus.

    Beijos
    Paula Giannini

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  7. Olá, querida amiga Contista!
    Seu conto é muito difícil de ler, imaginar uma dor dessas… Imaginar que não estamos a salvo de uma tragédia dessas, que podemos morrer em vida e mesmo respirando, perdemos tudo que acontece ao nosso redor… Seu conto faz pensar em coisas duras e necessárias! Parabéns e boa sorte! Feliz natal!! Bjooo

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  8. Um texto curto que a mim falou sobretudo daquilo que resta de tudo que não se realiza. Uma vida, um desejo, um talento. Uma espécie de suspensão, só que trágica, emerge aqui do seu conto. Não sei se existe uma palavra para esse sentimento. Em dois momentos seu texto me impactou em especial. Ao questionar a que distância da possibilidade suspensa estaríamos no futuro e ao afirmar que sobre a suspensão repousam versões desconhecidas do que somos. Grata pela reflexão profunda. Grata também pela sua participação nesse nosso desafio-confraternização. Desejo um Feliz Natal e um Ano Novo venturoso, querida amiga Contista. Beijo carinhoso.

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  9. Um conto reflexão, quase uma catarse dos pensamentos comuns a todos quando uma vida se evai tão cedo.
    Eu penso tão diferente… eu não penso em futuros muito menos faço planejamentos. Por exemplo, meu filho provavelmente jamais fará faculdade ou mesmo casará e terá filhos, mas eu nao encaro isso como um fracasso. Minha filha ja tem 30 anos e nao se formou e nem casou, nao me deu e nem dará netos. Não acho isto frustrante (talvez a parte dos netos.. rsrs) Penso que cada pessoa tem um caminho tão individual que não consigo colocar a mim e a meus filhos, por exemplo, neste ciclo ‘normal’ da vida’, se eles seguissem, ótimo, se não seguem, ótimo tb.
    Eu acho que pensar no que o falecido deixou de viver é um sofrimento a mais, ja há a saudade para doer, pra que colocar a imaginação de um futuro hipotético nesta dor? pra sangrar mais… 😦
    Entenda, autora, não é a você e seu texto que estou me referindo, mas a ideia geral que comumente se faz da morte e da vida, eu sou um tanto rebelde mesmo..mas acho positivo deixar um outro ponto de vista.
    A última frase filosófica é boa demais!! dá pra refletir outros tantos minutos sobre… assim como falei que cada caminho é individual, cada escolha também vai planeando nossas vidas.. cada uma de nós poderia ser uma pessoa e ter uma vida totalmente diferente se tivessemos feito outras escolhas no passado… e aquela pessoa que não se desenvolveu por um lado,jaz realmente morta, porque quem vive é esta que somos hj, resultado do que trilhamos até aqui e não do que não trilhamos…
    Um abraço, contista, e parabéns pelo conto.

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  10. E quando as histórias nos tocam e falam do que existe de nós em outros… e quando aquilo que não veremos é tão importante. E quando os verões são sombrios e a esperança não nos coloca para dormir sossegados.

    E quando somos um grupo bonito que escreve de tudo e tão lindamente: queremos ficar.

    Obrigada por nos tocar com essa profundidade e estar aqui.

    Um natal maravilhoso e um 2020 cheio de amor!

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  11. Olá, contista!

    Quando a morte vem cedo, quando não se espera, quando vem de uma tragedia a gente só consegue pensar no que não foi. Não se sabe a idade da menina, mas suponho que seja uma criança. E nesse caso é inevitável se ater mais na vida que ela não terá do que a que teve. E esses pensamentos é pra um vida toda. Um texto muito triste que nos faz lembrar como é a vida, que enquanto uns estão sorrindo e feliz no natal outros estão chorando e isso é pra tudo e isso é normal, e tá tudo bem, mesmo que não esteja,

    Parabéns, Feliz natal.

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  12. Ana, tive uma filhinha, gêmea da Nádia, que nasceu em um 31 de outubro de 2008 e, em janeiro de 2009 infelizmente faleceu, havia nascido com problemas intestinais congênitos. Foi pouco tempo, foi só um Natal e um Ano Novo, mas os problemas eram tantos que, por mais que nos doa, a verdade é que nunca teria uma vida normal, se vivesse. Precisaria sempre de uma máquina ligada a ela para fazer o trabalho do intestino dela, imagine só. Mas é impossível a gente não pensar, não comparar com a Nádia, com coisas que a Nádia faz e a gente se pergunta: “Será que a Pietra ia ser assim também?” É inevitável… Mas cada um já vem com a quantidade de natais a serem passados por aqui, eu acredito nisso… Enfim, quanta coisa a se pensar em um conto tão curto, mas ao mesmo tempo tão denso… Obrigada, Ana, pelo texto, te desejo um Feliz Natal e que seu Ano Novo seja de muita paz, muita saúde, muita inspiração… Você é maravilhosa! ❤

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  13. Pela fé, sacanagem! Kkkkk

    Boa noite, Ana!
    Gostei demais do seu conto e das possibilidades de reflexões. A morte prematura deveria ser mesmo como uma falha na matrix, um erro.
    Gosto de pensar que assim como a morte da menina representa cada uma de nós, em um universo paralelo ela estará frutificando, exatamente como a versão dela neste seu texto não o fez.
    Bem… Divaguei.
    Parabéns, pois apesar de curto o seu conto consegue ser tocante e reflexivo.
    Feliz Natal!

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  14. Podemos interpretar de duas maneiras: a morte física e a morte simbólica. A física é triste. Morrer na véspera de Natal deve ser a coisa mais triste do mundo para quem vivencia esse fato. A morte simbólica, no entanto, acontece todos os dias, não? A morte da esperança, da infância, da inocência, da crença nas coisas boas… Seu conto é muito bom. Obrigada por partilhar conosco.
    Um forte abraço.

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