Cravos Vermelhos (Renata Rothstein)

Desço do táxi, estendo duas notas amarrotadas ao motorista, balançando a cabeça em agradecimento.
O taxista diz que as notas não valem mais, olha para mim com dó, me devolve o dinheiro, e segue seu caminho.
Respiro fundo o ar frio do fim de tarde, o que me custa uma dor violenta aos pulmões doentes. Continuo tossindo até perder o fôlego.  O enfisema vinha mesmo avançando a passos largos.
Suspiro. Olho em volta. Completamente só, outra vez. Sempre e nunca, mas ainda assim, só.
A praça. A praça hoje é tão somente uma testemunha inofensiva dos tempos suaves, de  tempos que viriam, num então outro tempo, naquele espaço, que agora parecia tão maior, lembranças encardidas.

Os únicos brilhos que restam na praça são as luzinhas de Natal, que para mim, não brilham mais.
“Então, Beatrice, assim são meus dias. Cada vez mais raros os momentos de lucidez, como esse. Aproveito para pensar e teimo em acreditar que ficarei lúcido. A praça, as pessoas que transformaram-se em vozes distantes, o amanhecer da vida… quando volto ao nada vejo tudo como manchas amareladas em retratos antigos. Passageiro da vida, que passou, ela mesma, ligeira – por entre meus dedos.”

Olho minhas mãos enrugadas, a aliança dançando, no dedo emagrecido.

E quantos anos tenho, mesmo? Oitenta e três. Não, oitenta e sete. Ah, já não importa. A vida, antes ávida, vivida, sorvida como aquele mesmo ar que vinha paulatinamente deixando meu corpo, como as memórias que eu, hoje  inquilino de mim mesmo, tento desesperadamente prender num canto imaculado, algum lugar preservado desse meu cérebro, já tão cansado.
Uns dias eram mais fáceis, lembrava meu nome, endereço, pensava em Beatrice, meu único e eterno amor, que me deixara há…não sei bem há quantos anos ela me deixara, mas lembrava perfeitamente do dia em que a conheci, na pracinha em que agora estava.
Vinha tão leve e sorridente, cabelos cacheados, o vestido rosa – ou seria azul? – não importa, eu jamais poderia esquecê-la..
Sorri, lembrando da minha timidez juvenil ao oferecer-lhe flores: “Boa tarde, sou Augusto, muito prazer, posso conversar com a senhorita?”

E ela, sempre doce, tímida, gentil. Os olhos mais profundos que já vi em toda minha vida, os olhos que me prenderam, e em que me perdi irremediavelmente, para sempre… O namoro, o noivado, o casamento. Música e alegria, valsas e risos.
E depois os filhos, quatro filhos, não!, eram cinco, ou quatro?, não faz diferença, a felicidade de nossa casa, o lar construído, os anos, ah!,  os anos e natais passando tão rápido! E já se encerrando nesse dia outro Natal, mais um, sem minha Beatrice.
E pensar que nos orgulhávamos da passagem dos anos! Um filho que entrava para a faculdade. A filha,  que casava, o outro filho formado, agora doutor.

E  aquele outro, problemático… mas amado, como todos. E o tempo, que passou e arrastou minha amada para longe, muito longe de mim.
Hoje eu resolvi visitá-la, preciso procurar outro táxi, antes que seja tarde e o esquecimento gélido envolva tudo novamente.
Vejo a banca de flores, o colorido contrasta com minha gris existência. Desolado penso que em mim, tudo morreu.
Mostro ao vendedor algumas moedas e pergunto se pagam pelas flores que escolhi. Cravos vermelhos. Digo que são as preferidas de Beatrice, que hoje descansa em paz num cemitério que fica muito distante, no outro lado da cidade.

É lá que estão os restos mortais do grande e único amor da minha vida. É para lá, sei – que em breve irei.

 O vendedor ouve minha história, conta as moedas, olha para mim – e com um sorriso triste diz que está certo, que eu vá, e dê as flores ao meu amor.
Agradeço e tento caminhar, mas um novo acesso de tosse começa, está frio hoje, estranho esse clima,  nessa época do ano – talvez não tenha sido uma ideia tão boa, sair de casa sem avisar ao meu filho.
Sento cansado e confuso no banco da praça, a luz agora está em toda parte, crianças correm, pessoas passam céleres rumo aos seus compromissos: eu apenas espero, enquanto tudo gira velozmente ao meu redor.
Coloco a mão no bolso, quero me certificar de que está lá, a carta de Natal que Beatrice me enviou. No dorso do envelope está o meu nome, endereço, o telefone de minha casa.

Minha filha é muito prevenida, sempre pensa em tudo.
Respiro com mais calma, tranquilizo meu coração, aceito as regras do destino.

Afinal, hoje eu só quero mesmo entregar essas lindas flores à…de repente é tudo tão turvo, distante, vozes que não fazem sentido, e falam… falam sem parar, fazem perguntas. Precisam mesmo falar assim, gritando comigo?!

Parem! Por favor, parem de gritar – peço, enquanto lágrimas descem pelo meu rosto.
Tudo tão confuso. O mundo, sem sentido. Vejo as gotas de chuva caindo sobre mim, mas não as sinto, já não sei o que são, já não sei quem sou.
Olhar perdido num sonho que não teve fim, permaneço – solitário, até que algum deles venha me buscar.

Eles sempre vêm. Olho para minhas mãos: nelas, flores vermelhas, despetalando-se ao vento.

Brilham, no sem fim, as luzes de Natal.

FIM

15 comentários em “Cravos Vermelhos (Renata Rothstein)

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  1. É comum que alguém se sinta triste no Natal por conta da ausência de uma pessoa querida, seja porque morreu seja porque está distante. Embora a pessoa possa estar ausente há bastante tempo, o Natal acaba evocando lembranças da presença de quem se foi, o que desperta certa melancolia. É uma comemoração que sugere o encontro com a família e o encontro familiar sugere muitas coisas.

    O protagonista está doente e sente saudades da esposa falecida, agarra seus momentos de lucidez para homenageá-la com cravos vermelhos que representam o amor verdadeiro, a paixão e devem ser oferecidos a quem se tem grande admiração, denotam profundo. São as melhores flores para dizer “eu amo você”, por isso, talvez , tenham sido escolhidos.

    Parabéns pela história pungente, emocionante; um conjunto a partir do qual, cada fragmento pode ser plenamente sentido e assimilado. Que neste Natal, para você e seus familiares, não exista nenhum “não importa” e muitas presenças queridas. Mil abraços.

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  2. Talvez agora a saudade acabe e ele reencontre sua amada… Um conto triste, nostálgico, bonito… Será que na vida real existe um amor assim? Tenho minhas dúvidas. Não consegui distinguir qual foi a frase desafio, mas o conto é muito profundo. Abraços. ❤

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  3. Olá, amiga Contista!
    riste e tão real seu conto….quantos idosos vão perdendo a saúde, se fragilizando, vivendo com saudade do passado….
    Lembro de uns versos que li quando adolescente…não sei bem como eram, mas me marcaram: diziam que o jovem olha para o futuro, o idoso, para o passado…
    Ainda bem que com o avanço da medicina cada vez mais os velinos estão animados rsss – penso em mim daqui a uns 25, 30 anos hiihi
    Sr. Augusto sofre de Alzheimer?
    Parece….e olha, amo cravos vermelhos!
    Feliz Natal, 2020 de sucesso!
    Bjokas!

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  4. Olá, autora.

    Como diria Moreira Campos, a morte é tão eterna quanto atual. Convivemos com ela desde o primeiro respirar, sabemos que ela é o nosso destino inexorável, mas como nos acostumar com esta ausência perpétua?

    Cada natal, cada aniversário sem a pessoa que se foi, traz de volta a dor e as lembranças, sendo que a partir do segundo ano, a lembrança não é apenas da pessoa, mas, também da falta dela em nossas vidas.

    Seu conto é bastante melancólico. Não há esperança, não há reencontro, apenas a conformidade de que o fim chegará, para o protagonista também.

    Engraçado como a natureza vai nos preparando para o fim. Tira-nos cabelos e dentes, agilidade, força, faz com que desejemos um alívio que a morte representa. Por fim nos tira as lembranças e nada mais nos prende. Então partimos mais leves para um lugar onde não há peso. Bonito, parabéns.

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  5. Oh, que dó.. ele tem consciencia de que a memoria vai lhe escapar a qualquer momento. …
    Um conto muito bom, criamos empatia com o personagem, eu pelo menos, estou sempre preocupada com os velhinhos rsrs
    Parabéns, contista!!
    bj

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  6. Sou muito sensível à problemática dos idosos. Desde bem jovem, velhinhos em suas trajetórias descendentes me comovem. Também gosto de escrever sobre eles, frequentemente inventando-lhes futuros, ou presentes, fantasiosos e felizes. Seu conto retrata a velhice com realismo, ternura e muita tristeza também. Há uma metáfora interessante entre as luzes de Natal e lucidez intermitente do homem que acredito tenha sido o seu ponto de partida para o conto. Gostei muito do conto, encontrei nele a inspiração para um poema de Natal, talvez. Parabéns! Desejo um ótimo Natal e um Ano Novo abençoado para você e sua família, querida Contista.

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  7. Olá, querida amiga Contista!
    Ahh que lindo e triste! Tadinho, no fim da vida… Só queria entregar as flores para o seu amor… E talvez tenha ido ao encontro dela, afinal… Muito bem escrito! Cada frase é um poema! Gostei muito! Parabéns e boa sorte! Feliz natal! Bjooo

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  8. Olá querida Contista,

    Tudo bem?

    O fim, a solidão, a saudade… Ah, a saudade… É incrível como o lado de lá vai se ornando aos poucos tão interessante, com pessoas que amamos partindo…

    A autora acertou demais ao construir um conto que fala do passado, porém escrito no presente. Assim, temos a sensação de vestir a pele do personagem, acompanhando-o em toda a sua jornada rumo ao esquecimento, rumo ao encontro de sua companheira de vida, que, de uma forma ou de outra é o elo que o mantém ligado a si mesmo.

    Lendo os contos do desafio, estranhamente, parece que cada um fala de um pedacinho de mim, talvez de todas. Isso é lindo, parece que estamos todas sintonizadas.

    Parabéns pelo trabalho tão sensível.

    Desejo um Natal de muito amor e um Ano Novo de luz para você e os seus.

    Beijos
    Paula Giannini

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  9. Olá, Beatrice.

    Um conto solitário e nostálgico, quase dá pra sentir o frio que o personagem está sentido. As emoções deles foram bem descritas.A gente sabe o fim, a gente entende a dor e até mesmo espera que o sofrimento passe. Mas a vida é assim, gostei que mesmo que brevemente você nos deu um vislumbre de como é a vida dele, os filhos, o cuidado da filha com o pai senil. A atmosfera de natal causa isso, pq o sentimento hoje é de que tudo está se perdendo e então mesmo que involuntariamente perseguimos o passado e busca das boas lembranças.

    Parabéns, feliz natal!

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  10. Mais um conto que fala de saudades, o que é natural nesta época do ano. A perda da memória devido à idade é ao mesmo tempo castigo e benção. Por um lado, atenua as dores, as culpas, o peso do passado. Por outro lado, leva tudo embora , o bom e o ruim, os nomes, as datas importantes, a própria identidade. O protagonista aqui fala da sua Beatrice (nome de uma tia minha, lá da Suíça), que já se foi.
    Este conto me fez lembrar de uma gravura de um velhinho sentado em um banco com flores vermelhas nas mãos, que já serviu de inspiração para contos aqui.
    A narrativa foi bem construída como relato íntimo, na primeira pessoa e com sensibilidade.
    Feliz Natal e que 2020 te receba com muitas alegrias e menos saudades.

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  11. Conto lindo, melancólico, nostálgico, eu espero que ele tenha conseguido entregar as flores, de alguma forma… Quando chegar a essa idade, gostaria de me lembrar de tudo, ou o que for possível… Não quero me esquecer das pessoas e dos momentos, é como se as lembranças fossem meu combustível! Adorei essa narração melancólica, deu o tom perfeito para um conto que fala de lembranças, e de como elas costumam aflorar no Natal… Parabéns, Contista, trabalho primoroso! Feliz Natal pra você, e um ano de 2020 cheio de paz, saúde, amor e inspiração. ❤

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  12. Olá, querida Contista,

    Que belo conto, que sensível e bucólico, até triste.
    Como somos feitos de nossas lembranças e experiências, não, é!?
    Somos isso tão profundamente que quando elas nos faltam, nos sentimos vazios.
    Claro que aqui temos a senilidade (e talvez outra doença) como pano de fundo para a dificuldade de lembrar das coisas e até dele mesmo.
    Mas o amor… aaaaa o amor… o amor é inesquecível.

    Esse conto me lembrou uma das imagens do desafio das imagens proposto pela Evelyn. Tinha uma de um senhor com um ramalhete de cravos vermelhos em um banco sozinho. Eu escrevi um conto me utilizando dele, cujo título foi igual ao teu. Adorei, lembrou o meu! Obrigada!

    Um maravilhoso 2020 e que o Natal seja feliz e repleto de lembranças boas.

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  13. Boa noite, Contista!

    Ai, impossível não ficar tocada, pois tenho um pai idoso em casa. Puxa, que triste imaginar a situação de se esquecer das coisas, ou de viver além da pessoa amada e se sentir sozinho depois.
    A velhice é algo que não pensamos muito e muitas vezes não nós colocamos no lugar do outro, por isso acabamos não dando muita importância ao fato de que nós também estaremos velhos um dia, com possibilidades reduzidas.
    Enfim eu gostei do seu texto, apesar de achar o final apressado.
    Parabéns!
    Boa sorte.
    Feliz Natal!

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  14. Olá, Renata. Desejo que o seu natal tenha sido maravilhoso e lamento não ter podido vir mais cedo ler e comentar os contos maravilhosos que cada uma de vocês escreveu para este desafio.
    Você presenteou-nos com um conto de beleza em estado líquido. Líquido porquê? porque está fluído na forma e no conteúdo e além disso (e sobretudo) porque me fez correr uma lágrima – algo muito raro em mim. Para isso terá contribuído, imagino que sim, a morte recente do meu pai, que também ele se foi perdendo dentro de si e das suas memórias nos últimos anos, que tanto amou a minha mãe, única pessoa que continuou a reconhecer quando já não sabia nem o próprio nome. Enfim, comovi-me e ainda estou assim.
    Obrigada.
    Desejo-lhe um ano novo maravilhoso. Beijos.

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