PAIS NOVOS (Sabrina Dalbelo)

“Odeio vocês”, gritava Lucas. “Odeio vocês”, resmungava Letícia.

Os irmãos não tinham ouvidos. Reclamavam da ordem para escovar os dentes, para arrumar a cama, para organizar as próprias coisas, de tudo.

Os pais, Renato e Marlene, não sabiam mais o que fazer. Focavam em manter um nível mínimo de paciência para dedicar orientações sobre educação e boa convivência, as quais, aparentemente, não levavam a nenhum resultado exitoso, pois os irmãos eram teimosos e birrentos.

Lucas, de sete anos, era esperto e bastante traquinas. Letícia tinha apenas cinco, mas não titubeava em retrucar os pais.

Perto do Natal, os irmãos combinaram de escrever uma carta de intenções única ao Papai Noel. O pedido era muito simples: pais novos.

Ambos estavam fartos de pais que mandavam cumprir tarefas todos os dias. Acreditavam que o Papai Noel poderia lhes trazer um casal de pais mais complacente e generoso, ou, no mínimo, não tão chato como os que tinham.

Na véspera de natal, desceram as escadas em busca do café da manhã, mas a mesa não estava posta e a casa parecia muda. Renato e Marlene não estavam no quarto, no banheiro, na cozinha, na garagem… em nenhum lugar.

Lucas e Letícia sentiram um certo alívio na falta de rédeas que experimentavam, mas, ao mesmo tempo, estavam curiosos sobre o ocorrido.

Uma batida na porta tirou-os das cogitações imprecisas. Ao abri-la, um adulto de terno preto com um ar de formalidade segurava uma prancheta na mão, enquanto estendia a outra para cumprimentar os pequenos.

“Olá, meu nome é Antony, eu vim até aqui em função do chamado de vocês. Poderiam me acompanhar, por favor?”, falou o adulto, como se estivesse fechando um contrato.

“Mas nós estamos de pijamas”, retrucou Lucas, sem se apresentar ao estranho.

“Não tem problema, senhor Lucas. Basta calçar algo nos pés e os senhores podem me acompanhar até a loja”, respondeu com cortesia.

Ao saírem de casa, puderam observar, no quintal da casa da esquina da rua de baixo, o amigo Bruno, de oito anos, rolando na grama e dando gargalhadas com dois adultos estranhos. Lucas apontou a cena para Letícia. Ela apertou os olhinhos e tapou o reflexo do sol com a mão para ver melhor, mas levantou os ombros em sinal de desentendimento sobre o motivo da alegria dos três.

Antony os pegou pelas mãos e dirigiu-os até uma limousine lustrosa que aguardava bem em frente à garagem da casa.

Uma vez acomodados, Antony explicou que sabia do pedido de Natal dos irmãos e que seria uma honra fazer negócio com os dois. Eles sorriram, ainda sem entender o propósito, mas maravilhados com a aventura que se desenvolvia.

No destino, ao deixarem o automóvel de luxo, Lucas e Letícia se depararam com uma construção belíssima, um prédio cor de chumbo de quatro andares, que ocupava o quarteirão inteiro. A porta, em forma de arco, formava uma abóbada opulenta, em tom dourado. Em uma placa estaqueada à frente do prédio, Antony confirmou estar escrito Mostra de pais de Natal. “Bem, senhores, vamos entrando, por favor. Primeiro a senhorita, Dona Letícia”, Antony esticou o braço e deu passagem às crianças.

Ao adentrarem no prédio, vislumbraram um corredor central que parecia não ter fim, todo ladeado por pequenos ambientes separados por vidros. Eram vitrines que se seguiam geminadas, uma após a outra, até onde a visão das crianças não alcançava. Tinha vitrine com ambiente de cozinha, quarto, sala de tevê, sala de jogos e, até, com quintal, todas paramentadas para caracterizar aquele lugar específico. Mas mais do que isso, dentro de cada uma das caixas de vidro, um casal de pais diferente.

“Senhor Lucas, senhora Letícia, fiquem à vontade. Temos aqui a melhor seleção de pais do mundo, escolham sem pressa. Como podem ver, cada casal está identificado por um número. Temos disponíveis pais que gostam de jogar; pais que amam séries e filmes; pais que passam o dia preparando gostosuras; pais profissionais das cócegas; enfim, nosso catálogo é grande”, Antony conferia as fichas na prancheta, animado. “O que os senhores têm a fazer é escolher, apenas isso.”

Os olhinhos brilharam diante do presente mais empolgante do mundo: escolher os próprios pais. Nada poderia ser mais maravilhoso.

“Contudo, com licença, antes que os senhores comecem, uma condição…”, Antony cobriu a boca ao roncar a garganta. “Devo-lhes advertir que, uma vez efetuada a troca, ela não poderá ser revertida. Entenderam? Depois que trocarem de pais, não-podem-voltar-atrás.”, marcou a entonação enquanto falava.

Lucas e Letícia assentiram com a cabeça e, sem pestanejar, começaram a analisar as vitrines.

Logo na primeira, uma luz se acendeu em um ambiente de cozinha, onde uma senhora sorridente batia um bolo, enquanto remexia os quadris ao som do que parecia uma música alegre. O homem separava as cartas de um baralho sobre a mesa, gesticulando o convite ao jogo.

As crianças se entreolharam. Letícia franziu o nariz e Lucas balbuciou odiar baralhos. Com o desinteresse, a luz dessa vitrine se apagou, para que se acendesse a da próxima. Nela, um ambiente de jardim, em que o pai quicava uma bola e a mãe rodava um bambolê na cintura. “Esses não, Lucas, eu tenho preguiça de bola”, riu Letícia.

E assim foram, vitrine após vitrine, Lucas e Letícia avaliando os casais de pais disponíveis para troca.

Até que os pais da vitrine vinte e três chamaram a atenção dos dois: a mãe usava um lenço amarelo na cabeça e arrumava o quarto infantil, sem parar, sorrindo, concentrada. O pai, um senhor de óculos, estava parado no canto do quarto, carregado de pacotes de presentes, sorrindo de orelha a orelha. “Taí, gostei desses dois”, Lucas apontou-os para Letícia. “Gostei também, ela é bem arrumadora e ele dá presentes. Não são chatos”, concluiu a menina.

Ambos olharam para o lado e ali estava Antony, que até aquele momento não tinha feito nenhuma interferência, como se não estivesse ali durante o processo de escolha.

Apontaram para o casal vinte e três e Antony resgatou a ficha com o número afixado na vitrine. “Vocês têm certeza? Não poderão trocar!”, advertiu pela última vez. Ambos deram pulinhos e entoaram seguidos “sim!”.

Antony fez uma anotação na prancheta e, ao entregar a ficha nº 23 às crianças, automaticamente o casal da vitrine foi substituído por Renato e Marlene. Estes, com gestos mecanizados, começaram a interagir no ambiente cenográfico, mas, ao contrário dos pais anteriores, não sorriam.

— * —

Manhã de Natal.

Lucas e Letícia despertaram cedo e desceram correndo as escadas.

A árvore estava lotada de presentes, mas, ainda assim, o pai segurava uma outra pilha de pacotes, aguardando os filhos, sorriso de orelha a orelha. Ao lado dele, a mãe também sorria, ainda que seus olhos não brilhassem.

Enquanto as crianças rasgavam papéis de todas as cores para acessar a infinidade de brinquedos, a mãe ajeitou o lenço amarelo na cabeça e pediu licença para começar a arrumar o quarto das crianças.

14 comentários em “PAIS NOVOS (Sabrina Dalbelo)

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  1. Olá, querida.

    Que conto diferente este seu! Pensei, quando li, que seria uma daquelas histórias em que as crianças vão observando e acabam escolhendo os próprios pais. Mas, que surpresa. Sua história não era nada do estilo “filme de sessão da tarde na globo”, estava mais era para um episódio do sinistro seriado Além da Imaginação. Gostei bastante. Adoro encontrar coisas assim, fora da curva. Parabéns e que seu natal seja maravilhoso.

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  2. Concordo com a Iolanda aí acima. Um conto bem diferente. Uma premissa que poderia render um conto infantil com um enredo a lá Além da Imaginação. A narrativa direta contribui para o efeito de estranhamento que permeia o conto e culmina no final enigmático. Gostei demais! Parabéns! Desejo-lhe um ótimo Natal e um Ano Novo de muitas inspirações e realizações. Beijos carinhosos.

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  3. Querida Contista,

    Tudo bem?

    Seu conto, leve, insólito e divertido, traz, para mim, embutida, a questão da falta de limites a que pode chegar uma criança, sempre em busca de satisfazer, obviamente, seus desejos infantis, tudo conduzido pela ótica do absurdo.

    A pegada do conto me lembrou muito os textos de teatro do absurdo como A Cantora Careca do Ionesco, causando um certo estranhamento que desloca a ótica do leitor para fora do convencional.

    Parabéns pela ousadia!

    Desejo um feliz Natal a você e a toda a sua família.

    Beijos
    Paula Giannini

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  4. Mas que crianças mais mimadas, hein? Tudo bem que tem uma hora na vida que se pode desejar uma família diferente, mas daí a descartá-la … E aí que está a sensibilidade da autora que mostrou o quanto a evolução material deixa falhas, lacunas na vida pessoal de cada um. Confesso que esperei que as crianças escolhessem os próprios pais, mas isso não aconteceu. Mesmo achando triste, achei a opção da contista mais coerente. Um pai que dá presentes sem fim e uma mãe que só se preocupa em arrumar e deixar tudo em ordem para os filhos. Mas cadê o brilho no olhar? Não há!
    O conto está muito bem escrito e não desperdiçou palavras para desenvolver a premissa tão interessante.
    Feliz Natal e um maravilhoso 2020. Beijos.

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  5. Bom, vou ser a chata que diz q a idade das crianças está muito abaixo da capacidade cognitiva apresentada por elas na historia… rsrs
    Mas fora isso, o conto é deveras interessante!!!
    Gostei deste final, meio filme de terror, acabei por imaginar eles tão estranhos quanto o casal de irmaos da familia Adams 🙂
    Parabéns, contista por tirar as leitoras da zona de conforto!

    ps: e viva a Leticia!!

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  6. O que representa ser criança no século 21? Nesta trama, as crianças assumiram o protagonismo. Hoje entendemos que a criança não apenas é única, que as regras não se aplicam de maneira uniforme, mas também com personalidade e opiniões próprias que devem ser levadas em consideração.

    A primeira consequência dessa educação é que as crianças estão crescendo cada vez mais livres. Logo entende-se que elas também precisam ativar seu protagonismo a partir do autoconhecimento e das responsabilidades que começam a assumir.

    Assim crianças estão mais exigentes e mostram-se cada vez menos satisfeitas. O conto retrata, de forma figurada, que ser criança hoje é muito menos assumir um papel pré-estabelecido e funcional e mais um direito de ser feliz. As crianças da história são bem pequenas, sem dúvida para mostrar que as exigências vêm até dos bebês.

    Parabéns autora, pela coerência na rede de figuras do texto. A quebra da coerência interna pode criar novos significados e retratar a educação atual com maestria. Pais não modelam as crianças, são modelados por elas. Trata-se de uma crítica, talvez sátira ou caricatura, para mostrar os excessos, de como os pais são valorizados apenas pelo materialismo: os presentes e o conforto das crianças.

    Feliz Natal para você e sua família, que haja articulação e coerência no relacionamento entre vocês, agora e sempre. Beijos.

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  7. Olá, querida amiga Contista!
    Nossa… Imaginei que ia acabar de forma muito diferente… Imagino que seja uma crítica a como as crianças estão hoje e como o conselho tutelar às vezes acaba atrapalhando mais do que ajudando. Ouvi uma moça conversando com a filha em uma viajem de ônibus, ela disse: “não bate na mãe que a mão seca”. E a menina respondeu, petulante: “se bater em criança vai presa! “. Confesso que eu quis bater naquela menina… Bem… Pode não ser nada disso, mas o conto está bem escrito e meio assustador, me levou a pensar em como caninha a humanidade… Parabéns e boa sorte! Feliz natal! Bjoooo

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  8. Um conto bem sarcástico. De início achei que a idade das crianças não condiziam com seus atos, mas depois percebi que faz parte da crítica, onde cada vez mais cedo as crianças se julgam donas do mundo. É uma realidade crescente, todavia, ainda acho que os pais devem sim dar atenção e amor aos filhos. Tirar tempo para brincar com eles, impor limites qdo necessário, e não só entupi-los de presentes, e acredito que é disso que eles sentem falta. Eles não querem pais que os encham de presentes, mas querem pais que os encham de amor, assim, nem se lembrarão das coisas materiais. Abraços ❤

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  9. Olá, Contista

    Conto diferente, engana, a gente espera que seja uma lição dos pais aos filhos para que estes aprendam e melhorem..depois se tratar mesmo de uma realidade futurista onde o final, novamente, não é como esperamos. A crítica clara ao modo como são criado as crianças hoje, a dificuldade de ensinar, de dar limites. Um conto fora da caixinha, as Contistas surpreendem mesmo.

    Parabéns, feliz natal!

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  10. Oi! Adorei esse conto, principalmente porque achei que ia terminar de outra forma e infelizmente não, rs. Adoro essa “enganada” no leitor, essa coisa de sair do lugar comum. Quanto ao enredo, muito criativo e diz bem sobre como estão os relacionamentos entre pais e filhos na realidade, os filhos querendo tudo, os pais muitas vezes não dando atenção também… Para ser pai/mãe tem que estar bem cientes do que envolve tudo isso. E mesmo cientes, a gente acaba errando muitas vezes, falhando em algumas coisas… Uma boa reflexão para essa época, com certeza! Acho até possível usar esse texto em sala de aula, com os alunos, e com os pais em alguma reunião também… Depois converso contigo, Autora! No mais, obrigada pelo texto, te desejo um Feliz Natal e que seu Ano Novo seja de paz, saúde, amor, inspirações… ❤

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  11. Olá, Contista!!
    Conto fantástico com o “e se fosse diferente?” como gatilho para o desenrolar da história….achei muito interessante, as pessoas estão muito “formatadas”, tudo meio que como deve ser e aco, sim, que crianças nessa idade também já estão com esse senso crítico (sujeito a erros, quase sempre).
    Bem interessante!!
    Bjokas e um Feliz Natal e um 2020 de mto sucesso!! ❤

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  12. Boa noite, Contista!
    … E eu esperando a lição de moral tipo ” e eles escolheram e escolheram e no fim tudo o que precisavam eram os seus pais verdadeiros” — AFF! Essa minha frase ficou feia. Kkkkk.
    Bem, achei uma mescla de fábula, com sonho. Gostei do ar infantil e fantasioso que faz todo sentido quando se é criança. Essa passagem onde as crianças estão escolhendo é a melhor parte e vc vende bem a ideia.
    Espero que agora eles fiquem satisfeitos, né?
    Parabéns pelo conto.
    Boa sorte no desafio.
    Feliz Natal!

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  13. Oi, Sabrina. O natal foi bom? espero que sim. Tenho raiva de mim por me esquecer de todos os nomes de todos os filmes. Este conto fez-me lembrar imenso um filme (muito bom) em que existe um bairro paradisíaco onde as mulheres são esvaziadas e substituídas por clones sem vontade própria. São mulheres perfeitas (para os maridos), que parecem verdadeiras, mas que não têm nada por dentro, algo muito semelhante aos robots que brevemente nos serão oferecidos pelas tecnologias de inteligência artificial. Fiquei satisfeita com o facto de levar as consequências até ao final. Não aprecio finais redentores e cheguei a temer que na manhã de natal eles encontrassem os pais verdadeiros o que felizmente não sucedeu. Parabéns! Um maravilhoso 2020 para si e todos os que ama. Beijos.

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