Reflexos (Fheluany Nogueira)

 

         Hoje amanheci velhíssima, vinte e oito anos. Só que não senti, não importei, não tive vontade de voltar atrás; o que não significa também que esteja com vontade de prosseguir. Vou ficando.

         Meu WhatsApp trouxe uma mensagem. Adivinhada. Sabida. Conversa que há anos não falha. Diz palavras protocolares. Fiel, a insistir, a dizer que ainda faço anos, a convencionar-me, a balizar-me, a compromissar-me com um mundo que não me quer e a que não quero. Melhor que as pessoas se deslembrem de mim. Estou conseguindo. Há muito tempo deixei de contar presentes ou vinte amigos me cumprimentando. Perco a noção das coisas certas, cíclicas, dos calendários, das datas… Havia tempo em que eu media a minha (des)importância pelo número de e-mails, mensagens e cartões recebidos por ocasião de meus aniversários. A data me provoca sustos.

         Quando completei dezoito anos levei o maior choque: aquilo me parecia um século.  Estava completamente só e eu não sabia ficar assim nessa solidão. Fechada no quarto tomei sozinha uma garrafa de vinho. Era noite e não havia luz. Tive que acender uma vela, única e fraca luz no meu apartamento de estudante, dois quartos, onde eu morava sozinha, autêntica assombração. Escutava barulho de buzinas lá fora, gente cantando na rua, uma impossível água caindo de muito alto. Guardei bem esta noite óssea. Nessa noite eu me decidi…

***

         Dei um passo dentro do chuveiro, sem sair da água quente e me aproximei do vidro, sem perder de vista uma imagem corrompida e difusa, misturada ao vapor.  Fiquei naquela posição alguns minutos e não aconteceu nada que pudesse me dar alguma resposta. A imagem começou a se movimentar, até que tomou completamente a estrutura.  Tive um sobressalto. Era eu! Eu me desenhava ali: doze anos, cabelos encaracolados, unhas carcomidas, pernas finas, sem nenhum bumbum. Não era mais assim. Cremes, tintas para o cabelo, perfumes, óleos, esmaltes já faziam parte da rotina. Aquela imagem fez acender todas as conexões elétricas que me alimentavam. As células do meu corpo ganharam energia no diálogo entre aquele eco e minha consciência. Procurei ir ao passado para entender por que a aparição, mas apenas relembrei fatos acontecidos:

         — Nareba! Pinóquio! Ai! Cadê o ar daqui? — os colegas me deixaram meio traumatizada. A silhueta espelhada repetia o bordão com que faziam troça de mim e que odiava. Sentia-me mutilada e ela sabia que eu seria um campo fértil para as ações que se seguiram. A memória justificava….

         — Posso ajudar você a conquistar o que deseja — a menina-eu, mais nítida, incentivava. — No espelho está a verdade.

          Consultas, exames, cirurgia. A companheira inseparável presente em todos os feixes de luz com que eu deparava… E foi ela quem me mostrou a narina obstruída, uma bem maior que a outra; a estrutura frontal caída.

         — Não ficou como imaginamos — o que busquei, então, foi acertar… Não queria perfeição, no entanto fiz mais e mais retoques.

          Chorei muitas vezes… conversava chorando… mas não importava… Suportava tudo. Nada podia ser escondido do reflexo — era inquietada pela cópia. Mandei instalar um espelho na porta do armário que retratasse o corpo inteiro. Via-me tranquila, com um rosto simétrico e bem tratado. Já, a réplica me apresentava diferente: carrancuda, triste, feia. Pensei que fosse um problema de reflexão, deveria haver formas diversas de se fabricar um espelho, sem deformações. Troquei uns quatro ou cinco.

         — Como está manchada! — a versão-jovem me convencia a novas técnicas de harmonização.

         — Está tentando mudar quem é? Que futilidade! Está bonita assim — ouvia da família. Perdi mais um semestre na Faculdade naquela loucura de correr atrás do corpo perfeito.

           — Onde consertamos agora? — a imagem-escondida me manipulava.

         O reflexo me conhecia muito bem. Sabia que naquela área era fácil me atingir, perder o controle. Eu me entregava em suspiros de confissão: quero, quero, quero…

          Minhas características físicas foram se transformando. Viajava com os amigos e não me importava de ficar de biquini. Mas se eu e ela olhássemos nos olhos de um deles ou, que fosse para uma poça de água, enxergávamos imagens distintas. Também as fotografias apresentavam muitas faces. Eu passeava entre os limites do crível e da fantasia.  Mas a garota me persuadia… Sempre.

         O dia inteiro no quarto, repouso, travesseiros, tevê. Sem tempo para namorado… Tédio e dependência.

         — Veja! Sem as gordurinhas das costas, a flacidez sumiu, o umbigo ficou lindo, ganhamos uma cintura maravilhosa. — a réplica era feiosa, mas perfeccionista. Tentei falar com ela. Estava cansada…

***

            — Agora, o conselho de ouro! — Acreditava que aquela voz se calaria? Engano meu de pensar que a exigente ficaria satisfeita algum dia. Fiquei meio cética… Ela continuou:

         — Estamos muito bonitas. É nosso aniversário. Não queremos nos sentir tristes, envergonhadas, com medo de perceber qualquer imperfeição, incomodadas com a aparência, encarquilhada. Não podemos perder tudo o que fizemos…

             Madrugada e não consegui dormir um minuto. Tudo doendo dentro de mim só em pensar o quanto de verdade havia naquela última recomendação:

            — Envelhecer é perder a beleza, é sofrer. Por viver velhas preferimos morrer. Conviver com a degeneração dentro de nós? Nunca! Vamos aproveitar esse momento de satisfação para nos congelar nele. Preservar a beleza.

             Vacilei, mas uma vacilada como quem concorda, se não concordasse, negaria. Não, não discordei. Concordei por não discordar. Mil motivos poderiam ter-me levado a não discordar, porque, afinal de contas ela retratava a definição do que era. Estava com a razão. Não vou ser eu quem vai envelhecer, então o que vamos fazer? Não queremos a cabeça pendida, face branca ou arroxeada, equimoses na pele. Espuma sanguinolenta na boca, narinas e ouvidos, nojento. Língua azulada e projetada, horrível. Sulcos, cortes no pescoço ou nos pulsos, nem pensar. Vermelhidão, erupções, bolhas, uma bruxa. Não posso parecer estar doente, tenho que estar firme, cheia de vitalidade.

         Talvez um corte na veia femoral com um caco de vidro; todo o meu sangue escaparia em minutos. Viria a palidez, mas ela é romântica… O ferimento seria coberto por roupas. Ninguém veria.

         — O que aconteceria se injetasse uma seringa cheia de ar nas veias?  Como na novela. Pareceria morte natural — eu-jovem encorajava, lúcida e segura. — Estamos com quase trinta anos. É a hora certa.

                     Outra noite óssea. Outra decisão difícil: como nos matar sem, no caixão, perder a beleza?

 

 

14 comentários em “Reflexos (Fheluany Nogueira)

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  1. Olá, minha querida companheira. Mais uma vez encontro este texto tão reflexivo. Um conto super atual sobre um problema que assola o universo desde sempre. A vaidade, seus padrões, suas cobranças e a consequência de tudo isso sobre os espíritos mais frágeis. O conto, narrado em primeira pessoa, mergulha no universo distorcido de sua autoimagem e das atitudes a partir disso. Triste e muito real, feito com a maestria costumeira desta mestra que tanto admiramos e queremos bem. Beijos, beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  2. “As coisas tem um brilho que com o tempo se vai. Morra jovem e permaneça belo.” disse Kurt Cobain em sua carta de despedida. Um conto que dispensa comentários, ele já fala por si só… 😥
    (obs: também não comemoro mais aniversário, não pela beleza do corpo que se esvai, mas pela insignificância da vida que se vem).
    Bjs ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pela leitura e comentário simpático. Acho que devemos comemorar aniversários sim. Ficar mais velha é um privilégio, dá mais clareza à vida, enriquece o espírito. Não seja pessimista. Um abração com muita ternura por você.

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  3. Querida Fátima,

    Tudo bem?

    Parabéns por mais este belo trabalho.

    Tema forte e muito importante de ser discutido. Tenho uma pessoa bem próxima na família que enlouqueceu assim. Era linda, fez plásticas e plásticas, virou quase um ET, e não conseguia parar…
    Você sempre nos trás esses textos fortes e cheios de “horror” social, obrigada.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  4. Nossa que texto forte e necessário! Hoje mais do que nunca, a mulher se sente pressionada a manter a aparência sempre jovem e bela. Como se a perfeição de fato fosse possível! E a beleza indescritível da imperfeição, que nos torna seres únicos e eternos?
    O conto faz pensar, refletir sobre o quanto ignorar pequenos lampejos de autoflagelação nos leva a um caminho sem volta. O amor sempre é a solução, mas deve começar a brotar primeiro em nós, para nós.
    Parabéns por mais um texto magnífico.

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  5. Já havia lido seu texto há alguns dias, uma leitura hipnotizante, aliás. Voltei agora para comentar. É um texto de horror muito forte que fala da obsessão pela imagem. Sua personagem me pareceu portadora do uma espécie de dismorfia, uma não aceitação obsessiva do corpo. Achei muito interessante a fragmentação da personagem nesse alter ego de 12 anos, justamente a idade em que todos os complexos e insatisfações com a aparência se potencializam. Enfim, Fátima, um ótimo conto. Terror contemporâneo que faz pensar, bem do jeito que eu gosto. Parabens!

    Curtido por 2 pessoas

  6. Tocante e forte.

    De uma mente que possivelmente não se manteve sã diante do ininterrupto culto à beleza e à juventude dos nossos tempos.

    As pessoas envelhecem, fato.
    É importante, entretanto, que não percam seu valor, que se inspirem no vinho que, sabemos, melhora com o tempo. Que se enxerguem belas, que fujam dos padrões.

    Um conto de muitas reflexões.

    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  7. Fátima, querida, que baita texto!
    Que mensagem importante (sem ser mensagem).
    Quanta estupidez deságua em doença… como podemos deixar de ver a beleza natural e plena do que somos? por que? por que?
    Lembrei da Marilyn Monroe, atriz multitalentosa cuja causa da morte, alguns cogitam, tenha sido “para não envelhecer”.
    Que triste e que belo!

    Curtido por 1 pessoa

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