Menina-Poly (Marília)

Quis enfeitar domingo chuvoso com boas escolhas, Realmente eram. Dia frio, coberta, leitura, música. Ajeitei a poltrona, liguei Poly e ouvi no rádio sobre amor que dura janeiros até o mundo acabar.

Logo em seguida, o disco foi escolhido, as coordenadas posicionadas na rotação musical, parecia tudo bem. Porém, ao longo dos segundos estendidos minutos mais parecendo horas, ela desabou. Nós. Juntas. Poly desordenou seu ritmo exato, instabilizando movimento de braço com giro suave por velocidade sem poder controlar.

Eu, tentando ajudar, fui comandante do navio prestes a naufragar, reorganizando botões, sem sucesso. Um deles até deslocou-se do corpo dela para minhas mãos, quase dizendo: Estou cansada. Pensei: Ela não pode parar! Tentei assimilar giro, engrenar retorno, nada além da vontade por gritar: Ajuda! Vamos perder a paciente, equipe! Sozinha, fui médica sem conseguir socorrer. Liguei e desliguei, pedi, implorei: Volta! Ela pareceu entender, pois acendeu uma última vez, depois acalmou, apagou quase falando: Desculpe, não consigo mais.

Como fica quem fica? Com lágrimas, desconectando fios impedindo condução elétrica, empurrando de volta ao lugar agora triste, acarinhando o objeto querido, minha-menina-toca-discos-emoções-e-corações. Você apareceu do nada, vinda de outro lugar ser meu lar artístico. Te vi perto, do lado, acesa resplandecendo tom a tom minhas músicas favoritas, além das inúmeras sortes ao ouvir no rádio tantas palavras melodiosas.

Contigo, toquei de tudo, variando humor e amor por artista no momento, todos do passado. Você foi minha companhia de relaxamento, descontração para arrumar o quarto, empolgação com cada disco novo, encantou quem te assistiu rodopiar linha por linha músicas escolhidas. Com você, a frase: Eu tenho uma vitrola deixou esta sujeita aqui ser dona tua, cuidadora duma jovem senhora com idade não revelada. Foram lançadas muitas Polyvox. Poly, só houve você.

Em nome de tudo isso, papai vai tentar resgatá-la, por favor, seja Fênix. Se não conseguir, pode ir. Caso tenha cansado, fique tranquila. Sua aposentadoria por anos de trabalho chegou, ainda que eu jamais quisesse viver este dia. Adeus? Não. Prefiro dizer pela certeza de reencontrar: Até a próxima lembrança!

Marília


P.S.: Poly, obrigada pela música de despedida! A escolha foi excelente! (De Janeiro a Janeiro, de Nando e Ana)

 

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37 comentários em “Menina-Poly (Marília)

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  1. Olá, Marília. Prazer em conhecer a sua escrita que transborda a sensibilidade só própria de quem consegue se conectar com a alma intrínseca das coisas que povoam o nosso mundo e enchem a nossa alma. São muitos os objetos que ao longo da vida enriquecem a nossa identidade. Não conheço a música de despedida, mas se deixou esse aroma no seu coração, certamente será bela, como esta sua despedida em jeito de até já.
    Beijos.

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    1. Olá, Ana Maria! Fico feliz pelo seu comentário! A música de despedida foi “De Janeiro a Janeiro”, de Nando Reis e Ana Cañas.

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      1. As vezes lendo seus textos me dá a impressão que seu coração se encontra nas pontas de seus dedos, pois é tudo muito rico de sentimentos e emoções variadas…

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      2. Nossa, que comentário lindo! Adorei a expressão do coração estar na ponta dos dedos ao escrever, muito delicada a percepção. Com certeza vou usar essa expressão ao falar sobre a arte de escrever! Realmente, muito obrigada! ❤

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    2. Isso é colírio para meus olhos. Ainda mais eu, que trabalho com rádio a mais de 11 anos… Foi de uma sensibilidade cada colocava o de vogais e consoantes.
      Obrigado por existir!

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  2. Marília,

    É emocionante ler e reler as tuas palavras. Elas têm uma capacidade de sair do papel e gerarem um cenário todo e em um passe de mágica vivencio tudo o que descreveu de forma tão singular. Ainda me recordo da Poly tocando Beatles em momentos nossos. E fico feliz de poder tê-la ouvido. Ela sempre foi magnífica. E torço para que ela retorne e se não retornar, tudo bem também… A gente tem muita memória com ela que jamais será apagada.

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    1. Beija-Flor, que lindeza de comentário! Fiquei emocionada com cada detalhe que você comentou! Obrig
      ada por todo carinho com a Poly e comigo! ❤

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  3. Oi, Marilia. Que legal ter usado a Poly para falar de nostalgia e das lembranças que guardamos conosco. A música é mesmo mágica e tem esse poder. Parabéns pelo texto, gostei bastante. Beijos.

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  4. Mulher de Deus! Seu conto me lembrou de uma vitrolinha vermelha que eu tive quando era criança e onde tocava uns disquinhos coloridos com historinhas infantis que muito me influenciaram para um dia sair escrevendo mal por aí. Ah, garota, que texto bacana, criativo, jovial e diferente! Parabéns, viu? Gostei da sua Poly. Só fui ter cd player quando era adulta, daí vc tira a idade que tenho, hehehe. Beijos e feliz estreia.

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    1. Que comentário incrível! Gosto muito desses resgates que a Poly consegue trazer! Ela é tão inspiração que já ganhou mais 2 textos. Muito obrigada pelos votos e observações, fiquei super feliz! Beijos.

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  5. Conto maravilhoso e delicado! Fiquei impressionado com a riqueza sentimental e reflexão que sua Toca Discos provocou em suas palavras! Estou ansioso para ler mais textos seus por aqui! Meus parabéns! ❤

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  6. “Olhe bem no fundo dos meus olhos / E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar”!!! Já vivi muitos momentos especiais ouvindo música pela vitrola. Sofri muito quando os pés da última ruíram, Agora compramos uma, pela internet, Sons e sentimentos parecidos…

    Obrigada por estar conosco. Parabéns pelo trabalho cativante, pela forma sensível com que tratou o cotidiano. Assunto e estilo bem amarrados, que gostei muito de conhecer. Senti e pressenti, no cristal de cada linha do seu texto, uma individualidade bem refletida. Um autor é o que é, exatamente por comunicar aos outros a sua vivência estética. É preciso ser intuitivo, com fisionomia própria, uma voz interpretadora do seu tempo, de seu meio e do seu povo, sempre cheia de sutilezas e lirismo.

    Beijos.

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    1. Li e reli seu comentário algumas vezes para lembrar com mais detalhes! Muito obrigada por cada palavra aqui descrita! Gostei da forma de abordar minha escrita, muito gentil! ♥️
      Beijos.

      Curtido por 2 pessoas

  7. Olá. Não sei o quê ou quem é Poly, rsrsrs. Mas é um texto bem legal, nostálgico até. Hoje em dia não temos mais o costume de guardar ou de reaproveitar as coisas, tudo é descartável, deixado no lixo rapidamente e substituído por algo novo e mais potente. Tenho um rádio com CD que minha avó me deu em um aniversário que guardo até hoje como recordação. É bom poder olhar um objeto e nos lembrar do que ele representa.
    Bjs ❤
    Bem-vinda!!! 🙂

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    1. Poly é a toca-discos mais querida da vida! Esse texto foi escrito há alguns anos. Ela conseguiu ser consertada algumas vezes, porém, dessa vez, está realmente difícil. Vai deixar saudades! Muito obrigada pelo comentário! ❤️

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  8. Querida Marília,

    Tudo bem?

    Bem-vinda ao grupo, você nos trouxe um belíssimo texto de estréia. Um trabalho sensível e delicado, mas, ainda assim, cheio de profundidade e reflexão.

    Entre a leitora e a autora, há um rio, o texto. Este rio, construído pela escritora,há que ser transposto pela pessoa na outra margem do conto, e, para este percurso, todas nós trazemos nosso barco, que é nossa história, aquilo que nos norteia através das palavra. E é justamente aí que reside o ponto alto de sua narrativa. Cada uma de nós, lerá seu conto de acordo com os filtros que possui, porém, em algum momento (ao menos foi assim comigo), a mão do rio toca o barco.

    Obrigada por se juntar a nós.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que comentário maravilhoso! Muito obrigada, mesmo! Adorei as comparações que você traçou, fiquei comovida! Obrigada pela receptividade! ♥️ Beijos

      Curtido por 1 pessoa

  9. A companhia poética de uma vitrola em um domingo frio. Música deliciosa tocando e a mente viajando. Sou mesmo do tempo que se aprendia a lidar com a agulha para não se arranhar sua ponta ou pior os discos. Ler seu texto foi uma bela viagem no tempo, a leitura fluiu que foi uma beleza. Parabéns!

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  10. Li seu texto logo que postou e volto agora para comentar. Que delicioso texto de estréia, Marília. O mais curioso para mim foi o contraste entre seu estilo jovial e contemporâneo com o tema algo nostálgico da despedida de uma alquebrada vitrolinha. Um frescor e uma graça realmente marcante. Ansiosa para conhecer outros trabalhos seus. Parabéns!

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    1. Ah, que comentário lindo! Obrigada! Poly chegou quando eu tinha uns 13 anos. Foi uma surpresa incrível! Desde então, ela se tornou mais que um objeto, Poly virou minha companheira. Ela mereceu essa homenagem, tanto que fui bem literal com o relato, sem perder a poesia. Novamente, obrigada pelas palavras! Logo postarei mais trabalhos! ❤️

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  11. Ahhh emocionante!! Sou apaixonada por toca-discos , desde criança, me fascinam… ganhei um dia destes e me parabenizei por ter guardado alguns vinis..
    Sofri junto com você com a morte de Poly.. de Polyvox? os poetas são os que nomeiam os objetos, sabia e deles se tornam amigos? hehe
    Parabéns , contista!!

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  12. Isso é colírio para meus olhos. Ainda mais eu, que trabalho com rádio a mais de 11 anos… Foi de uma sensibilidade enorme cada colocação de vogais e consoantes.
    Obrigado por existir e trazer esses sentimentos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigada por um comentário tão querido! Eu realmente fico feliz por ver quando os leitores sentem-se cativados pelas minhas palavras! ❤

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  13. Muito expressivo seu texto, agrada muito! Nos faz perceber que a Poly teve e tem uma personalidade forte e que te fez feliz até sua última nota, não decepcionou nem no último suspiro.

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    1. Obrigada, Danilo! Poly é uma grande personalidade na minha vida. Felizmente, ela sobreviveu a esse dia e hoje ainda toca e encanta! ❤

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  14. É incrível como este texto teve o poder de me levar de uma poltrona confortável em um apartamento para um barco onde eu era um tripulante, torcendo para a personificação de um toca-discos sobreviver, a leveza e a suavidade das suas escritas permitiram criar um novo mundo na minha imaginação, obrigado por compartilhar conosco!

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  15. Certa vez responde uma pergunta sobre o que torna alguém imortal …. E a resposta foi ” seus feitos ” . Poly se eternizou em sua vida com amor e memórias jamais esquecidas . Que lindo esse texto ! Parabéns Marília 🎈

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