A poesia do outro (Fernanda Caleffi Barbetta)

Não vejo graça em ler o que escrevo.
Gostoso é pousar os olhos nos escritos do outro.
Igual comida que a gente mesmo faz,
não tem sabor,
falta tempero.
O problema é que ler o outro
às vezes me dá gastura.
Quando a coisa é boa mesmo
dá uma sensação amarga de desejar ter escrito aquilo
e não poder mais.
Plágio é crime.
Outro dia, pedi ao meu amigo poeta
que escrevesse uma poesia minha
com a letra dele.
Em um papel branquinho,
com uma caligrafia rebuscada,
copiou os meus versos,
reproduziu minhas rimas.
Quando li,
deu aquela gastura,
a sensação amarga de não ter eu
aquela letra linda.

 

16 comentários em “A poesia do outro (Fernanda Caleffi Barbetta)

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  1. Aaaa que legal, Fernanda!
    Que gostoso de ler.
    A letra, a ideia, o sentimento… essa mescla entre o que pertence e não pertence a quem escreve.

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  2. Ahahaha. Que delícia de texto. Olha, eu gosto das coisas que cozinho, mas ser surpreendida com diferentes sabores sempre é uma sensação agradável de ineditismo. Vc conseguiu, em poucas palavras, criar um texto inteligente, saboroso, cheio de carisma e com final surpreendente. Amei. Beijos.

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  3. A galinha do vizinho é sempre mais gorda; a letra do amigo é sempre mais bonita… A expressão popular transmite a ideia da insatisfação com as coisas que se possui. O seu poema, não. É evidente que mostra a inquietude do Poeta, a alma indagadora que aspira a mais e luta por isso em busca incessante.

    Dois planos de significado perpassam o texto: o da produção material-cultural e o da produção poética. A linguagem recria, no plano de expressão, os sentidos engendrados e ajustam-se, funcionalmente, a cada leitura proposta, desde o título ao derradeiro verso.

    De certa forma, seu texto me fez lembrar Fernando Pessoa quando deixa o leitor assistir a engrenagem que move a construção dos seus versos, fazendo com que se crie um processo de aproximação e afinidade com o público.

    Parabéns pela sensibilidade e pela poesia cheia de sutilezas e lirismo. Beijos.

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  4. Não pude deixar de rir no final, a sensação de que não era a escrita o problema, mas talvez uma pitada de inveja, afinal, tudo do outro é melhor que o meu hahaha. Essa inquietação nunca acaba enquanto não nos damos conta de nós mesmos , de nossas atitudes, de nossos desempenhos. “Conhece a ti mesmo” essa é a chave para aquietar a mente e parar de comparar-se com outros, afinal, cada um trilha seu próprio caminho, único, e não posso querer calçar o sapato do outro quando o meu é um número menor ou maior. (Falar é fácil rsrsrs). ❤ Bjs

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    1. Olá, Vanessa, obrigada pela leitura. Sim, a ideia de que a grama do vizinho é sempre mais verde está presente no texto sim. rsrsrs. Somos eternos descontentes. Obrigada pelo comentário. Bjs

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  5. Ai, ai… A grama do vizinho é sempre mais verde. Na produção literária, dá para resolver essa admiração meio invejosa, só que não, do texto do outro pela intertextualidade. Nesse sentido, comparar-se aos outros pode acabar nos tornando melhores do que somos. Aliás, recontar o que alguém já contou antes é o que fazemos o tempo todo, não é?
    Seu poema tem uma atmosfera meio ingênua que aumenta a conexão com o leitor. Parabéns!

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    1. Oi, Elisa, sim nós sempre reescrevemos o que já foi escrito, mas da nossa maneira. Gosto de ler o que os outros escrevem, aprendo muito e sou incentivada a escrever mais e melhor. Obrigada por ler e comentar. Beijos.

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  6. Há no poeta sempre esse vazio, essa lacuna que precisa ser preenchida. E quando algo que julga ser essencial, vem outro desejo, outro vazio precisando de cheios e recheios. Ora, são as palavras, as rimas que parecem mais acertadas quando são dos outros. Ora é a letra mais à altura dos versos que idealizamos. Poeta, um insatisfeito…Parabéns!

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    1. Oi, Claudia, muito obrigada pelo comentário. Realmente, os poetas são eternos insatisfeitos, talvez porque enxerguem além daquilo que podem alcançar. Beijos.

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  7. Querida Fernanda,
    Que ótimo texto. Reflexão perfeita para todas nós, escritoras. Toda o peso da crítica colocada em nossos ombros, por nossas próprias penas.
    Clarice Lispector dizia que, após escrito, um texto está morto. Porém, não para o leitor, não é? A grama do vizinho parece sempre mais bonita. E sabe por que? Porque queremos a perfeição e nada mais.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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