A Separação (Fernanda Caleffi Barbetta)

Primeiro você mudou de linha. Imaginando que eu não perceberia, pulou para o outro parágrafo e foi se distanciando, até ultrapassar as margens e chegar à outra página. Foi então que eu te perdi de vista.
Ouvi dizer que, durante dias a fio, você percorreu páginas e invadiu capítulos, ansioso, confuso, aparentemente sem um propósito definido. Então, decidiu que precisava encontrar a fita de cetim vermelha, que, para o seu azar, sempre avançava um pouquinho mais a cada dia, dificultando o sucesso da sua jornada. Mas você finalmente a encontrou e a escalou, alcançando a borda da capa dura. Finalmente, conquistou sua liberdade, escorregando pela lombada. Veja só que corajoso.

E eu fiquei aqui, deprimida, no meu lugar, que é ao lado do seu lugar. Um espaço agora vazio. Um vazio que deixou nossa linha sem sentido, nosso livro incompleto, nosso romance defeituoso. Mesmo que entre nós houvesse um hífen, sentia que éramos ainda mais unidos do que os outros. Para mim, era como se fôssemos uma coisa só. E agora me sinto muito emotiva, acho que foi a separação.
Por alguns dias, caminhei pela nossa página, eu e o hífen, o nosso hífen, tentando ler nas linhas e nas entrelinhas o que poderia ter te motivado a tal aventura, a tal desprendimento, a tal desrespeito. Ouvi boatos de que você julgava que seriamos melhores separados. Não quis acreditar nessa justificativa absurda.
Até que eu tomei coragem também, a mesma coragem, ainda que por motivo diverso. Deixei o hífen guardando nosso lugar e desbravei o livro eu mesma, todinho. Não para fugir, como você fez, mas para tentar te encontrar. Talvez você estivesse fazendo o caminho de volta, arrependido. Cheguei a nos imaginar em um abraço apertado no meio das páginas centrais.
Andei de folha em folha, observando atentamente cada linha, inclusive os títulos e as notas de rodapé. O aceitaria até mesmo reformatado. Encontrei outros iguais a mim, outros iguais a você, mas nenhum deles estava desacompanhado.
Enfim, eu cheguei à parte dura.
Segurando com firmeza, pendurei-me na bordinha e espiei a contracapa. Nada. Com toda a coragem que nem eu sabia que possuía, dei a volta por fora, passando pela lombada, onde o imaginei escorregando para conquistar o mundo. Procurei por suas marcas, mas nem isso eu encontrei.
A esperança de vê-lo nomeando nosso livro, maior e mais brilhante, fez com que eu me arriscasse mais um pouco e chegasse até a capa. Mas não o encontrei lá também.
Fiz o caminho de volta sentindo muita tristeza e muitas saudades. E agora, feito uma tonta, eu passo essa história na minha cabeça como se fosse uma carta minha para você, que já deve estar em outro livro, em outra estante, numa livraria qualquer, quem sabe em um sebo. Aquele mesmo sebo onde planejamos terminar a nossa vida juntos, lembra?
Pois é, Perfeito. Essa seria a minha carta para você.
Assinado: Amor.

15 comentários em “A Separação (Fernanda Caleffi Barbetta)

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  1. Que conto mais lindo. Um amor-perfeito, que se desligou, como alguns amores se desfazem. Um dos dois vira a página e busca a fuga da história que um dia contaram juntos. Muito criativo o seu conto. Adorei!

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  2. Uma carta, quase um bilhete, com estratégia bem interessante ao apresentar um relacionamento através da metalinguagem. O código e o amor são o centro da mensagem do texto e pressupõe que o leitor tenha o repertório necessário para compreender o contexto criado – uma técnica criativa para construir um cenário particular, fruto de um artesanato. Parabéns pelo trabalho, Fernanda. Beijos.

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  3. A utilização da metaliguagem pela autora é o charme do conto. Um monólogo, uma carta que jamais será recebida, uma análise do fim de um relacionamento entre duas palavras dão encanto e criatividade à narrativa, onde um amor-perfeito, que significa uma flor formada por duas palavras separadas por um hífen, se separa, e a autora, utilizando este mote, cria um texto surpreendente. Foi uma ideia para lá de interessante, ainda mais porque quando o perfeito se separa e ganha o mundo (o livro) acaba provocando o amor a seguir seus passos, vivendo uma aventura também. Uma ambientação surpreendente, um conto fácil de entender e de se apegar. Adoro gente com ideias revolucionárias. Beijos.

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  4. Querida Fernanda,
    Outro ótimo texto. O amor virando a página, mudando de história de vida, de amor, enfim…
    Às vezes penso na vida assim sabia? Como livros…
    Excelente narrativa epistolar e tão bela.
    Beijos
    Paula Giannini

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  5. Que texto delicioso e criativo. E muito engenhoso. A separação das palavras que juntas significavam uma flor no corpo do livro-história como metáfora para um amor (perfeito) desfeito. Maravilhoso, Fernanda. Parabéns!

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