Por um tempo (Elisa Ribeiro)

Era um domingo ensolarado e a família saiu cedo. Os gêmeos no banco de trás, o programa seria subir a serra, almoçar com os avós e passar o resto do dia com eles. Juntou dois livros às tralhas das crianças: o romance do Vargas Llosa, no qual evoluía muito lentamente, e a coletânea de poesia contemporânea, cujas páginas fluíam mais ligeiras. Versos eram sempre possíveis, ainda que entre fraldas e mamadeiras. No celular, perto de uma dezena de outros textos mal começados a afligiam. Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas.

As crianças logo pegaram no sono. Poderia ter aproveitado a viagem para desfrutar alguns minutos de sossego, observar a agitação da rua, a cabeça vazia, sem as interrupções da maternidade, ela mesma. Mas conversar com o marido enquanto ele dirigia pareceu-lhe a coisa certa a fazer.

Não era exatamente um diálogo. O ensimesmar-se de ambos nos raros momentos em que os pequenos se aquietavam era-lhe sempre embaraçoso. Então buscava um assunto. Dessa vez, o volume que deglutia lentamente. Não havia esnobismo na escolha da literatura como tema, mas generosidade autêntica. Gostava de compartilhar o que lia, o enredo, o que sentia, o que antes do livro desconhecia e com ele estava aprendendo. Era magnânima por natureza. O marido nunca lera um romance. Antes, ele parecia não se orgulhar disso. Agora, ela já não tinha certeza.

Primeiro ele a interrompeu reclamando do trânsito. Ela respondeu qualquer coisa sobre tentar um caminho alternativo, diferente do que sugeria o Waze. Fez uma pausa mais ou menos longa antes de seguir do ponto onde havia parado no enredo.

Dessa vez, ele a interrompeu para perguntar se ela havia trazido água. Estava na bolsa com as coisas das crianças, contorceu-se para pegá-la no banco de trás, abriu a garrafa e estendeu-lha; ele bebeu um, dois, três goles, metade da garrafa, antes de devolvê-la. Ela nem cogitou em retomar o assunto, certamente Llosa lhe soava tedioso.  Guardou silêncio.

Além da água, sacara da bolsa também o volume e o acomodara sobre as pernas pensando em avançar um capítulo ou dois, as crianças dormindo, o marido atento ao volante. Antes, porém, resolveu mexer no celular.

Talvez por ciúme dos seus dedos ágeis nas teclas ou, de novo, do Llosa e sua narrativa escorreita, agora acomodado no morno das coxas dela, bem acima dos joelhos, fez um comentário que soaria como uma provocação se ela não fosse uma princesa desarmada e ingênua.

Algo sobre os livros não fazerem falta em sua vida, ou sobre nunca ter a eles precisado recorrer para resolver qualquer coisa que fosse, foi sua fala descontextualizada e estranha.

Ela terminou de dedilhar uma resposta antes de, convidando-o a uma abstração, argumentar mansamente que graças aos livros o conhecimento se transmitia, que as comodidades da vida moderna se deviam a esse propagar de conhecimento e que se não fossem os livros o mundo estaria ainda em uma espécie de idade das trevas, literalmente. Ia discorrer também sobre o tanto que se lê em todos os países desenvolvidos, mas um post em um de seus grupos do Whatsapp roubou completamente sua atenção.

Seria fake? Ampliou com as pontas dos dedos a imagem para conseguir ler as letras pequenas — os títulos, os autores.  Poe, Machado, Euclides recolhidos de bibliotecas escolares por conterem conteúdo inadequado para crianças e adolescentes, era insólito, soava como um pesadelo.

O marido retrucava levemente exaltado que seu comentário sobre à inutilidade dos livros se referia à experiência real dele, o fato de não se ressentir por jamais ter enfrentado qualquer obra literária que fosse, mas ela mal prestava atenção ao que ele dizia. Ocupava-se em checar no Google a autenticidade da relação improvável dos livros banidos pela  Secretaria de Educação de Rondônia.  

O documento era tão absurdamente real quanto as justificativas do marido sobre a falta de serventia dos livros e tal sincronicidade provocou-lhe conexões indeclináveis e uma reação descomedida e nada conveniente.  

A língua, treinada pelas centenas de leituras que acumulara desde o berço, açoitou o marido com mil e um argumentos sobre o valor da literatura, humilhando-o sem piedade a propósito de sua falta de cultura e conhecimento, o que até então jamais havia sido um de seus temas. Um desprezo tamanho que ela desconhecia carregar por dentro. Ele respondeu à altura, literalmente, vociferando um tom mais alto que ela, logo agredindo-a com palavras grosseiras até o momento impronunciáveis entre eles. Ao descontrole dos dois juntaram-se em instantes os gritos dos gêmeos expulsos de seu sono inocente por aquela batalha barulhenta e insana.  

Desistiram da visita aos avós e passaram o resto da tarde, a noite e os dias seguintes em um silêncio intransponível e incômodo. Voltaram a se falar aos poucos, os alfinetes do dia a dia rejuntando as pontas soltas. Mas o ódio persistia, as paredes da casa, ao invés de protegê-los, nesse ódio os confinando.

Coube a ela costurar o armistício, não com provisórios alfinetes, mas com agulha, linha, bainhas, pontos; não porque era mulher, mas porque, sendo mais lida, sabia como desarmar desfechos tolos.

Assim o fez.  E viveram juntos, a paz repactuada em novos termos, uma ponte sobre o abismo fictício entre eles, por um tempo.

11 comentários em “Por um tempo (Elisa Ribeiro)

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  1. Olá, minha querida e premiada amiga/autora. Um conto excelente trazendo um contexto super atual e polêmico, colocando o casal para representar a polaridade que hoje percebemos na população.

    O tema já é por si muito instigante. Eu poderia ver reproduzido das maus diversas formas em redes sociais. O diferencial aqui é o delicado e brilhante trabalho da autora, que,com sua escrita mágica, traz construções preciosas que agregam deleite à leitura.

    As frases ganham um tom lírico, uma delicadeza reafirmada o tempo inteiro pela delicadeza da própria personagem. Tudo isso em contraponto ao marido ignorante e limitado, os dois formando uma dupla improvável, que, a meu ver, só se mantém pelo empenho da mulher.

    Parabéns, Elisa. Vc faz uma teia de sutileza fascinante com suas palavras. Quando eu crescer quero escrever assim.

    Beijos.

    Iolanda.

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  2. Um texto impregnado do espírito da atualidade, do cotidiano corriqueiro e da alma indagadora e inquieta da autora. A sociedade, o casamento são retratados pelas diferenças, mas isso acontece sem prejuízo da sensibilidade aguçada. A história narrada ganhou um sopro poético dentro de uma realidade nossa, através das sugestões apresentadas.

    Outra coisa que impressiona bem é o fato de a autora preocupar-se com a técnica, porém conseguindo se expressar sem complexidade, de maneira simples e de comunicação fácil. Cada cena existe em função das outras. E, elas se conjugam num todo harmônico, tornando a leitura agradável.

    Parabéns pelas frases de efeito. Amei: “Ser mãe era padecer entre lacunas, num vazio de leituras eternamente adiadas” ou Voltaram a se falar aos poucos, os alfinetes do dia a dia rejuntando as pontas soltas” e outras. É sempre ótimo ter um texto seu para ler. Beijos.

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    1. Obrigada, Fátima, querida, sempre tão atenta e sensível às intenções por trás das palavras. É um privilégio tê-la como leitora e um deleite desfrutar seus comentários.

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    1. Obrigada, Fernanda, sempre atenciosa e gentil na interação aqui em todos os outros canais que partilhamos. Feliz com sua leitura e comentário.

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  3. Um texto delicioso de ler. A leitura flui com uma facilidade que nem percebi chegar ao final.
    Eu me vi ali naquele relacionamento, pois vivi algo parecido, uma relação com alguém que nunca tinha lido um só livro. Desconfio que nem os pedidos na escola. E o mais chocante é que isso não me incomodava, não era algo que me repelia. Hoje, entendo que deixei de escrever naquela época porque não tinha sentido e queria o apoio de quem me interessava. Um erro, sem dúvida.
    Fiquei encantada com a sua maestria em retratar um relacionamento aparentemente tão convencional e ao mesmo tempo frágil sobre um abismo fictício. E o final bem realista e sensato, afinal ela “sendo mais lida, sabia como desarmar desfechos tolos.” Afinal, eles deviam ter outros pontos em comum que superariam aquele abismo, que talvez fosse apenas uma rachadura (assim espero!).
    Parabéns!

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    1. Fiquei feliz com sua identificação com a minha personagem. Eu também sempre li muito mais que todos os meus parceiros (hahaha, até parece que tive muitos). E olha que eu nem leio tanto. No conto tentei retratar esse abismo tão comum conjugando-a a certa desvalorização da cultura que tristemente vivemos atualmente no nosso pais. Um conto com perfume de crônica, foi minha tentativa. Beijos, querida, e muito obrigada pela leitura atenta e sensível.

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  4. Querida Elisa,

    Tudo bem?

    Talvez por você estar se aprofundando na poesia, seu eu poético também esteja resolvendo aparecer em seus contos.

    Ótimo conto. Tenso. Verossímil.

    Há um abismo entre estes dois seres que dividem a vida, a cama, a mesa, o carro, os filhos. E, é justamente o não dito que os aparta, o que, metaforicamente é muito rico pois, justamente as palavras (os livros) são a questão que causa a dissonância do casal. São as pequenas coisas cotidianas que aos poucos afastam as pessoas, criando abismos.

    Parabéns!

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Obrigada, Paulinha, pela leitura e comentário. Esse texto foi uma tentativa de aproximar minha escrita da crônica, motivado, inclusive, por uma provocação sua ao me convidar a integrar o time do Imaginários. Beijos, querida.

      Curtido por 1 pessoa

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