Meio-dia, em Brasília (Elisa Ribeiro)

Quero-queros passeiam como se nada se passasse
atenta aos meus passos, circundo os ninhos
não quero que pese sobre meus ombros
a culpa pelos ovos partidos.

Ante os coletivos que circulam solitários
vejo brotar marmitas em esquinas que não existem
(cada um sobrevive como pode)
nenhum carro para
eu, a pé, hesito em correr o risco
— o dinheiro, o cartão, o toque, a mão
desisto de fazer a parte ínfima que me cabe
que alguém mais nobre a faça por mim.

Conforta-me a grama onde meus pés afundam
sou grata porque meus pais já partiram
minha geração assiste soturna
a descontinuidade da sorte
que tivemos até aqui.

11 comentários em “Meio-dia, em Brasília (Elisa Ribeiro)

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  1. Elisa, querida. Que texto cortante este seu. Nestes dias de quarentena eu fiquei muito tocada por uma coisa que alguém falou. Não lembro quem. A pessoa falou que os moradores de rua provavelmente não iriam ser atingidos pela praga, porque ninguém chega perto deles. Isso é realmente triste, não é? A pandemia um dia vai acabar. As ruas novamente serão barulhentas e tensas. Pessoas viajarão felizes pelo mundo, mas os moradores de rua continuarão atingidos pela praga da indiferença. Texto lindo, querida. Lindo como vc.

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    1. Essa frase que você cita é de cortar fundo o coração. E a conclusão a que você chega me travou a garganta. Obrigada pela leitura e pelo comentário tão profundo e humano.

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  2. Uma poesia que traz leveza nas palavras, mas um peso no refletir. Tempos difíceis em que os ignorados vivem em esquinas invisíveis. Que saibamos lidar com “a descontinuidade da sorte que tivemos até aqui.”
    Muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

  3. O poema parece-me um documentário com tons de drama e aventura, em um cenário bem conhecido, formando uma mistura de sentimentos entre querer saber um pouco mais sobre a verdade e também saber como todos sobrevivem a ovos partidos, à solidão, ao medo, ao cotidiano atual e outros fatores que misturam inteligência, sorte e vários dramas. Todos queremos simplesmente sobreviver, em meio ao caos e ao terror de tudo que nos cerca.

    O texto não apela para nenhuma cena exagerada, não há mortes explícitas ou algo que puxe para esse sentido; o temor vem implícito, deixando o sentimento do pior, para a imaginação do leitor.

    Muita sensibilidade e reflexão em versos com estilo prosaico de quem apresenta uma cena corriqueira, mas mantendo o senso de ritmo, certa entonação para enfatizar as palavras, simbolismo, expressividade, lirismo e riqueza.

    Parabéns, Elisa, por mais esse trabalho impecável. Abraços.

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    1. Sempre uma felicidade poder contar com seus comentários sensíveis e inteligentes, minha querida amiga Fátima. Acabaram saindo versos bem prosaicos dessa vez. Escrevi enquanto caminhava tentando espairecer, respirar e tomar um pouco de sol pelos gramados aqui do Lago Norte. Obrigada sempre pela leitura atenta e as palavras motivadoras. Um beijo.

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  4. Querida Elisa,

    Tudo bem?

    “Conforta-me a grama onde meus pés afundam
    sou grata porque meus pais já partiram
    minha geração assiste soturna
    a descontinuidade da sorte
    que tivemos até aqui.”

    Se o poeta é um visionário, você leu aqui i futuro próximo ao dia em que escreveu esse conto, não é?

    “— o dinheiro, o cartão, o toque, a mão
    desisto de fazer a parte ínfima que me cabe
    que alguém mais nobre a faça por mim.”

    Com essa pandemia avessa a toques, ando pensando nisso, na sorte que tivemos até aqui, nós, os que fomos privilegiados dentro desta estrutura social tão triste.

    Sei que as poesias são polissêmicas, mas esta coube como uma luva para o momento atual, e de forma tão sutil.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Eu pensava mais na sorte que a nossa geração, de todos os nascidos cá no Ocidente após a 2a. guerra, em termos vivido uma era de relativa paz e prosperidade e a salvo, como coletividade, de grandes catástrofes. Mas sim, temos muita sorte de termos um teto e condições de nos manter, ao menos de parte do horror que essa doença traz estamos protegidos. Obrigada pela leitura, querida. Beijos.

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      1. Uma coisa é consequência da outra, afinal. Muito bom. Lembre-se que suas letras se completam na leitura, o que também é um baita exercício.

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