– Flutuação – Iolanda Pinheiro

Não lembrava para onde estava indo, ou mesmo de quem era, apenas de como a chuva caia aos baldes sobre o para-brisa, e da pista escorregadia pela estrada sinuosa. Não sabia porque dirigia tão rápido naquela tempestade, mas recordava nitidamente do momento em que perdeu a direção e o carro se projetou sobre o despenhadeiro numa flutuação em câmera lenta, da luz dos faróis iluminando o céu de piche, do baque de mil e oitocentos quilos sobre o oceano, e depois, nada.
 
Acordou sufocando com a água que entrava por todos os lados. Batia no vidro com a trava metálica ao mesmo tempo que se atrapalhava tentando liberar a fivela do cinto de segurança.

Passou com dificuldade pela janela, nadou, já quase sem ar, em direção à superfície, e então sentiu um tentáculo enrolando-se pela perna esquerda e a puxando para baixo. Os pulmões lutavam por ar, e a consciência ia falhando. Agora o corpo todo estava tolhido, e algo pesado comprimia seu peito. Estava morrendo.

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13 comentários em “– Flutuação – Iolanda Pinheiro

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  1. Ótima história onde mais uma vez se destaca sua habilidade narrativa. Acompanhei as situações vividas pela personagem como se assistisse um filme de SciFi, completamente envolvida pela sequência de circunstâncias surreais habilmente descritas. O final me surpreendeu deveras, amiga. Antes do final, a agonia da personagem foi quase palpável. Mais um excelente conto. Parabéns!

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    1. Amada, muito grata pela sua gentil disposição para a leitura do conto, e mais ainda pelo generoso comentário. Adorei. Quis fazer um conto bem direto mas um amigo reclamou que estava confuso. Existe uma linha estreita entre o confuso e o muito explicado que eu busco atingir mas nem sempre alcanço. Um abraço bem apertado assim mesmo de longe. Valeu.

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  2. Sobre a imagem… Maravilhosa! Remete-nos à fantasia, ao sonho. O imaginário pessoal e também coletivo – essa é a razão das imagens: partir do particular e tornar-se atemporal, abrangente, envolvendo cada um de nós na interpretação a partir de nossas vivências. Eu simplesmente amei.
    É um começo de impacto, carregado de medo, angústia, desconhecimento de sequência a cada linha, mesmo tendo o entendimento de que essa cena é uma cena de morte. Sem dúvida, uma lembrança de sua própria morte, eu diria. Mas será que ela morreu realmente? Foi agarrada pelo quê? Tentáculo do quê? Uma criatura fantástica? Seria uma mão? Seria a própria morte?
    No começo da leitura, dei atenção para três possibilidades:
    A primeira – ela morreu e está em outra dimensão (espiritual) ou universo (?).
    A segunda – ela não morreu e não se lembra de mais nada, o que torna isso um pouco mais interessante porque ela pode estar desacordada há tempo, por isso o não reconhecimento dela mesma.
    A terceira – ela não morreu, mas mergulha em uma realidade anterior, algum resquício de vida passada. Há um tempo, li que somos a soma de muitas vidas dentro de muitas camadas temporais. Por isso nossa percepção nos comunica, muitas vezes, a certeza (eu digo certeza, porque acredito nisso) de já termos passado por aquele momento, por pequeno que seja.
    Eu gosto da ideia das camadas temporais, uma vez que tudo é possível. Talvez ela esteja numa realidade e se lembre de outra, talvez isso esteja apenas na sua cabeça. Ou num sonho dentro de um sonho.
    Então, cheguei ao final e me surpreendi, mas nem tanto.
    Como sempre, porque sempre espero isso de você, uma escrita impecável e uma história intrigante. Sem dúvida, uma história de ficção científica, porque não precisa ter o aparato de um mundo extraterrestre para ser FC. Creio que o ponto alto do texto é esse caminhar devagar até a parte final quando se sabe que ela não está desperta.
    O ponto reflexivo desse texto é a pergunta “até onde podemos ir com a ciência em prol de nossos desejos egoístas?”, ou ainda, “ será que a morte existe de fato?” ou “nossa consciência de vida permanece após a morte?” São indagações que nos fazemos todos os dias e que estão no texto, muito bem construído. Alguns desentendimentos por, talvez, falta de atenção na leitura, ou interpretação, ficaram no final, mas isso não é nada frente à construção geral.
    Gostei demais do texto, Iolandinha. Parabéns!

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    1. Olá, boneca. Esse conto só saiu por seu incentivo, nossas propostas e muito conversa onde aprendo e cresço. Que bom vc ter gostado. O conto é mesmo sem muitas respostas até porque eu aprecio demais quando algo que eu escrevo gera questionamentos nos leitores e entre os leitores. A percepção de tudo o que acontece é alterada não apenas pelo meio onde ele realmente está inserida através de drogas e estímulos, e também pela própria imaginação e sentimentos que envolvem a origem de todos os problemas – o acidente. Escrevi sem muita esperança mas acabei gostando bastante do resultado. Tentei mudar bastante o meu estilo, consegui? Gosto muito de vc, flor. Está no meu top 3.

      Grande abraço e muita saúde para vc e para os seus familiares e amigos. Beijos.

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  3. Iolanda, vc tem uma capacidade incrível de narrar, a maneira fluida com que as palavras vão compondo cada frase e se transformando em imagens na nossa cabeça. Mais ou menos como ocorre com a protagonista. Foi de propósito isso? Achei o efeito muito bom, contribui para o suspense da trama, mantém o leitor atento e curioso. O final nos leva à “ficção científica” (eu particularmente acho que pode deixar de ser ficção em breve, quem sabe?), uma situação que esclarece a trama mas mesmo assim, mantém o suspense, a agonia, o frio na barriga do leitor. Achei excelente!
    Fora isso, só pra constar, Liana é o nome da minha sobrinha. Tem hoje quase 2 anos de idade…

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    1. Olá, Juju! Sempre que escreve uma história ela segue aquilo que vou fabricando na minha cabeça, como um filme. Acho que desta vez eu fiz direito porque algumas pessoas que leram falaram a mesma coisa. De certa forma eu acredito que meu conto tenha sido inspirado em filmes como Vanilla Sky e A Cela. Vc os assistiu?

      Eu estava muito paradona mas a Evelyn me incentivou e acabou saindo este texto. Mesmo assim levei mais de um mês para terminar. Outro amigo meu, chamado Rocheteau, me deu umas dicas sobre o exercício da escrita e por causa delas eu consegui chegar ao fim. Para mim a escrita não é um exercício solitário, mas uma composição de muitos fatores, estímulos, conversas e ideias.

      Muito obrigada pelo seu maravilhoso comentário, querida. Deus a abençoe e proteja.

      Beijos.

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  4. Conto bem escrito com trama cativante. Ainda estou tentando entender o desenrolar dos acontecimentos. Parece que Liana sofreu um acidente de carro – “A mãe atrás com o irmão nos braços, pedia ao marido que fosse devagar. Numa curva o cachorro se soltou e foi para o colo do pai para pegar a peteca que a menina havia pendurado no espelho.” Parece que o dog provocou o acidente de carro ao tentar pear o brinquedo no espelho (que foi pendurado ali por Liana). Só não entendi por que o pai diz que perdoa a filha. Ela teve culpa? Ele não estava dirigindo em alta velocidade?
    Imagino que a mãe e o irmão de Liana tenham morrido no acidente… e ela ficou hospitalizada, em coma, em uma espécie de flutuação, vivendo em realidades paralelas.
    O conto é ótimo justamente por isso – abre um leque de possibilidades interpretativas. Muito engenhoso. Parabéns!

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    1. Olá, minha querida. Li seu comentário mais cedo, mas estava fazendo várias coisas e deixei para responder quando tudo estivesse tranquilo.

      Primeiro eu agradeço por ter lido e ter feito um comentário tão bacana. Essa história ficou me picando o juízo por muito tempo porque eu não conseguia encontrar um desfecho interessante para ela, até que um dia o meu caboclo baixou e o fim veio. Ficou bem legal (para mim) porque injetou emoção à narrativa.

      Pensei em várias versões. Numa delas, pasme, a Liana era uma pistoleira que havia ido à casa das pessoas para matar a família, mas sofreu o acidente e perdeu a memória. Acredita?

      Acho que a historia escolhida acabou ficando confusa, mas, se me permite, vou explicar.

      Alerta de Spoiler. A moça era filha do casal que a recebeu. Ela e a família sofreram um acidente quando ela ainda era criança. Por que ela se sente culpada? Porque ela havia colocado o brinquedo do cachorro no espelho do carro. Não conseguiu controlar o cachorro e o cachorro provocou o acidente. Criança é assim. Se sente culpada mesmo não sendo.

      Na minha cabeça, o cão, a mãe e o irmão morreram, o pai escapou e ela também, mas ficou em coma. Com a passagem dos anos, o pai descobriu uma técnica de conexão com pessoas inconscientes, como no filme A Cela. E tentou algumas vezes mas ela nunca conseguia lembrar no tempo limite em que durava a conexão. O conto poderia ser maior e eu teria dado mais elementos para o leitor entender. Mas sempre que eu escrevo bate aquele medo de explicar demais, saca?

      Um beijão para vc, gata.

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  5. Um conto ousado e provocante. Depois de ter terminado a leitura, você ainda se pega pensando sobre as ideias discutidas e sente uma vontade forte de reler, na tentativa de identificar novas referências e, quem sabe, percebê-las sob novos contextos.

    A lógica narrativa é construída com um claro começo, meio e fim, fazendo com que embarquemos na jornada proposta por Liana, como parte do processo de revelações e descobertas da história ao mesmo tempo em que também passamos a refletir e questionar a legitimidade de tudo aquilo.

    Assim, se por um lado, a trama parece fazer questão de imprimir dúvida sobre a veracidade de tudo aquilo que sua protagonista diz ter vivido (ela teve mesmo a experiência — EQM — de quase morte ou encontrou naquela série de acontecimentos a “fuga mental perfeita” para sobreviver?), por outro lado ela está tranquila o bastante para despertar reflexões importantes sobre quão complexo pode ser o processo de busca de superação de um trauma, mesmo com comprimidinhos cor-de-rosa… Interessante como a sua estadia com a família que a acolheu aparenta uma situação de sequestro.

    O enredo se destaca também ao sugerir questionamentos absolutamente relevantes sobre dilemas e dúvidas comuns a todos nós sobre a vida e sobre o que é ser considerado normal numa sociedade moralmente doente.

    Na última parte, aparentemente, ocorre uma volta à realidade (qual realidade?). A trama nos joga no meio de uma série de problemas que parecem impossíveis de responder. Ao invés de começarmos a conhecer algumas repostas, temos que abraçar mais uma porção de perguntas.

    O texto tem a sua própria personalidade e a sua própria lógica, há um mergulho na ficção científica, bem como em viagens filosóficas; tudo com aura de mistério, de dimensões e realidades paralelas. A autora sabe para onde quer ir, o caminho é sensível e a chegada arrebatadora.

    Parabéns pela criação de um mosaico envolvente de pura criatividade! Beijos!

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    1. Que comentário maravilhoso, Fátima. Fiquei toda boba e ainda fui ler para o meu filho de tanto orgulho que senti. Fiz este conto cheia de dúvidas sobre qual direção ele iria tomar. O tema era Lembranças e as possibilidades eram infinitas. Tantas eram que acabei formulando várias ideias só chegando ao formato definitivo um dia antes de concluir o conto. Tudo isso porque estava esperando que a ideia que melhor me convencesse surgisse em meus pensamentos. Quando surgiu a ideia do coma, e da intervenção de alguém nos pensamentos da paciente, surgiu com alguma dúvida, pois sempre aparece alguém querendo ditar regras sobre o que escrevemos e uma delas é que não se pode fazer contos usando os pensamentos de uma pessoa inconsciente. Seja por estar dormindo, seja por estar em coma e tal.

      Outro problema foi o tanto que eu iria ocultar do leitor para que ele mesmo completasse as lacunas com a sua imaginação, fazendo daí nascerem teorias interessantes. Acho que no afã de não mastigar demais, eu acabei deixando o conto excessivamente aberto. Uma pena. Um dia eu aprendo a medida exata e estimulante para que não precise explicar depois.

      Muitíssimo obrigada por ser essa pessoa admirável que vc é.

      Abraços virtuais,

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  6. Querida Iolanda,

    Tudo bem?

    Seu conto mexeu comigo. Não poso mais com pessoas em coma, não sei quanto tempo isso vai durar… Entretanto, se mexeu, não foi pela imagem do hospital em si, mas, pela ótima qualidade da trama.

    Tenho uma amiga que conta que se acidentou da mesma forma, estava submersa e pensou, segundo ela: “calma menina”. Diz ela que foi como uma voz que viesse de fora:”abra o sinto de segurança, isso, saia”. E, realmente, ela saiu. Fato é que está viva para cotar a história.

    Você, entretanto, deu voz a alguém que não sobreviveu e isso é algo que, sendo especulativo, causa empatia total no leitor. Quem não imagina o que acontece no momento da morte? O que pensamos? O que, de fato, acontece? Um dia saberemos (infelizmente).

    Aqui, além da reflexão metafísica, há a ficção científica. O pai que tenta salvar sua filha, e sua voz, ouvida de fora (ou melhor, de dentro do “escafandro”) pode ser percebida com amor. Mais um fato que me fez chorar. Imagino se meu Otávio me ouvia cantar para ele… Imagino se, como sua personagem, criava historinhas em sua cabeça. É isso.. A literatura emociona, nos remete a nós mesmos e de alguma forma misteriosa nos toca em um lugar recôndito.

    Parabéns e obrigada pelo belo trabalho.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Olá, meu anjinho preferido. Tudo em paz e todos com saúde?

      Quando fui escrever o texto eu pensei primeiro na cena inicial. Uma pessoa que após o acidente, perdia a memória total, a ponto de não saber o próprio nome ou reconhecer o próprio rosto.

      Poderia seguir vários caminhos mas arrisquei este enredo normalmente tão criticado onde o protagonista não está exatamente consciente de suas próprias ações. Dormindo, sonhando, em coma, morta? De alguma forma, e aí é que entra a ficção científica, ela consegue se conectar e, muito lentamente, vai recordando o passado conflituoso e com uma carga de culpa gigantesca que a impede de acordar, ou de partir definitivamente.

      Fui escrevendo e a história foi surgindo, as passagens confirmando pouco a pouco o desfecho.

      Confesso que pensei que não iria agradar tanto, ou ainda que não fosse mexer tanto com as emoções dos meu tão queridos leitores.

      Não tive intenção alguma de entristecer, mas, parece que inevitavelmente as minhas emoções acabam transbordando naquilo que escrevo.

      Seu Otávio jamais sairá de seus pensamentos/sentimentos. Esquecer é uma impossibilidade, porque viver o que vc está sentindo e sentirá nada mais é do que ser humano.

      Beijos, querida e que Deus a abençoe e conforte.

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      1. Oi querida,
        Emoção não quer dizer tristeza. Triste com essa perda, ficarei sempre, mas, mais que isso, senti emoção. E isso, creio ser até unanimidade entre críticos, é um imenso trunfo em um texto.
        Beijos e obrigada por seu amor.
        Paula Giannini

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