Verdades Fingidas (C.R.Angst)

Ninguém percebe, mas ela tem um plano. Engana os sentidos para que pareça tudo tranquilo. Camufla as palavras com a delicadeza de um véu esgarçado e sem mais serventia. E ainda assim, ela não quer rasgar a ilusão da felicidade.

Ela finge que não se importa, que não regula o calendário com a ausência que traz em sua sombra. Diz que não há problema em misturar os dias, pois tem certeza de que cedo ou tarde o impasse se resolverá. E quando tudo mais for passado, isso também será parte da areia que debaixo dos seus pés desliza pela ampulheta. É o tempo dela. Só dela. A sós.

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6 comentários em “Verdades Fingidas (C.R.Angst)

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  1. Oi, Cláudia. Li algumas vezes o seu texto. Não sei se fiz a interpretação certa mas usei um parâmetro de realidade para mostrar o que entendi. A pessoa em questão não tem um relacionamento real e nem um emprego formal. Então o que ela faz é passar a maior parte do tempo dentro de casa, dentro de si mesma como se hibernasse até ser despertada para viver um grande amor ou para realizar os desejos de toda uma vida.

    Entendi que a sua personagem tem alguém. Entendi que ela usa de subterfúgios para se convencer de que está tudo bem. Ou talvez esteja porque ela já entendeu que a sua perspectiva é aquela mesmo e se conformou.

    Pode não ser nada disso, amiga. Mas eu tenho uma dificuldade gigante em compreender poesia, prosa poética e similares. Tendo acertado ou não (o mais provável) apesar de uma carga emocional perceptível nas palavras, também senti muita suavidade na protagonista, isso deixou o texto muito agradável de ser lido. Ficou cheio de lirismo mas sem ser doce.

    Grande abraço e obrigada pela sua amizade sincera.

    Beijão.

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    1. Agradeço pelo atencioso comentário, Iolandinha. Gostei bastante da sua interpretação, e foi mais ou menos este caminho que trilhei quando escrevi. O sentimento da protagonista é leve como um suspiro de alívio, talvez por ter descoberto o que sente e assumido as lacunas que encontra em si mesma e no outro. Beijos.

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  2. O texto narra a construção de um plano para uma mudança e para a qual, a protagonista finge não se importar. Temos, então, a passagem de de um estado de produção (“É o tempo dela. Só dela. A sós”) a um estado de realização (“É o plano dela. Talvez não só dela. Nunca mais serem sós.”). Ela está preparando o seu vestido de noiva, mesmo que seja num plano simbólico?

    Para depreender a visão de vida implícita na sua prosa poética, foi preciso levar em conta que por trás das figuras apresentadas existe o tema da passagem do tempo, da transformação; enfim, que por trás do significado de superfície existe um outro significado mais profundo.

    Parabénspelo sensibilidade, pelo lirismo. Do encontro entre poesia e artesanato nasceu um texto denso, que encanta. Beijos.

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  3. Seu conto me fala dessa estratégia que vemos tanto em tantas mulheres, esse fingir que nada está acontecendo e que as coisas se resolverão por si só adiante. Uma sabedoria, pois o tempo se encarrega mesmo quase sempre de resolver todos os conflitos. Seu conto parece mergulhar nesse comportamento, desvendar suas nuances. Gostei, como gosto sempre, dessa sua linguagem absurdamente cheia de ritmo e melodia. Parabéns.

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  4. Querida Claudia,

    Tudo bem?

    Seu texto é sempre permeado pelo lirismo, trazendo algo de mistério, uma lacuna aberta para ser completa pelo(a) leitor(a) e sua própria percepção de mundo.

    Não sei se é algo feminino, ou inerente a algumas almas humanas, esse aspecto do calar que você traz no texto, mais que isso, há aqui um conformar-se diante da vida, da falta de amor, ou ao menos, do amor que seja espelho daquele que ela traz em si.

    Parabéns pelo belo trabalho.

    Beijos

    Paula Giannini

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