Resistência (Renata Rothstein) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.

Inúteis indulgências prostituídas, a embriaguez e um céu cortante desaba sobre a ainda frágil alma.
Forte, o luto, desembainhando fitas prateadas, insiste.
O limite tortuoso de um fim lento, impenetrável, rasga minhas veias – vias que anseiam venenos mortíferos – só uma vez, antes de terminar.
Agora é tempo e tão certo, não volte atrás, pois só há um por quê.
E creia, o meu menos sempre foi além do talvez, nesse luar obscuro.
Tumulto e armadilha: raia o desconhecido para mim, descerra o dia. Sei o que foi e interessa o sim, e será: tortura, a alvorada, o que não virá?
Muito ou pouco, véu e treva, celebrações, mãos unidas – só o tempo dirá.

13 comentários em “Resistência (Renata Rothstein) – desafio

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  1. Olá, Mary Ann, que belo texto, forte, cheio de sentimento, assim como deixa claro, é o “colocar em palavras o que grita aqui dentro”. Parabéns pela coragem e pelo resultado. Escrito em prosa, de forma poética, é um texto enigmático, metafórico, instigante.
    A única coisa que me causou estranheza foi o fim, pois o texto todo fala de dor, perda, desesperança, fragilidade, o que contrasta com o encerramento, mostrando uma possibilidade de um final feliz. “Muito ou pouco, véu e treva, celebrações, mãos unidas – só o tempo dirá.” Não que o final devesse ser trágico, mas talvez a esperança, a possibilidade de uma virada devesse estar presente no texto anteriormente. Ou eu não entendi direito?

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  2. Um texto denso em prosa poética. Denso também é o sentido, essa busca por uma paz perdida no meio do caminho.
    Como a Fernanda apontou, também senti o texto ganhar uma pitada de esperança no final, depois de uma caminhada pelo breu. Mas isso é também real, já que antes do amanhecer, quando a luz volta a aparecer, a noite é a mais escura e plena em vazios. E a possibilidade de um recomeço me fez cócegas bem no finalzinho, uma surpresa no final do pesadelo. Talvez um sonho.
    “Encontrar caminho e paz, entre perdas e dúvidas” Desafio cumprido.
    Parabéns pela sua participação.

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  3. Olá, Mary!
    Li seu texto e não captei o significado, aí olhei a imagem… e é uma mulher e uma criança, na noite, então imaginei que pudesse ser sobre a perda de um filho… não necessariamente a morte física, mas um distanciamento, quem sabe… ou até, a imagem e o texto podem ser sobre o envelhecimento, a perda da criança interior… bem, estou divagando, é claro, pode não ser nada disso e essa incógnita do texto apesar de frustrante não deixa de ser interessante, porque abre espaço para todas essas interpretações e até outras.
    Eu gostei da maneira como escreveu, tão apaixonada, intensa… toda desilusão que aos poucos vai mostrando uma pontinha de esperança. Desafio cumprido com sucesso! Parabéns!
    Até mais!
    Beijos!

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  4. Um prato cheio para existencialistas. Uma das riquezas do texto reside nos expressivos recursos utilizados para demonstrar o estado de ânimo da protagonista que soa como um permanente espectador revoltado em face dos sentimentos que carrega (perdas e dúvidas)

    O fluxo de consciência das primeiras linhas vem com um peso imenso, dando vida ao título com um senso de realidade louvável. Como o seu desafio seria tentar encontrar caminho e paz, considero-o cumprido, sobretudo pela última frase de esperança que se contrapõe ao restante do texto.

    Parabéns pela forma como conseguiu colocar em palavras o que gritava por dentro. Abraços!

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  5. Olá, querida contista.
    Entendi mais o texto ao ler o que te desafias a cumprir.
    Teu grito, teu pulsar, desaguou praticamente num fluxo de consciência.
    A prosa virou poesia.
    É realmente um lamento, um lampejo, um labirinto.
    Palavras foram se experimentando, se juntando e se repelindo.
    Esse exercício catártico é divertido, não é para todos e nem para toda a hora.
    Use para se libertar, mas com moderação.
    Por que?
    Porque esse texto normalmente não está pronto para deixar o escritor e encontrar o leitor. Ele tem dono e não se liberta fácil.

    Gostei muito!
    Bjos

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  6. Querida contista! É um texto corajoso, claramente poético, que traz imagens fortes e contundentes. Mas a meu ver falta uma linha condutora. Sim, você colocou em palavras o que grita aí dentro. Mas às vezes o que grita dentro de nós só faz sentido pra nós mesmos. Para transmitir para o leitor o que vc sente, é necessário dar a ele um caminho para seguir, como um fio de Ariadne, assim podemos entrar no seu labirinto sem nos perdermos. Eu acho que você poderia a partir de agora, dar tratamento ao texto, usando a razão, para – junto com a emoção que vc tão bem traduziu em palavras – construir um significado mais “universal” para esse caminho que você e todos nós buscamos. Parabéns por desafiar-se assim, não é coisa para fracos!

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  7. Olá, Contista. Li seu texto como um poema. O tema, uma perda. O diálogo comigo funcionou perfeitamente. Achei potente seu texto. Entretanto não é um texto para qualquer hora, tampouco para qualquer leitor. Nesse sentido, faço coro com a Sabrina, acima. Não se frustre quando não for compreendida, tampouco ofereça essa densidade e intensidade para qualquer público.Não sei se você encontrou a paz a qual se desafio alcançar, mas encontrou uma leitora sensível às suas palavras e encantada em lê-las. Parabéns, querida. Beijos.

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  8. Querida Contista,

    Parabéns por cumprir seu auto-desafio.

    Se você passou o que sentia ao leitor? Não sei. Quando lemos, nos apossamos das palavras e toma-mo-nas como nossas próprias. Seu texto é profundo, dolorido, e, se o entendimento não é como o que literalmente o compreendemos, é porque um texto assim é feito para ser sentido.

    Lendo os comentários acima, faço minhas as palavras da Elisa. Para mim, os melhores textos são os que nos tocam em algum lugar recôndito, e esse faz isso com maestria.

    Parabéns e obrigada por se (nos) desafiar.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  9. Seu texto em prosa poética fala muito sobre o que há de mais profundo nas “resistências” da vida.
    Também me senti tocada por suas palavras e seu desafio foi cumprido…ou está sendo.
    Abraços!

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  10. Um texto bem denso, enigmático. Confusão de sentimentos fortes e intensos, onde a protagonista resiste a cada dia , permanecendo aqui, e não se entrega à vontade de sucumbir. Parabéns, e que você consiga encontrar caminho e paz, entre perdas e dúvidas.
    Abraços ❤

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  11. Olá, querida Renata. Hoje eu li o seu adorável, atento e muito generoso comentário no texto que mandei para o Recanto das Letras. Sabia que iria receber um comentário deste nível, afinal você é uma contista dedicada, que respeita muito quem traz textos para o seu exame. Fui até a sua página e vi que não tinha texto algum desde o ano 2018, então achei que seria mais interessante publicar aqui, neste seu conto que amealhou o segundo lugar no último desafio. Isso me fez recordar que vc não ficava satisfeita com os seus resultados nos concursos de terror promovidos naquela plataforma. Agora, vendo o placar alcançado no nosso grupo vc consegue ver que o problema lá naqueles concurso não era o seu produto, mas o público que o consumia. A gente agrada a quem nos compreende. Seu desempenho aqui, para amigas com uma visão mais ampliada sobre literatura, obviamente é melhor. São os olhos de quem consegue enxergar a qualidade dos seus escritos, que definem o seu lugar neste mundo das letras. Obrigada e parabéns. Um abraço apertado e agradecido. Beijos.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi, Iolandinha!!
      Meu comentário não apareceu aqui (postei pelo celular, então…rss), vou repetir feliz da vida o que eu disse: muito obrigada pela leitura, pelo comentário, vc sempre me incentivou e incentiva a seguir, a melhorar…e poxa, como sempre digo, vc é nossa Iolanda King. Sério!
      E sim, quantas vezes me perguntei “onde foi que errei?” rs, e você me consolando, me explicando, muitas vezes na madrugada….
      Mas amei mesmo seu conto, como di9sse, espero que tenha continuação….formidável.
      Gratidão, sempre!! ❤
      Beijos!!

      Curtido por 1 pessoa

  12. Li esse conto com o máximo respeito, pois logo na segunda linha percebi não tratar-se de algo linear ou roteirizado e, portanto, a leitura deveria se voltar a um tipo de conteúdo existencialista e catártico, saído mais do fundo da alma de quem escreve do que propriamente das mãos. E para que isso consiga atingir o leitor, a força e o peso das palavras se fazem aqui fundamentais. Seu conto se forma por uma sequência de metáforas que juntas nos passam perfeitamente o sentimento de dor e sofrência de quem se propôs a desabafar. E essas coisas, só a poesia consegue. O resultado final dessa prosa tão poética cumpriu sua intenção… Uma pessoa que não tem tanto sentimento apertado na alma, não faz um texto desse.

    Curtido por 1 pessoa

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