Gritos silenciosos – Psicopata

Que noite doida! Que mulher doida! Saí de casa ontem sem expectativa nenhuma de me dar bem e acabo pegando a gata mais intensa que vi ou ouvi falar. Foi tudo tão rápido… boate, álcool, dança… parece que ela me escolheu… e que beijo foi aquele? Caí de quatro por ela na hora. “Sua casa ou na minha?” eu perguntei. “Na minha!” ela respondeu sem hesitar. O sexo foi selvagem, não vi nem em pornô o que ela fez comigo e me deixou fazer com ela. Adormeci logo em seguida. Agora faço hora para abrir os olhos. E se foi tudo ilusão? Delírio dos bagulhos… pensando bem é até provável, nunca um zé mané como eu ia ter vivido isso na real. 

Abro os olhos devagar. Opa, não estou em casa. Será que foi tudo verdade? Tento me mexer e não consigo. Droga! Já tive esse sonho antes. Não conseguir acordar de verdade mesmo a mente estando acordada. Sinistro… Já vai passar. Olho tudo que consigo ver sem virar a cabeça e é estranhamente real. Um teto branco, ambiente claro, paredes sem adorno, parece um … hospital. Estou congelando, será que estou pelado? Será que eu tô bem? 

Tento desesperadamente me mexer, gritar, espernear. Acorda! Nunca durou tanto esse pesadelo. Minha respiração acelera, minha boca seca. O que está acontecendo? Tento ver mais alguma coisa. Nada. Minhas costas estão doloridas, preciso mudar de posição. Socorro! Tento gritar, mas o silêncio continua. Presto atenção no silêncio, percebo um som baixo, quase passando despercebido, um ventilador? Saída de ar? 

Ouço passos, não sei se é bom ou mau sinal. A porta se abre e alguém vem em minha direção. É ela. Tenho certeza, o perfume é inconfundível. O cheiro de flores que tanto me excitou  ontem a noite agora me apavora, como não percebi que cheira a velório? Ela chega bem perto de mim, entra no meu campo de visão com um sorriso amável. Meu coração acelera, quero gritar, quero que ela me ajude… ela parece tão calma.

– O dorminhoco acordou, enfim…  eu já estava ficando impaciente. – Diz colocando luvas de látex.

O que está acontecendo? Tento desesperadamente me mexer, quebrar aquela paralisia. Consigo ouvir as batidas do meu coração e minha boca está tão seca que não consigo engolir.

– Calma, eu vou te explicar tudo direitinho, garanhão. Não se preocupe, eu sou médica.

Ela entra e sai do meu campo de visão e, pelo barulho, parece que arruma alguns instrumentos metálicos em uma bandeja. Por mais que eu queira ardentemente que ela me ajude, tenho certeza que não é essa a sua intenção.  Não consigo conter os gritos silenciosos que engasgam em minha mente. 

– Você vai contribuir com o avanço da ciência, devia estar contente. 

Não, não estou nem um pouco contente! Me tira daqui! O que você fez comigo? Ou melhor, o que você vai fazer?? Sei que é em vão, ela não pode me ouvir, mas é mais forte do que eu. O medo me deixa histérico, se não estivesse paralisado estaria berrando como uma garotinha assustada. Ela cola fios em meu peito com alguma coisa gelada e gosmenta, sinto suas mãos enluvada ajeitando os fios, sito cada toque, mas não consigo mover um músculo, só os olhos, abro e fecho, consigo engolir e respirar, e meu coração está batendo, é tudo que eu sei. Uma máquina começa a fazer bip, bip, bip. deve estar monitorando meu coração. Agora ela cola os fios na minha fronte.

– Prontinho, querido! Podemos começar nosso experimento. Mas primeiro vou te explicar tudo. Como já disse eu sou médica e estou me especializando em dor, e levo as aulas prática muito a sério. Só tem um problema, é ilegal infringir dor às pessoas mesmo que seja para podermos entender melhor como curá-las, e é aí que você entra. Acho que a transa de ontem foi um bom pagamento para que eu use o seu corpo não é, querido. Escolhi você especialmente por ser forte assim, bronco, parrudo, tenho certeza que terá uma forte tolerância à dor. Tente aguentar o máximo que puder antes de morrer, combinado?

Bip, bip,bip,bip… o pânico me deixa ainda mais alerta e consigo sentir o suor escorrendo, a espera pela dor pode ser mais assustadora que a própria dor. Eu não tolero bem a dor coisa nenhuma, espero ter um ataque cardíaco o mais rápido possível, nunca rezei na vida, mas agora é com certeza a hora de começar! Ave Maria cheia de graça…

– Posso ver o pânico nos seus olhos, e a máquina aponta uma aceleração no coração… é incrível como posso te causar dor só com as palavras. Calma, respire fundo, ainda nem comecei, poupe suas energias. O dia vai ser longo.

Ouço ela pegar um instrumento no meio dos outros, o som de metal faz meus pelos eriçarem, ela me mostra um bisturi, já tinha visto antes nos programas de tv, mas nunca tinha sido tão aterrorizante como agora. 

– Vamos começar com uma dorzinha à toa, tudo bem? 

 Não! Não está nada bem! Para com isso agora, me deixa sair! Ela segura minha mão e coloca o bisturi debaixo da unha do meu dedão, com uma lentidão sádica ela vai cortando minha carne e a espera pela dor não é pior que a dor não! A dor é aguda, pulsante, insuportável. Bip, bip, bip, bip… Não consigo  pensar em mais nada, ouvir nada, ver nada, só me concentro em respirar. A dor piorou de tal forma que parece que ela está arrancando o dedo, mas não consigo saber com certeza. 

– Isso, muito bem! Sabia que você aguentaria. Agora vou intensificar um pouco, tente não entrar em choque, estou preparada para te trazer de volta, mas queria não ter que usar o desfibrilador muitas vezes hoje.

Só essas palavras já me aterrorizaram ainda mais, a espera por algo ainda pior é terrível! Ouço o barulho de um motor sendo ligado e logo ela coloca diante dos meus olhos uma serra que provavelmente usaria para serrar ossos. Assim que ela baixa o instrumento uma dor inimaginável faz meu braço todo pulsar, não consigo entender o que ela está fazendo, mas o som e o cheiro de osso queimado me dá uma dica. Depois de uma eternidade de dor em alguns minutos, ela levanta triunfante meu braço, serrado na altura do cotovelo. O som da serrinha cessa. Agora só o som pulsante de meu sangue se esvaindo.  Um forte enjoo atormenta meu estômago. A luz e o som parecem diminuir. Bip,bip,bip,bip.

– Ainda não, meu bem! Trate de acordar.  – Ela diz mostrando uma injeção. 

O sentimento de alívio que o quase desmaio me dá acaba logo. Meu coração parece normalizar para meu completo desespero. Ela parece extremamente feliz em me causar tanta dor, vai cortando, serrado, abrindo, cutucando e não me deixando desmaiar. 

Nunca imaginei como seria sentir a mais completa agonia. Pensei que nunca experimentaria um estado de terror completo. Como havia me enganado! A dor é maior do que eu poderia imaginar ser possível em  um ser humano, nem sei mais onde ela me corta, ou o que faz comigo. Imploro a Deus por uma morte rápida. Não quero ser salvo, passei do limite onde poderia me recuperar do trauma. Não há mais esperança para mim. A morte é meu único anseio. A ausência da dor, o nada, a paz absoluta. Não deveria demorar muito mais agora. 

Quanto tempo se passou? Não sei dizer, parecem dias, anos, eras. Posso perceber a loucura aumentando cada  vez que ela me olha, a satisfação, a crueldade, o poder. Ela se sente onipotente. E eu penso em minha vida de rapaz despreocupado. Uma vida inútil. Totalmente desperdiçada. Como eu poderia pensar que terminaria assim, que não teria chance de ser alguém? Lágrimas umedecem meus olhos. Os gritos silenciosos param. 

Em meio ao tormento, imagens de minha mãe invadem minha mente, sua doçura, sua voz cantando uma canção de ninar, a magreza exagerada mesmo aos olhos de uma criança e a falta que ela deixou ao morrer. Sinto seu perfume tão doce. Logo estarei com a senhora, mãezinha…

Bip, bip, bip… bip… bip… … bip… … … bip … … … … …

Meu desafio: Escrever um conto de terror. Aceito todo tipo de dicas e sugestões.

Osb: Texto editado dia 26/05 depois do comentário da Fernanda! Obrigada! 😉

12 comentários em “Gritos silenciosos – Psicopata

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  1. Olá, Psicopata, que texto angustiante. Não sei se foi terror o que conseguiu causar, talvez mais uma repulsa, uma angustia, desespero mesmo… o que está dentro dos genêros terror e horror (talvez nesse caso mais horror). Devo parabenizá-la. Consegiu prender minha atenção apesar da minha vontade ser a de não ler mais aquilo rsrsrs.
    Algumas falhas na revisão. Vale citar: Sem exitar = sem hesitar. Ouvi (ouço, pq está usando o presente) o barulho.
    Mesmo sendo um texto pavoroso, você conseguiu usar humor em algumas passagens, o que nos deixou respirar um pouco.
    Achei os diálogos muito longos.
    Se este foi o seu primeiro terror, posso dizer que estava bastante inspirada.

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  2. Olá querida Contista,

    Eu gostei. Para quem não escreve terror/horror, tu te saíste muito bem. Para ter uma ideia, achei a atmosfera parecida com as das tramas de uma sequência de contos do Lovecraft em que um cientista, tão psicopata quanto a tua personagem médica, faz experimentos com ressuscitação de pessoas recém mortas. Achei bem construído, principalmente para uma primeira vez.

    Me incomodou um pouco o seguinte trecho: “e a espera pela dor não é pior que a dor não!”. Esse último “não”, a meu ver, é um vício de fala, coloquial, que é desnecessário na escrita. Mas é um detalhe.

    Parabéns por cruzar essa fronteira. Se quiser continuar, te recomendaria ler Edgar Alan Poe e Lovecraft. Eles estão me ajudando a cruzá-la também.

    Beijos

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  3. Desafio cumprido. Boa trama, suspense, sentimento de medo e expectativa que precede uma experiência horrível.

    Horror é o sentimento de repulsa que geralmente ocorre depois de uma ocorrência profundamente desagradável, que também ocorre no texto. Em outras palavras, horror está mais relacionado a ficar chocado ou assustado, enquanto o terror está mais relacionado à ansiedade ou medo. Assim seu conto se classifica como terror/horror.

    Parabéns pelo trabalho. Abraços.

    Curtido por 2 pessoas

  4. Olá. Sou fã apaixonada por terror e suspense. Psicopatas, então, são meus favoritos. Pelo título achei que o narrador seria o psicopata, mas é a própria vítima! Como leitora de terror, gostei bastante, então acredito que o desafio foi concluído com sucesso! E agora que já começou, continue escrevendo nessa linha, hehehe.
    Abraços ❤

    Curtido por 1 pessoa

  5. Ai, que medo de cruzar com algum psicopata! Quis parar de ler de tanta aflição que estava me dando. Acho que isso é um bom sinal em questão de conto de terror.
    Notei errinhos, mas de digitação: ” sinto suas mãos enluvada” > enluvadas
    “sito cada toque” > sinto.
    O enredo está bem construído e desenrola bem, só considero que a doutora psicopata foi muito didática, e deu muita explicação sobre a razão de estar realizando aquele procedimento sádico.
    De resto, é um conto que causa terror mesmo. Parabéns pela sua “terrível” estreia. Desafio cumprido à risca.

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  6. Olá, Psicopata!
    Misericórdia!! Que coisa terrível! Me parece que você conseguiu cumprir seu desafio… não entendo de terror, mas esse conto parece bem terrível kkkkk
    Fiquei imaginando se existe pessoas que realmente teriam coragem de fazer isso… e infelizmente, os noticiários nos mostram coisas piores…
    Achei interessante que você optou por colocar uma psicopata mulher, o que é mais raro… existem poucas na literatura e na vida real.
    Outra coisa legal também foi não ter explicado o porque da paralisia, ficou subentendido, você podia ter explicado muito menos também os motivos da protagonista, se bem que nos filmes e séries, eles gostam de se gabar e aterrorizar as pobres vítimas com detalhes sórdidos do que pretendem fazer com elas…
    Parabéns e boa sorte!
    Até mais!

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  7. Quase não consigo ler este seu conto. Confesso que pulei algumas partes. Apesar de escrever terror costumeiramente, sou muito sensível para algumas coisas. Uma delas é a tortura. Parabéns, moça. Seu conto é terrível, angustiante, e sem esperança. Ademais você conseguiu provocar toda esta agonia sem apelar, sem vacilar e sem falha. Parabéns, querida. Um grande abraço e sorte no desafio

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  8. Olha, que se a Iolandinha disse que vc cumpriu o desafio… é porque cumpriu mesmo! Eu também acho. Não sou de me “assustar” com textos de terror, isso é muito raro. Mas lendo seu conto me deu aqui uns arrepios várias vezes. Talvez tenha me identificado um pouco, eu tive paralisia noturna durante muitos anos e é realmente um terror. Mas vc usou tb umas imagens… bisturi sob as unhas? Doeu em mim! Minha única consideração: “Lágrimas umedecem meus olhos.” Nessa hora já era pra estar chorando compulsivamente, com espasmos, feito uma criancinha. Eu estaria… rs Parabéns, ficou muito bom isso!

    Curtido por 2 pessoas

  9. Querida Contistas,

    Parabéns por ter cumprido seu desafio com maestria.

    Este é um genuíno conto de terror, um de horror, com cenas muito fortes e até reais. A narrativa está construída de modo a manter a tensão no leitor durante todo o texto, acompanhando o personagem através de seu próprio ponto de vista, torcendo por ele enquanto ainda há tempo e, desejando que tudo termine logo, no momento em que não há mais volta.

    Mais que isso, pode-se sentir e temer a dor que o personagem sente.

    Há uma ótima dose de ironia na fala do personagem.

    A única ressalva é uma pequena revisão necessária, já apontada pela Fernanda acima e que me fez pensar que o conto também funcionaria com perfeição, se escrito no tempo presente.

    Parabéns por se (nos) desafiar.

    Siga escrevendo terror, você o faz bem demais.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  10. Vc realmente escreveu um conto de horror, uiaaa…confesso que detalhes sempre me deixam apreensiva, mas aqui vieram como detalhe importante na sua construção.
    Gosto muito de terror e se vc também gosta, vá em frente!!
    Grande abraço!!

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