pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

Deixei-a abandonada; quando voltei, sem surpresa quase, notei que ela se fora: o poster estava vazio.

Agora a moça estará em seu apartamento, com o terceiro marido ou com o quinto amante. Envelhecida, não mais com o corpo fixado em eternidade na propaganda do pneu: Dunlop. O ano, 1971.

Tudo o que aconteceu comigo aconteceu porque aconteceu. De alguma forma eu trazia a vida vivida e em viver contínuo-descontinuada para cá. Mais precisamente, a vida eu-outros-e-lugares, depois da elaboração por dentro; vida revivida e a viver:

Na TV nada se cria, tudo se copia!

Eu não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir.

Quem não se comunica, se trumbica!

Auditório ululante. Rostos e bananas. Um jovem sem braços pintando com um lápis na boca. Calouro e calor. Colares. Pernas e botas. Outro rapaz sem braços penteando o cabelo com os pés.

A mulher da ferida mais feia. Palmas para ela que ela merece…

Palmas para o casal de que roubaram a criança recém-nascida, à porta do hospital.

Dois mil cruzeiros para o defeito físico mais impressionante.

Feridas e shorts. Risadas e pernas. Depois a mulher que viu o disco-voador e os homens verdes.

Uma mancha nas costas: foram os homenzinhos! Lançaram-lhe um foco de luz nas costas.

Daqui a pouco a mulher que tira agulha do corpo.

Vocês querem bacalhau?

Rostos e nádegas. Nádegas de shorts. Nádegas de sorte. O coronel que teve 54 filhos.

Black is beautiful. Black is beeeeeau…tiful. São Paulo, Capital São Paulo. Minas Gerais, Capital Belo Horizonte. Casas da Banha, o caso do banho, o barato é um fato, um fato barato, compra um, leva dois, roda, roda, roda.

Então chegou a minha vez. Disse o meu nome e endereço, o nome da música.

C -R- U – Z – E – S… (uma voz em falsete me cortou o cérebro) O que é mesmo que a senhora vai cantar?

Primeiro vou recitar um poema. O microfone foge, abaixa, sobe. Executo movimentos ridículos. O público vaia. Estou suando. Entraram os comerciais. Close. Comecei a recitar. De minha boca saíam versos ridículos. Ajeitei o bacalhau no pescoço. Vou cantar. Agora vou cantar!

 

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Uma história pra contar de um mundo tão distante

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

 

Vai para o trono ou não vai? Vai ou não vai? vaiiiii! Sentei no trono tosco. Acenava para minha corte de mudos e coxos, de deformados e excepcionais, de crianças automatizadas, homens peludos, acrobatas e prestidigitadores. O trono se moveu e todos me acompanhavam coxeando, tartamudeando, expondo as feridas, gemendo, gesticulando. E palmas estralavam. Clap clap clap pra mim. O povo sem voz, o homem sem braços, as feridas bonitas, os defeitos cafonas, o mendigo mais simpático, o louco mais manso.

Ela merece. Ela me – re – ce! O auditório de pé. Uma noite magnífica. A produção recebeu parabéns.

Casas da Banha, uma família servindo o povo.

 Viva meu trono. Viva minha coorte, meu país, meu sonho. Viva Terezinha; miau para as gatinhas. E aqui, meus velhos guerreiros, condecoração para vocês. Vocês foram bravos, valentes, empunhando lanças apoiadas nos dentes, brigando sem pés, matando sem forças, o povo assistindo.

Até a próxima semana. Três mil cruzeiros para o homem que tiver mais doenças e prêmio especial para o louco mais autêntico. Não percam meus súditos, não percam meus sujos…

 

 

Depois fui em busca de dona Ofélia e seu Bento. Mansos, velhos, contavam vagas histórias nas noites intermináveis. Representavam um mundo seguro e bom.

Fui ver o que o tempo tinha feito com eles. Encontrei um pedreiro mexendo nas telhas do casarão que deveria ser intocável. E perguntei deles, ressuscitando a voz da infância: cadê a dona Ofélia e o seu Bento?

O pedreiro fez o eterno gesto intrigado de voltar a cabeça, em incômodo, e disse sem esperar surpresa: estão chocando. Com as galinhas.

Eu me aproximei. Encolhiam-se em enormes balaios e não queriam ser incomodados. Durante horas esperavam o ovo que não vinha. Iam para dentro, comiam, voltavam sempre. À noite sonhavam com lindas ninhadas e se bicavam ruidosamente.

Eu passei pelos balaios e não pude colher o passado.

 

 

 

Meu desafio é fazer uma viagem por três momentos malucos do passado. Busquei despertar no leitor uma versão mais pictórica da realidade que, muitas vezes, aparece como insípida, fundindo o universo mágico à realidade, mostrando elementos irreais ou estranhos como algo habitual e corriqueiro, de forma intuitiva (sem explicação). Procurei, ainda, inovar no formato e no suporte do texto.

11 comentários em “pASSADO é pASSADO (1971)

Adicione o seu

  1. Olá 1971, seu texto é bastante criativo e interessante. Foi legal ir acompanhando as lembranças contadas de forma tão leve e fluida, tornando-se um texto gostoso de ler. A inclusão de música, citações, ditados foi dando um ritmo interessante ao texto. Desafio cumprido. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Não sei o que dizer, na verdade não entendi nada, rsrsrs. Em 1971 nem minha mãe ainda tinha nascido hahaha. Algumas frases eu reconheci como sendo do Chacrinha, certo? Mas nunca assisti a nenhum programa dele, não sei como era naquela época. De acordo como descreveu ser o desafio, imagino que foi concluído, porque realmente causou estranheza insípida.
    Abraços ❤

    Curtido por 2 pessoas

  3. Que desafio! Estou ainda tonta com as vindas e idas no tempo. Claro que fui favorecida na leitura pela identificação com lembranças do que também vivi. Ao contrário da jovem Vanessa (minha filhinha de <3) , já era nascida em 1971, embora muito criança. Não vi muito o Chacrinha, mas nem precisava, pois era parte da cultura que nos cercava naqueles tempos.
    O fluxo do conto é uma doideira, e por isso tão inusitado e contagiante. Meus neurônios deram pulos de excitação causada pela sucessão de lembranças já vividas e surpresas do que não vivi e talvez nunca viverei.
    A frase final me pegou. Adorei.
    Desafio cumprido, sem dúvida alguma. Ousadia e criatividade preencheram todas as linhas do seu conto. Parabéns pela coragem de se impor tamanho desafio.

    Curtir

  4. Nasci em 72, minhas lembranças são disso tudo. Visualizei completamente a foto do poster, a propaganda de pneu, o bacalhau, os calouros e a exploração midiática das “aberrações”. Outros tempos, nada disso teria espaço hoje em dia. Eu segui a viagem numa boa, curtindo o estilo, adoro essas escritas “fora da forma”, nada triviais. Me instiga. Mas confesso que o final, apesar da linda imagem poética, me deixou meio no ar, como se faltasse um pedacinho da história ainda. E tenho uma desconfiança de que sei quem escreveu esse conto… 🙂

    Curtir

  5. Olá, 1971!
    Nossa… não vivi nesse passado, então não entendi nadinha de nada… pra mim foi só um misto de frases soltas, que devem ter algum sentido para quem presenciou esse passado, mas pra mim não tem… desculpe… não sou uma pessoa muito indicada para te falar se o desafio foi cumprido ou não… nem sei como julgar o seu conto…
    Parabéns e boa sorte!
    Até mais!

    Curtir

  6. Eu diria que consegui identificar todas as referências na sua narrativa, entretanto minha memórias são bem diferentes das imagens sugeridas, o que comprometeu um pouco a empatia com o texto. Acho que você foi muito bem sucedida no seu desafio nos apresentado um texto fora da caixa, atraente, muito bem escrito e instigante. Soou-me como um derramar de memórias e me inspirou a produzir algo na mesma linha. Parabéns. Desafio cumprido com louvor.

    Curtir

  7. A chave do texto, talvez, esteja no primeiro parágrafo: “o tempo é a alma do espaço”.

    São três espaços explorados: a menina invejando a beleza da modelo; vendo o mundo pela tevê da época (Programa do Chacrinha) e a convivência com os vizinhos que tinham uma vida rotineira. A protagonista não pode “colher” o passado, pois não há como retornar; lembrei o ditado popular: “não adianta chorar sobre o leite derramado”.

    Prosa poética que se orienta pelo ritmo interior no agrupamento de imagens captadas pela sensibilidade e projetadas pela sugestão. Uma articulação à maneira surrealista, na qual é provocado mais um estado de espírito do que uma realidade narrativa de combinações estáveis.

    Desafio cumprido. Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Querida Contista,

    Em primeiro lugar, parabéns pela bem sucedida ousadia.

    Seu texto tem uma pegada surrealista e faz lembrar uma máquina do tempo visitando momentos do passado, como uma câmera observadora que registra cada momento sem se fixar nele por muito tempo.Esta “câmera” funciona com o ponto de vista da Menina que, ao passo que explora seus sentimentos (seu interior – com um olhar voltado para dentro de si), percebe em flashs o mundo a sua volta (o exterior, com o Programa do Chacrinha e o cotidiano com a vizinhança).

    Penso que, para o leitor que não tem as referencias do passado o texto deverá funcionar de modo diverso, porém, igualmente proveitoso.

    Gostei!

    Parabéns
    Beijos e obrigada por se (nos) desafiar.
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  9. Olá, querida Contista,

    Eu adorei. Adorei.
    Esse conto carrega e produz uma miscelânea de sensações e por isso reconheço uma forte carga poética nele.
    É experimental pois não traduz necessariamente as características de um conto, não está num tempo delimitado, nem num lugar, nem tem início, meio e fim claros, mas tem um personagem-olhar que nos carrega por lembranças, visões e sonhos.

    “o tempo é a alma do espaço”, espero nunca me esquecer disso.

    Parabéns!

    Curtir

  10. Gostei muito desse texto…mesmo não tendo vivido essa época, vivi os dez anos à frente, que ainda traziam muito dessa cultura.
    Me vi criança, na casa da minha avó, assistindo ao Chacrinha, depois de ir com ela nas Casas da Banha…não sei, me deu uma nostalgia…
    Seu texto faz sentir, e muito, e isso pra mim é tudo.
    Parabéns!!
    Desafio cumprido.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: