Culturar (Juliana Calafange)

Cultura popular, oriental e haikai

Samba do brasileiro ensandecido e seu forró arretado de doido

Cultuando o culturar

Pela via do dia-a-dia

Que é a rotina ardente não descontente

Dos descamisados desnecessariamente úteis

Dos yogues urbanos ufanos

Dos mestres de rua do mundo da lua

Culturar é mistura do barro do morro do choro

Da interseção intrínseca à vida marginálica

Do que há de saber e de poder em tudo

Que existe e todo dia insiste

Nesse mundão de meu Deus

Nesse marzão danado sô

Culturar é viver sem dó

É um chiado de chaleira e chinela carioca

Que cruza o sertão gaúcho até os pampas do nordeste

Vai do mar azul tranquilo ao enfumaçado crepúsculo

Dos deuses ao candomblé

Do terreiro do jongo sombra do frevo fandango do axé

Que desce do trem para o asfalto do chão para a sarjeta

Culturando a lama na babel claustrofóbica de luzes à noite

De pequenas igrejas de grandes negócios

Nas mega cidades feitas de casebres e vielas e ruelas e rebimbocas

Cultura de onde vive a gente sem pena

Contando os dedos os dias e os tostões

Cortando na carne na alma e no bolso

Meu povo é bendito no reino dos céus e no banco dos réus

A plebe cantada por anjos em todas as bocas de todos os lixos.

Nunca saberão eles, os nobres elevados, a nata dos tolos, coitados

Jamais conhecerão a majestática beleza do eterno culto

Do saber que emana do poder de culturar e (re)criar

Que esse povo mareado das carafavelas tem.


Meu desafio: escrever um poema, que é coisa que adoro, mas acho que não sei.

Imagem: “Gracias, Pablo!” by Renato Aroeira, 1993.

código: Em Construção (para “sim, quero críticas e mais críticas construtivas!”)

OBS: O conto foi revisado no dia 07/06, após o comentário sobre a palavra majestática. Obrigada, Claudia!

10 comentários em “Culturar (Juliana Calafange)

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  1. Olá, tudo bem? Achei a sua proposta bastante interessante. Percebi que a minha leitura se acelerava a cada verso, como que imitando a velocidade de uma grande metrópole, construída de tantos pontos de vista, de tantos passados e culturas. Foi uma delícia!
    Apenas fiquei em dúvida do uso de magestática ao invés de majestática – foi um neologismo proposital, misturando imagem com majestade? ou ainda imagem com estática. Majestática seria algo relativo à majestade; majestoso, o que se encaixaria bem ao sentido do verso.
    O seu desafio foi cumprido com louvor. E você sabe sim escrever um poema!Forte, cheio de significados e ritmo que me atraiu muito. Parabéns!

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  2. Eu achei seu poema bem interessante. Começando pelo ritmo, senti uma cadência, assim, meio quebradinha que combina muito com a proposta de falar sobre a cultura popular. isso ficou muito bom. Esse ritmo também se harmoniza perfeitamente com os contrastes em torno dos quais o poema se constrói.
    Já que você pede criticas, algumas rimas internas me agradaram muito, outras nem tanto. Rimas são sempre um problema. Por exemplo, ardente/descontente, não me soou muito interessante. Já barro-do-morro-do-choro, adoro. Jongo/sombra/fandango, também adoro. Há outros recursos que você usa como a repetição de estruturas, um eco de proparoxítonas intrínseca /marginálica, enfim, que me distraíram bem enquanto lia seu poema.
    Em geral, gostei bem das imagens que você evoca ao longo do poema, com algumas poucas exceções não tão inspiradas. Adorei os quatro verso que fecham o poema.
    Finalizo dizendo que adorei a imagem e acho que você passou no teste do poema, querida contista. Beijo grande.

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  3. Olá, querida Contista E POETA!

    Desafio cumprido.
    Poema faz sentir, nos joga do assento, nos arrasta pelos cabelos, nos serve comida fria.
    Poema é sentir.
    Teu poema faz sentir, dá a letra de forma clara e divertida:
    Aqui nesse nosso país, coloque o nome que quiser, nossa cultura é tão rica, tão multifacetada e misturada, que existe o verbo “culturar”.

    Além de recursos de linguagem poética, a construção tem boa sonoridade e a aliteração funcionou.

    Parabéns!

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  4. Olá, Poeta!

    Você sabe fazer poesia sim! E muito boa! Devia investir nisso.
    Seu poema está forte, conciso, poderoso, não está clichê ou piegas, não pode ser classificado como comum, é retumbante e majestoso! Você tem o dom! Gostei bastante da desconstrução, da ausência de rimas e métricas. E além de tudo ainda tem uma mensagem que se faz clara, mas não óbvia!
    Parabéns! Boa sorte!
    Até mais!

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  5. Olá, você certamente sabe escrever poema sim. E que delícia de poema, tão vivo e latente que soou aos meus ouvidos como música, um rap, talvez. A leitura cadenciada, as palavras colocadas nos lugares certos para dar movimento, fazer sentido e passar a sua mensagem. Parabéns Gostei.

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  6. Já falei que não entendo de poesia, mas gostei dessa cadência, como uma pedra rolando ladeira abaixo, ganhando velocidade. me senti rolando junto nessa ladeira, e por onde passava, via as cenas descritas pelas palavras, que aliás combinam bem com a imagem escolhida para ilustrar o texto. Parabéns!

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  7. Do título me vieram duas ideias: um neologismo: (criar cultura) ou a corruptela da palavra “cultural”, para retratar a nossa miscigenação e as manifestações populares.

    O texto, ao mostrar a união de diversos mitos, folclores, músicas populares e lendas, lembrou-me “Macunaíma” e sua potência criativa, de explicar o brasileiro a partir dessa colagem cultural e da busca pela identidade nacional: “quem somos, afinal?”

    O texto pareceu-me ousado, tecendo uma crítica, de modo irreverente, irônica; mas o seu desafio não era esse, e sim escrever um poema. Desafio cumprido, pois o texto se apresenta em forma de versos, estrofes com rima e ritmo, manifesta sentimento e emoção através de uma linguagem que emociona e sensibiliza o leitor.

    A poesia presente no texto é a componente que distingue o poema.

    Parabéns pelo trabalho! Abraço!

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  8. Querida Contista,

    Também ando querendo me aventurar na poesia, e, o que me trava é o estudo do formalismo, do conceitual de rimas e tudo o mais. Creio que sou muito crítica comigo mesma nesse sentido, embora saiba que a poesia contemporânea não seja mais engessada de modo algum.

    Em sua muito bem sucedida experiência no desafio, a poesia deixa de lado o eu lírico e explora uma crítica social muito bem construída. É uma poesia, mas, por outro lado, é quase uma crônica de nossos tempos.

    Concordo com a Priscila, quando diz que, embora claro e cotidiano, o tema não cai no clichê, tampouco na obviedade.

    Gostei!

    Parabéns

    Beijos e obrigada por se (nos) desafiar.

    Paula Giannini

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  9. Olá, Contista e Poeta!!
    Desafio cumprido, e muitíssimo bem cumprido.
    Senti cada verso em sua cadência, temas atuais, fortes, vívidos.
    Funcionou muito bem e vejo muita criatividade na escola do desafio.
    Excelente,
    Bjokas!!

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  10. Não entendo nada de poesia, poema, rimas… Não leio também, mas o desafio foi cumprido. Nós somos uma mistura de culturas e povos, ritmos e vivências. Parabéns!
    Abraços ❤

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