Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

Novo Vírus

Tatiana Portella

Abraçar uns aos outros era a ordem. Naquele dia todos os costumes eram os mesmos. Uns tomaram banho, outros só lavaram os olhos e escovaram os dentes e pentearam os cabelos. E foram comer. Alguns encontraram com outros moradores da casa. Havia pessoas na casa. Filhos, esposas, maridos, pais, mães e avós e outros moravam com amigos e colegas de estudo. Uns em seus próprios países e outros em países distantes. E ao encontrar com outros tiveram que abraça-los.  Abraçar uns aos outros. Abraçar uns aos outros era a ordem. Pelo menos uma pessoa, tinham que abraçar. A cada duas horas, durante o dia, uns tinham que abraçar os outros e vice e versa. Abraço forte e longo. Tempo suficiente para não se contaminar. 

Três meses antes todos que acordaram naquele dia, de marco zero, e passaram mais de duas horas sem abraçar ninguém, morreram. 

Se contaminaram com um vírus novo que usava o sistema nervoso central para se multiplicar e a morte era dolorida e feia. Toda morte é feia e nela não há dignidade. Caiam no chão duros e secos depois de uma forte convulsão. Caiam sozinhos em casa ou até nas ruas e em transportes públicos. Todos entraram em pânico. Ninguém era capaz de entender o motivo e a atividade viral. As necropsias só revelavam a causa da morte e que era um novo vírus mas era impossível prever sua transmissão. 

Então as pessoas correram para suas casas e se isolaram para evitar a contaminação e passadas horas e dias morriam em casa isolados. 

Passou a se especular que era inevitável a extinção da raça humana, pois as pessoas não podiam se precaver ou evitar o contágio. 

Então alguns foram se despedir de seus entes queridos, seus amores, seus pais, seus filhos, seus amigos, seus guias e ao final de um longo e forte abraço não morreram. 

Esperaram a morte. 

Juntos. Esperaram morrer juntos. 

Famílias ficaram abraçadas esperando o fim. Iam acabar juntas num abraço. Amantes se amaram em intenso extase  e esperaram a morte nus, abraçados na cama quente e suada. Filhos abraçaram seus velhos pais, que já não tinham lucidez ou sequer lembravam seus próprios nomes ou de seus filhos, mas foram amados e abraçados à espera da morte. Os sozinhos, que moravam sós, abraçaram seus bichos, seus cachorros, seus gatos, seus passarinhos e esperaram a morte. Houve gente que no desespero de morrer só foi até o vizinho e lhe pediu um abraço antes do derradeiro suspiro. Gente que nunca se viu ou se falou pediram abraços. Como se o abraço confortasse na hora da morte. 

Mas a espera não teve fim. 

A morte não chegou. O medo não diminuiu. A dúvida aumentou. A morte não chegou. 

No outro dia, as notícias de alguns mortos. Os sozinhos. Os que esperaram a morte abraçados viveram. Todos. 

Então se entendeu que abraço era a vacina para não morrerem desse novo vírus. 

O isolamento foi proibido. O abraço forte e longo foi decretado como obrigatório. Ninguém podia ficar mais de duas horas do dia sem abraçar outra pessoa. Então todos se abraçavam na rua, no metrô, dentro de aviões em viagens longas, nos comércios, nos restaurantes. Homens de negócios paravam seus importantes assuntos e abraçavam as faxineiras. À noite os estudantes voltavam das faculdades e abraçavam os garis e não se importavam com o cheiro do lixo. 

Não se importavam com a cor da pele, gênero, classe social. Não se importavam com a barba, tatuagem, corte de cabelo ou marca das roupas de usavam. Não se importavam com a profissão, salário ou se tinham os dentes perfeitos. 

O abraço salvava a vida. O abraço salvou a humanidade. O abraço era mais importante. Mais que o petróleo, que o dinheiro ou a água. Todos precisavam de todos. E todos tinham como salvar a vida de todos. Até os que não tinham braços para abraçar, salvavam vidas encostando seu tronco em outro alguém. 

A cura era simples e acessível. 

E ninguém que abraçou morreu. 

E ninguém cobrou por um abraço. 

E o abraço salvou. 

E juntos viveram. 

xxx

*Tatiana Portela é bailarina e escritora.

39 comentários em “Para Inspirar – Novo Vírus – Tatiana Portela

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    1. Adorei! Mto lindo! 😍Realmente! um abraço tem a capacidade de evitar os males causados pela indiferença!🤗❤
      Parabéns Tatiana Portella!👏👏👏

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  1. Ótima publicação sobre o abraço, a vida, a morte e sobretudo, sobre gente. Sobre ser humano, ser animal, ser vivo.
    Um grande abraço Tati.

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  2. Lindíssimo conto, minha querida Tati!
    Traz a essência do verdadeiro sentido para o ser humano…amar mais!
    Parabéns e muito sucesso linda!

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  3. Um conto bem escrito e bem articulado, cujo texto retrata a real situação atual, que conduz o raciocínio do leitor e que torna a leitura agradável, cumprimentos à autora!

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  4. Um conto muito bem escrito e articulado, cujo texto retrata a real situação atual, que conduz o raciocínio do leitor e que torna a leitura agradável, cumprimentos à autora!

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