De volta ao paraíso – Amana

O prédio agora era uma construção tão desfigurada pelo tempo e pela desgraça, tanto quanto ele mesmo era. As estantes empoeiradas, os livros há tanto tempo fechados. Há quantos anos não eram mais tocados pelas mãos de leitores ávidos pelas histórias neles oferecidas? Mãos como as dele.

Antes da fatalidade lia muito, sedento por histórias a lhe proporcionar momentos em lugares inimagináveis, para onde ele talvez jamais fosse. Quando poderia estar no mar, caçando Moby Dick? Ou na selva, com Mogli? Ou na Inglaterra coberta pela névoa, cuidando de um jardim secreto?

Não entendia a sensação daquele instante: um misto de alívio e tristeza, um tanto de alegria, tudo encoberto pelo desânimo. Não houve contato com qualquer pessoa nos últimos dias, mas não podia negar: estava realmente se escondendo do restante do mundo. A sensação de ser o único homem da face da Terra era cada vez mais forte e até preferia se sentir daquela forma, tornaria tudo mais fácil.

Se procurasse mais, se fosse mais longe, encontraria alguém, mas quem? Em qual condição? Estaria ainda com um mínimo de lucidez, como ele julgava estar? Estava cansado. Exausto para qualquer resistência. Talvez os não-infectados fossem ainda mais infelizes que os monstros a vagar com a chegada da noite. Assim como ele, traziam consigo uma vida, trabalho, família, sonhos, planos, agora esquecidos em algum lugar inatingível de suas mentes atormentadas, transformadas, mas nada podia fazer a não ser lutar por sua sobrevivência. A necessidade ensinou-o a matar de forma rápida e piedosa. Um corte na jugular era o suficiente. Até quando conseguiria? A certeza, quase inexistente. Ou não precisava mais dela.

Para falar a verdade, onde estava agora a sua vida, aquela da qual não se orgulhava muito, mas que era sua? Diante disso, também podia se considerar ainda completamente humano? Era forte a sensação de ter morrido há muito tempo, quando todos os familiares e amigos se foram durante seguidos ataques. Perder a conta dos dias: sua saída para não enlouquecer.

Passou os dedos sujos pelas lombadas empoeiradas, uma sensação familiar por debaixo daquele pó, algo como aconchego, ser tomado nos braços e confortado. Lombadas parecendo dizer “bem-vindo”, convidando-o. Quanta coisa preciosa perdida…
Algumas edições estavam no chão, onde o homem notou várias marcas, pés e mãos gravados na poeira. Os seres agora precisavam se locomover com a ajuda dos quatro membros.

Estiveram ali.

Poderiam voltar ao anoitecer.

Em sua mente, as informações eram processadas aos poucos, só as coisas mais urgentes.

A certeza: ao anoitecer as criaturas voltariam, apenas isso ocupava agora todo o seu pensamento. Porém, diferente do estado de alerta criado das outras vezes em que precisou montar guarda, agora a sensação era outra.

Resolveu não fugir, estava mesmo cansado.

Não fugir mais.

Estava cansado.

Já não se alimentava quase e do que sentia mais fome era de se sentar e ler, de se esquecer de todo o resto, de não ter qualquer outra preocupação, de não pensar mais em nada. Por isso resolveu voltar àquele local. O preferido de sua juventude, onde passava horas distante dos problemas do cotidiano, escolhendo a próxima aventura a ser vivida, o próximo mundo a ser conhecido, qual civilização descobriria.

Na estante de literatura fantástica, após tantos títulos observados, um chamou-lhe a atenção por ser velho conhecido: “Vinte mil léguas submarinas”. Verne. Nunca conhecera o mar, mas era sua aventura preferida. Chegava a ter fobia quando o assunto era nadar, mergulhar, quase se afogara algumas vezes tentando aprender e, no entanto, quantas vezes desejara estar ao lado de Nemo e Aronnax, a bordo do Náutilus? Quantas vezes participara daquela aventura? Perdera a conta.

Sentou-se em uma velha poltrona para viver aquela aventura uma última vez, voltando a ser quem era por algum tempo. De novo o mar, tal qual um velho conhecido, um mundo de fantasia há muito abandonado. Não sentiu mais nada, nem fome, nem sede. Só desejava viver aquela história uma única vez mais, o importante agora era estar a bordo do submarino, em um derradeiro reencontro com velhos amigos.

“Borges estava certo. Estou no paraíso. E aqui ficarei”. Agora compreendia as palavras do escritor ao comparar tudo aquilo com o Jardim do Éden. Aqueles livros eram como frutos e por um tempo tinham sido proibidos, quando a maior urgência era se manter vivo. “É preciso estar alerta, é preciso fugir. É preciso sobreviver.” Três situações que dominavam suas atitudes.

Durante a leitura as horas passaram, sem a necessidade de contá-las. Ao anoitecer vieram as criaturas. Observaram por alguns instantes o ser imóvel na poltrona, abraçado a uma coisa estranha, no rosto molhado um sorriso.

Apenas alguns segundos de contemplação, antes de darem vazão aos instintos.

26 comentários em “De volta ao paraíso – Amana

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  1. Olá! Seu texto remeteu-se ao filme A Lenda, o protagonista vivendo solitário uma situação extrema, contra criaturas impiedosas, mas aqui o narrador sucumbe, cansado de lutar contra a calamidade iminente, recolhendo-se ao único lugar capaz de resgatar-lhe a essência, na velha poltrona, na companhia dos velhos livros que o tiram da realidade pernóstica e cruel. Uma bela nuance, em analogia à situação de pandemia em que vivemos, só a literatura nos salva desse morticínio, dessa contagem mórbida de óbitos que a mídia nos joga na cara todos os dias. É preciso viver, mas ao mesmo tempo, resgatar nossa humanidade . Perfeito. Muito bom!

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    1. Obrigada, Sandra, pelo comentário. Na primeira versão dele, bem mais curta, escrita para o EC há alguns anos o pessoal reclamou muito de clichê de filme de zumbi rs. Acho que ao enfatizar mais a relação do homem com os livros consegui um efeito diferente… Apesar das mudanças, é mesmo possível fazer um paralelo com essa nossa realidade… Mais uma vez agradeço. E parabéns pelo livro! Em outubro tem outro livro da Penalux sendo lançado, vou esperar e assim comprar o seu junto. Eu lembro há algum tempo, quando falou do livro. Quero ler ainda esse ano!

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  2. Querida Bia,

    Tudo bem?

    Resolveu organizar sua criação em pseudônimos? srsrs

    Amei o texto, a ideia, a premissa, a metáfora. O que nos torna humanos que não nossa capacidade para apreciar a arte, o belo, a literatura? Assim, a humanidade perdida pela “criaturas” em uma pandemia (isso agora se tornou tão familiar, não?) é de certa forma confrontada com o que se perderá com a morte do último homem na face da terra, a centelha humana. Muito bom.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Sim, há algum tempo venho buscando usar outro nome para meus textos. Um dia até achei uma escritora com o meu nome na Amazon e ela aparece junto com os meus livros… Mas enfim, esse nome tem uma energia boa, remete a parte dos meus ancestrais e refletindo bem, “Bia Machado” não tem me trazido nada de inspiração, nada de muito interessante em produção escrita… A Bia Machado vai ficar só com a editoração mesmo, já é o suficiente rs. Obrigada por comentar!

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  3. Que conto! Quase uma premonição, hein? E o amor aos livros permanece como uma alternativa de fuga. O escape para o paraíso particular, o resgate da nossa humanidade. Bela metáfora. O fim é de arrepiar – nos dois sentidos. Parabéns!

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    1. Obrigada, Claudia! Você lembra desse conto lá no EC? Eu tenho mania de pandemias e pós-apocalipses nos contos, rs. Acho que vou dar um tempinho disso. 😄😄😄

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  4. Uma situação pós apocalíptica que no lugar de cair no clichê da luta diária pela sobrevivência, foca na luta diária pela sanidade. Deve ser mesmo muito solitário se imaginar como o último homem vivo do mundo.

    A paixão pelos livros e o mergulho no universo de histórias o mantém vivo, mas viver um dia igual ao outro acaba vencendo a sua resistência. Então ele se imola esperando uma morte terrível, brutal, se emocionando com a leitura de um livro que ama, de um autor que ama.

    Criativo, solitário e interessante. Gosto quando me mostram algo com tanta personalidade, mas sem ser hiperbólico. É exatamente este ar contido do personagem que dá o charme ao conto.

    Beijos.

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    1. Obrigada, Iolandinha! É engraçado como ao formar a história, a maior preocupação é a personagem… Mas quando escrevi o conto, que era bem menor, para um desafio, tinha menos de uma hora para enviar, não pude muito pensar em nada. Dessa vez foi diferente e foi melhor!

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      1. Não lembro do outro, mas com certeza eu gostei muito deste. Beijos.

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    1. Obrigada, Fernanda! Sem os livros para ler (e para escrever) a essa hora acho que estaríamos mais insanos do que muitas vezes já somos…

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  5. Uau. Conto que se passa num cenário pós apocalíptico, um homem envolto nas lembranças tão simples da chamada vida nirmal( questões não resolvidas, saudades, pendências) tentando manter-se vivo.
    A súbita e triste compreensão de que não dá mais. O fim, escolhido e aceito

    Resiliência.
    Parabéns, Amana…muitos aplausos!

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  6. Amei! Gosto muto desta ótica de não temer a morte, de se entregar ao inevitável, sem mimimis.. rsrs
    Mas, claro, só quando é inevitável e já se lutou até as últimas forças.
    Que é o caso deste personagem aqui e que redenção neste paraíso da literatura!
    Nos identificamos! 🙂
    O final ficou magistral!
    Amei Amana! Um pseudonimo que nos traz força e inspiração é o que há! Anorkinda que o diga!
    Parabéns,Amana!

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    1. Obrigada, Kinda! Realmente, acho que se eu estivesse no lugar dele, também faria a mesma coisa. Eu, a última pessoa no mundo, sozinha? Não, não… Uma hora o cansaço bateria, né? Então, acho que você já falou alguma vez, mas o que significa seu pseudônimo? O legal nele é que a abreviação (Kinda) me remete à palavra “kind”, que significa “gentil”, acho o máximo… ❤

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      1. Ahh que bom q vc lembra de gentileza.. algumas linguas europeias usam Kinda pra se referir a criança..
        Anorkinda em si nao significa nada que eu saiba.. rsrs
        Eu reconheci este nome numa visão xamânica, lá noutro plano eu sou chamada assim, mas ninguem me disse o significado.

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    2. É verdade, os primeiros jardins da infância eram os “kindergarten”, acho que na Alemanha, se não estou enganada e ainda lembro das minhas aulas de História da Educação Infantil… De qualquer forma, é lindo! O meu apareceu na minha frente, a partir do momento em que estava pensando em qual pseudônimo adotar, um que tivesse muitos significados… achei a palavra na internet e amei o significado, o que ele me traz culturalmente, as minhas raízes, além do número dele, o 3… Tudo perfeito rs… 😉

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  7. Em cenário pós-apocalíptico e com personagens zumbis/mutantes apenas quase-sugeridos, está construído o início perfeito para uma saga que enfatiza mais a relação do homem com os livros. Uma mistura interessante de ficção científica, distopia e terror.

    Narrativa tensa, sombria, crítica e cativante, com toques de inovação, que faz relembrar alguns clássicos sobre o tema e ainda tem a alusão às “Vinte Mil Léguas” e Jorge Luís Borges.

    É uma história de solidão e de cansaço na luta pela sobrevivência, contra as emoções do passado, contra a insanidade, mostrando que a fortaleza humana é frágil e que a escrita é o registro final da humanidade. Pois, ao fim, o personagem é morto pelas criaturas, entregou-se, tendo como companhia apenas os livros — um suicídio.

    A atração do conto está na forma sintética como as emoções são transmitidas — desolação, solidão, tristeza, melancolia e desesperança. As palavras, aqui, são carregadas ao máximo de sentidos, abrindo para o leitor campo de recriação, através das sugestões apresentadas.

    Parabéns pelo trabalho sensível. Um abraço.

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    1. Olá, Fatima, adoro seus comentários, são gentis sem deixar de ser técnicos e dizer coisas que às vezes nem pensei, o que me leva a tentar me aprofundar ainda mais nas futuras composições que eu venha a fazer. Muito grata!

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  8. Não sei sei estou excepcionalmente sensível hoje, mas achei seu conto muito-muito triste. Essa imagem de uma biblioteca empoeirada, o personagem trocando a vida pelo abraço enternecido a uma leitura da infância, dormindo enquanto a morte o espreita, achei-a belíssima e profundamente melancólica. Esse fecho me surpreendeu com uma intensidade inesperada. Plot-twist emocional, eu diria. Leitura interessante, amiga. Parabéns.

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    1. Oi, Elisa, quando a gente escreve é justamente pra isso, para que de alguma forma o leitor seja atingido. Sabe que também o acho muito triste, um dos mais tristes que já escrevi, acho até que vou fazer um balanço sobre isso rs… Uma biblioteca abandonada é triste demais…

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  9. Nossa, que legal sua história! Não sei se vc se lembra, há muito tempo atrás teve um desafio do EC que era a imagem de uma biblioteca em ruínas. Foi o primeiro desafio que participei, logo que entrei no EC. Por sinal, tomei porrada pra kct rsrsrs. Lendo seu conto não consegui tirar aquela imagem do desafio da cabeça. Se eu tivesse tido uma ideia tão legal quanto a sua, não tinha apanhado tanto nos comentários… kkkkk
    Gostei muito, especialmente o final: “Observaram por alguns instantes o ser imóvel na poltrona, abraçado a uma coisa estranha, no rosto molhado um sorriso. Apenas alguns segundos de contemplação, antes de darem vazão aos instintos.” Coisa de gênio!

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    1. Exatamente, Juliana, foi pra esse desafio que escrevi esse conto, porém em uma versão bem mais curta, porque tinha menos de uma hora pra postar, rssss… Mas na época apanhei, hein? Disseram que “essa coisa de zumbi” já estava clichê demais, hahahhahaa

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  10. Somos todos sobreviventes em um mundo cheio de zumbis que querem aniquilar nosso tempo e fazer-nos virar também zumbis como eles, sempre correndo pela sobrevivência. O que podemos fazer, então, se não nos refugiarmos na literatura? Eu pelo menos faço isso… Adorei o conto, tanto pela visão de um mundo TWD quanto pela metáfora da nossa vida real. Bjs ❤

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  11. Eu acho que suportaria a solidão se tivesse livros. Mas em um cenário desolador e, talvez, fragilizada pelo contexto, não sei se a reação seria positiva.
    Esse texto me lembrou de alguns roteiros cinematográficos. É um ótimo texto.
    Parabéns.
    Abraços carinhosos!

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