Névoa e Assobio (Resenha) – do livro de Bianca Dias, por Evelyn Postali

“A VIDA É TUDO O QUE NÃO SE ESPERA E AINDA ASSIM ACONTECE.”

Névoa e Assobio, escrito por Bianca Dias e com desenhos de Julia Panadés, da Relicário Edições, foi um dos livros trazidos da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em 2019.

Era diferente de todos os outros livros da banca e o aspecto rústico chamou minha atenção. Exatamente por isso, eu não poderia fazer uma resenha do conteúdo sem antes pontuar algumas coisas sobre a estética do livro. Formato diferente, 16×18, lombada costurada, folhas internas iniciais e finais em tom avermelhado escuro, com imagens intercalando os textos, fonte Mundo Sans, papel Pólen Bold 90 m/g².

As imagens são um misto de desenho e bordado, ou a junção dos dois em completa harmonia. Os pontos do bordado são vistos pelo avesso no verso das páginas. As pinceladas em tom avermelhado são lisas e definidas; as linhas, em formas afetuosas, arredondadas, ou, então, bruscas, secas, viscerais. Não há como fugir do encantamento pelas composições imagéticas. A costura, vista pelo avesso é estranheza e abstração, no começo. Depois, traduz e se completa e complementa com perfeição e cumplicidade os textos escritos. Esse livro foi finalista do prêmio Jabuti de 2016, na categoria ilustração.

Com relação ao conteúdo, preciso dizer que, no momento da compra, eu não tinha noção exata do que leria. Passei os olhos sobre os textos internos, sem propriamente ler algum trecho, e acreditei que houvesse, aí, algo beirando a prosa poética, que sempre me agradou.

“ESCREVER É FAZER COLHEITA DE FLORES EM CAMPO MINADO.”

A partir dessa introdução, fui apresentada a uma experiência dolorosa – a perda de um filho – em uma linguagem atravessada pela sensibilidade, pela poesia, carregada de reflexões avassaladoras, construtoras, em mim, de imagens de silêncios e sentidos.

Encontrei na leitura algo encantador: a dor do luto e o silêncio conseguindo dialogar e se transformar em força e voz, em aceitação e beleza, em entendimento de tempo e lugar. Uma experiência que fez brotar a escrita e uma escrita que fez brotar vida, apesar da morte. Um entrelaçamento entre a escritora e a mãe, a escritora e a protagonista.

Não é apenas um livro-depoimento de uma mãe cujo filho viveu apenas cinco dias. Não é somente um diário. Vai além de um testemunho corajoso. Esse livro traduz o enamoramento entre a perda, o luto, e a força da existência; um entrelaçamento de vidas em contraponto. O verso e o reverso. O nascer das palavras em meio à dor. Os silêncios que falam, as palavras emudecidas.

“DIANTE DE UM VAZIO ATERRADOR, AGARREI-ME NUMA FÚRIA DESEJANTE E DECIDI FAZER DA MORTE ALGO VIVO, UMA TAREFA QUE INCLUIU ABRIR MÃO DO DESESPERO E ESCREVER. NESSA RASURA FUI ENCONTRANDO UM ABRIGO, UM LITORAL.”

A escritora-personagem, como eu penso que seria melhor chamá-la, se apropria de falas de outros, misturando-se à sua própria em um intertexto pungente, denso, capaz de nos remeter a uma viagem com ela rumo à melancolia, de mãos dadas com o pesar. Porque, falar sobre a perda de um filho é difícil. É uma dor que não consigo dimensionar e que, muitas vezes, é dor silenciosa porque a sociedade impõe.

Esse livro contém transgressões de gênero – não é poesia, não é crônica, não é um ensaio, ou um diário – e, ao mesmo tempo, é. Não se encaixa em nada e ao mesmo tempo, encaixa-se em tudo. Uma leitura recomendada por mim.

Assista ao booktrailer AQUI.

Para saber mais da escritora, acesse AQUI ou AQUI.

 

18 comentários em “Névoa e Assobio (Resenha) – do livro de Bianca Dias, por Evelyn Postali

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  1. Republicou isso em Tudo que se prende no olhare comentado:

    Esse livro contém transgressões de gênero – não é poesia, não é crônica, não é um ensaio, ou um diário – e, ao mesmo tempo, é. Não se encaixa em nada e ao mesmo tempo, encaixa-se em tudo. Uma leitura recomendada por mim.
    Névoa e Assobio, escrito por Bianca Dias, com ilustrações de Julia Panadés.

    Curtido por 2 pessoas

  2. O que dizer dessa resenha? Não é algo para dizer apenas, porque é algo para sentir. Sobretudo num blog de mulheres escritoras, sobretudo de mulheres que têm filhos, mulheres cujo maior medo seja justamente o mote do livro. A dor. A absoluta e pungente dor da perda. De um filho. Eu que só tenho um. Um amor.

    Tenho pesadelos onde perco meu filho. Não pela morte, mas pelo sumiço. Acordo com lágrimas nos olhos. Mas é só ficção do meu subconsciente. Ainda assim dói.

    A resenha mostra o quanto o livro seduz. A estranheza da forma, a profundidade do conteúdo são armadilhas prazerosas para pessoas que têm imaginação.

    Fui ver o trailer, também cliquei nos dois links que falam da autora. Achei tudo tão lindamente cheio de personalidade! Palmas a você pela escolha, pela sensibilidade, palmas para ela pelo mergulho em pleno sentimento.

    Adorei. Beijos.

    Curtido por 2 pessoas

    1. “Tenho pesadelos onde perco meu filho. Não pela morte, mas pelo sumiço. Acordo com lágrimas nos olhos. Mas é só ficção do meu subconsciente. Ainda assim dói.”
      Entendo bem o que diz, Iolandinha. Quando eu tinha só o César, isso era mais intenso. Depois do nascimento da Lara, apaziguou. A Lara veio sem planejamento e, no meu entendimento, foi Deus quem a mandou, sabe?
      Eu não saberia dimensionar a perda de um filho, por isso, talvez esse livro tenha me tocado tanto; tenha me dado o conhecimento do outro sobre algo tão tenebroso.

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      1. Você tem razão, amada Evelyn. O fato de ter apenas um filho o torna muitíssimo mais vulnerável, como se fosse um vaso de cristal na prateleira mais alta de uma cristaleira aberta que repousa sobre um skate.

        Hoje mesmo ele saiu com os amigos e eu só fico rezando pela volta, são e salvo.

        Esse tema com morte/desaparecimento de um filho é um assunto que mexe profundamente conosco, mães. E nas suas mãos, tudo se torna muito mais vívido.

        Beijos.

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  3. Um livro com todas as razões de ser do jeito que é, e que não poderia ser diferente. Só mesmo um grande sentimento, uma grande perda, a vontade de externar isso para explicar a composição desse livro. Eu entendo bem, perdi uma filha com quase três meses de vida, mas ao menos a gêmea dela está aqui. E ainda assim, eu senti do meu jeito, ela do jeito dela… Mas apesar disso há uma cumplicidade enorme, é o que sinto. Lindo o book trailer também! Gostei da entrevista dela para o “Como eu escrevo”, oportunidade de aprender muito. Gratidão por me apresentar esse livro, a autora e a ilustradora também!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Acredito que a passagem por essa vida nada mais é do que aprendizagem. Eu tive uma gravidez interrompida, bem no começo, mas a expectativa do primeiro filho é um universo à parte. Às vezes eu digo para mim mesma: você poderia ter um filho ou filha com 20 anos já. Seríamos uma família grande,porque cinco é um número alto para mim. Depois, eu penso que as coisas são do jeito que são e acontecem do jeito que acontecem. Não temos poder algum sobre elas, ou sobre muitas delas. É assim. E a vida segue.

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      1. Curioso, na primeira vez que engravidei, aos 18 anos, só soube que estava grávida quando perdi o bebê, estava com um mês, por aí… Por um tempo me peguei pensando se teria sido um menino, ou uma menina, que nome teria, a idade que teria se tivesse sobrevivido, enfim… Eu me culpava até por não ter sabido da gravidez, porque assim poderia tê-lo gestado naquele pouco tempo, com algum sentimento, de alguma forma… Mas é como você falou, as coisas são como são, cada um tem algo a cumprir aqui… O que nos resta é lidar com a dor e com a saudade, fazendo dessa saudade um sentimento de compreensão e aceitação do que é a vida…

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  4. Que resenha primorosa, Evelyn. Convite indeclinável à leitura e à experiência de ter esse livro nas mãos. Vi o book trailer e acessei os dois links indicados. Realmente parece ser uma obra arrebatadora. Muito obrigada por compartilhar aqui conosco esse seu achado, querida.

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  5. Olá, Evelyn! Você escreveu uma resenha sensível para um livro igualmente sensível. Realmente, a poesia de Bianca Dias é diferenciada, além do que, as ilustrações são igualmente extraordinárias, tenho a impressão, inclusive, que foi escrito com muita dedicação, quase uma ode ao filho perdido, uma homenagem comovente em que qualquer um com um mínimo de empatia se vê mergulhada. A melancolia e o pesar misturam-se à beleza e a poesia com maestria ímpar.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Concordo. Uma ode ao filho, um relicário de sentimentos. É justo, válido e compreensível. Nossa escrita traduz o que somos, o que sentimos. Acho que o deixar-se viver esse momento ajudou a superar, talvez, e seguir em frente.

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  6. Oi, Evelyn, fiquei bastante impressionada com o que você nos contou sobre o livro. Certamente uma experiência forte a leitura dele. Muito interessante a forma como a escritora escolheu apresentar a sua dor e como usou a escrita para curar-se um pouquinho. Ficou lindo. Obrigada por nos apresentar a esta obra de arte.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Oi Evelyn,
    Tudo bem?
    Sua resenha mexeu muito comigo… Que escrita corajosa a dessa mãe escritora, que coisa… Algo de que ainda não tive coragem… Falar do filho morto, do neto morto… “Costuro as bordas do meu corpo”… Só o artista faz da dor, poesia.
    Parabéns e muito obrigada por nos trazer a indicação dessa obra prima.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu me lembrei de você, Paula, ao escolher esse livro. Se puder, leia-o. É uma leitura, como eu disse, muito profunda, tensa, mas libertadora. Ele é lindo, não só na forma, mas no conteúdo. E como eu disse em dos comentários, ainda é tabu falar sobre a morte de filhos, especialmente para mulheres. Homens não falam, na minha humilde opinião, são os que não falam, não querem, e acreditam que não devem. Mulheres falam muito pouco. Talvez porque a vivência desse momento seja igual a um relicário, coisa que deve ser preservada. Não sei se encontro as palavras para explicar isso. Enfim… Obrigada pelo comentário.
      Abraços carinhosos.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Evelyn, Obrigada. Em meu caso, vivi de perto não só minha dor, mas, a de meu filho. Creia-me, ele foi ao inferno e não sei se voltou ainda. Vou ler o livro, sim, não só pela experiência por que passei, mas, por perceber que este livro é uma obra de arte. Ao menos foi o que seu ponto de vista mostrou.
        Beijos.
        Paula

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  8. Evelyn, a resenha deixou clara a sua impressão e opinião (embasada, obviamente) sobre o livro de Bianca Dias: uma experiência de atravessamento e de elaboração; uma ética-estética da existência, como se na perda estivesse guardada um presente, como se na doença estivesse guardada uma festa. A intercalação de texto e imagens foi escelente recurso.

    Parabéns por, com o seu trabalho, despertar-me o interesse e obrigada pela indicação. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pela leitura. Eu não faço muitas resenhas de livros. Queria que, com as imagens, houvesse o entendimento da parte estética do livro. Na minha opinião, a maneira como o livro se apresenta é mais um ponto favorável no desejo de leitura. Não é o fator determinante, mas guarda uma parcela considerável do querer ler aquilo que está aí. Muitas vezes, as imagens não nos remetem à uma vontade forte de leitura, mas, nesse caso, ao folhear as páginas do livro e perceber a peculiaridade dos desenhos, foi algo determinante, sim, e foi uma grata surpresa.
      Obrigada novamente.
      Abraço grande!

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