Sopa de Fruta pão – Paula Giannini

Ingredientes

1 fruta pão madura

100 g de linguiça calabresa

3 colheres de azeite

5 dentes de alho – 1 cebola média

Salsinha e sal a gosto

De seus olhos vertiam mares. Não à toa. Era preciso cortar a cebola miúda, algo que aprendera com a mãe, ainda em menina, e que agora, aos poucos, quase que instintivamente, também ensinava à filha. Comida também tem ciência, ela dizia. Tem ciência. E cada prato, sua própria sabedoria.

Saudade. Quase podia senti-la ali. Aromas e sabores eram poderosas máquinas do tempo. Mas não por isso derramava lágrimas. Não. Não por isso. Tampouco era pelo ácido do corte enevoando toda a cozinha. Não. Não por isso e menos ainda pelo vento, que, agora levantando a cortina que tomava o lugar da porta, soprava-lhe gelo na nuca desnuda, tão desacostumada a andar assim, desprotegida.

Desprotegida, não. Jamais. Era filha de Nossa Senhora, a do Rosário. Fora consagrada ainda em menina, e, se apenas agora tomara sua decisão, era porque aguardara, em seu casulo, o tempo certo de atender àquele chamado de devoção.

Cortou a fruta-pão em pedaços médios, e mergulhou-a em água fervente para que cozesse ao ponto de se quase desmanchar. Pela janela, já se podia ver o sol, revelando, mansamente, o manto azul que cobria aquele mar. Clareando o mundo, em seu reinado, o astro ia aos poucos apagando estrelas, uma a uma.

Não.

O fato de algo não ser visto, não queria dizer, de modo algum, que aquilo não continuasse lá, presente e quieto, aguardando, apenas, a hora de se revelar.

Ligou o liquidificador, precisava bater a fruta com a água do próprio cozimento. Estivesse o avô por ali, acudiria a pedir por silêncio. E rir-se-ia, certamente, ao perceber o dorso arrepiado da neta, com aquele jeito de papagaio molhado, que agora ela sentia com a ponta de seus dedos.

Está chorando, mamãe?

A voz da pequena era um grito a concorrer com o motor do eletrodoméstico. Está chorando? Não. Mas é claro que não. Vem cá, senta aqui. Nossa Senhora, a rainha, também ela um dia chorou, você sabia? Mas a menina já saía correndo, não entendia nada dessas coisas de lágrimas, que não as de tristezas ou as de dores em joelhos ralados por brincadeiras. De mais a mais, no areal, do lado de fora, já chegavam os primos e primas pulando, com suas caixas, e fitas, e bandeiras, aprontando tudo para a festa.

Na panela, o azeite chiava, fritando cebola e alho. Agora, era refogar a linguiça calabresa, e deixar que o fogo operasse o seu milagre.

No lado de fora, as mulheres já aprontavam a mesa. Frutas, bolos, pães e doces que as crianças roubavam, ágeis, voltando em seguida às suas correrias entre algazarras e lutas de espada.

No lado de fora, memórias de um tempo em que ela, também criança, menina teimosa e cheia de ideias, liderava seu grupo para comunhões com falsas hóstias feitas da fruta-pão já cozida, e uns comandos de apito ainda desengonçados, antes da bronca iminente. Onde já se vira, menina querendo rezar missa? Onde já se vira, pelo amor da Senhora do Rosário, menina teimando em empunhar liderança e se fazer de Capitã na Congada? Onde já se viu? E aquela hóstia? Acaso a carne de Cristo era para brincadeiras? Onde é que já se vira, mulher liderando um terno naquela tradição?

Não.

Depois do pito, ganhava bala. O avô era assim. E já não sabia se brincava daquele modo, mais por querer bala de açúcar, do que por sentir, dentro de si, aquele sonho de substituir o avô quando chegasse a hora da passagem do comando.

Sentiu o vento, agora mais quente, o Lestinho prometendo tempo firme para aquele dia de festa. O ar inundado por um beijo fresco, um cheiro de rosas, como o das lágrimas de Nossa Senhora. Um olor de promessa.

Promessa de mudanças. 

Na panela, a linguiça dourada já quase passara do tempo de ser inundada pelo caldo da fruta-pão já batida. Estava perfeita. Agora, era só misturar um pouco e salpicar a salsinha e um pouquinho de sal. E aguardar a hora de servir a sopa que nutriria a tropa antes da abertura dos trabalhos.

Vestiu saia branca e aguardou a chegada da rainha.

A rainha.

Era ela a dona da festa. Era ela quem servia a mesa com aquela sopa preciosa que ela mesma preparara.

A rainha.

Jamais aceitara esta posição.

E por que não, menina teimosa? Por que não, afinal? Acaso, não era a rainha a mulher mais importante dentro de um terno? Acaso não era assim? Acaso, não teria sido São Benedito, ele mesmo, santo padroeiro de sua gente, encarregado da cozinha em seus tempos de convento? Era tão linda a participação das mulheres na festa… Mania boba, aquela de se voltar de costas, quando o cortejo intentava pedir licença para poder adentrar à Igreja.

Mania boba, a sua, a de querer ser um menino.

Não queria.

Jamais quisera ser outra, que não ela mesma. Jamais deixara, igualmente, de louvar a beleza daquela cozinha, tradição herdada de sua avó e mãe. Jamais, por outro lado, pudera conceber o motivo de diferentes hierarquias para homens e mulheres. Neta mais velha, o natural, seria ela a ser sucessora direta do avô, não aquele primo sem sal da cidade grande, que, além de tudo, detestava cebolas.

Acaso, precisava pedir licença para entrar na própria casa? Acaso precisava? Então, por que na Igreja, sim? O Congado era coisa de pretos, diziam. Era ancestral. Coisas dos tempos de senzala, justificavam. E acaso ainda estavam em uma? Acaso, não era a Igreja, casa de todos? Não entendia. Não. De modo algum. Assim como, igualmente, não compreendia o motivo de as portas vizinhas, a cada ano em maior número, fecharem-se para a visita do cortejo, alegando ter nova religião e chamando a festa de crendice, de folclore. De pecado. Tradição, sim. O terno de São Benedito, entretanto, era mais do que folclore. Aquela, era Congada de devoção. E, se os mais jovens se desinteressavam, se o costume morria aos poucos, qual seu avô na cama, feito passarinho, era porque tradição também era coisa que carecia de novos ares. 

Agora mais forte, o vento leste levantava a cortina, prenúncio de renovação.

Molho de pimenta na cachaça

1 xícara e meia de cachaça
300g de pimentas variadas – 2 folhas de louro
Fatias de gengibre a gosto – 1 dente de alho – 1 pitada de sal

Entregou a sopa à rainha. E levou, ela mesma, o molho picante curtido há semanas. Ingredientes picados, deitados todos até metade do vidro, e mergulhados em cachaça.

E vestiu branco. A farda todinha. Onde já se vira farda de saia? Agora, sim. Vestiu chapéu sobre a cabeleira curta e pendurou o apito dourado no peito. Aquele mesmo que um dia sumira da gaveta do avô passarinho.

E saiu para o areal empunhando espada. E se surpreendeu com a quantidade de meninas que a seguiram. Então, olhou firme nos olhos do primo, aquele mesmo para quem inventaram a tal história de mágica da cebola. Menino chato. O mesmo que a dedurava a cada nova brincadeira a querer ser Capitã. Águas passadas. Marcas que ficam. Como as cebolas disfarçadas no caldo, mas, deixando de presente o rastro de seu sabor.

Naquele ano, o Terno dos Pretos de São Benedito saiu. E a seu lado, o Terno das Pretas das Lágrimas de Nossa Senhora, a do Rosário. Sem pedir licença e com muito orgulho.

Antes de partir, ajudou a servir a sopa de fruta-pão com molho de pimenta curtida. Bem quente.

E foi o primo quem lhe deu batismo de Capitã.

Um dia, seria sua filha a herdar o direito à escolha de um dos lados. Ou até, se o quisesse, o direito a se questionar se era de sua vontade estar ali. Na Congada.

Na volta da festa, bordaria em lenço o nome que levaria consigo pelo resto de seus dias. A partir daquele dia, seria a Capitã de Vento Leste.

_______________________

Da nova série: histórias que não vivi.

Pedindo licença para a fala, e aportando no lugar-de-afeto que me cabe.

21 comentários em “Sopa de Fruta pão – Paula Giannini

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  1. Hummm, Paulinha, intrigada aqui com suas notas após o texto. Receitas e folclore/cultura popular, duas das suas obsessões literárias, e essa referência a uma “nova série” (além da licença pelo lugar de fala que não seria o seu). Coisas novas brotando. Curiosa, aqui.

    Uma coisa que gosto demais nesses seus contos de receitas são os sincronismos e as transições que você constrói no texto. As transformações operadas pelo ato de cozinhar, com os fatos da narrativa, amalgamadas pela linguagem. Confesso que, encantada com essa alquimia, deixo de prestar atenção na história. Acho isso trabalho de gente grande, super autoral, singular e original. Nesse conto, o que senti foi um amadurecimento ainda maior dessa qualidade.

    Sobre a trama, só digo que casa perfeitamente com a receita estranha que a ela se amalgama nesse conto primoroso. Parabéns, querida.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Elisa,
      Escrevi este texto para um concurso do litoral paulistano, por isso a escolha da receitas. É coisa típica de lá. Ou era, quando ainda havia Congadas mais representativas e árvores de fruta pão.
      Beijos e obrigada por ler sempre com tanto amor.
      Paula Giannini

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  2. Mais um conto saboroso, embora eu nunca tenha provado da fruta pão, fiquei tentada.
    As lembranças de menina e a certeza de poder ser quem quer, ser quem já é.
    Lugar de fala pra mim é como guardar lugar na sala. Se respeito houver, por que não experimentar outros discursos e culturas? A vontade de se homenagear e imitar sim o que é tão belo não deveria ser ultraje, mas carinho. Como fez a personagem tomando o lugar do avô como missão que já lhe vinha na alma.
    Narrativa emocionante!
    Sucesso para a nova fase de contos! Todos muito prazerosos de se ler, com certeza.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Claudia,
      Obrigada pela leitura e pelo carinho.
      Também quero provar a fruta pão. Esta receita é das poucas não testadas.
      Sobre o lugar de fala, acho que este, quando do artista, é exercendo seu ofício com respeito e seriedade, né?
      Beijos
      Paula Giannini

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  3. Fiquei curiosa com essa nova série. Ainda misturando receitas, mas também falando de identidade, de gênero, de raça, do direito de se escolher e não ser escolhida (ou preterida). Há um falso ar despretensioso no texto, que passa da preparação do alimento ao cerne da questão, do cozimento à apresentação da personagem e de seu conflito com a facilidade de quem está numa conversa informal, tão do seu estilo. Parabéns pelo belo texto! E que venha a nova série!

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    1. Oi Sandra,
      Ainda estou pensando se haverá receitas… Neste, ela veio, pois fala muito da região que abordei, porém, não sei. Vamos vendo…
      Obrigada pela leitura e pelo amor de sempre.
      Beijos
      Paula Giannini

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  4. Fruta pão… Quando eu era criança e adolescente eu tinha mania de ler livros sobre aventuras no mar, em um ou dois dos livros que li, falavam em fruta pão.

    Desde esta época que tenho vontade de provar, assim como jaboticaba (no Ceará não tem).

    Uma receita diferente desta vez, sopa de fruta com linguiça molho de pimenta. Bizarro, mas talvez delicioso. Uma receita diferente para uma protagonista inesperada. A moça cozinha e usa saia, mas há algo além que fica entre uma pitada de sal e uma cebola que provoca lágrimas.

    Gosto da sutileza de como vc conduz temas sensíveis, gosto destas palavras soltas que marcam a importância do que disse antes e do que vai dizer ali, logo em seguida, mas, sobretudo, gosto como as suas receitas dão o tom a todo o resto. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Iolanda,
      Obrigada pela leitura e pelo carinho.
      Também quero provar fruta pão, esta receita não é testada.
      Prometo, quando for ao Ceará, por outro lado, levar as jaboticabas.
      Beijos
      Paula Giannini

      Curtido por 1 pessoa

  5. Saboreio seus textos mesmo antes de saber que eles realmente se misturavam com coisas de comer… este foi delicioso. Legal a forma como vai intercalando uma história, uma vida, todo um bastidor com o preparo de uma receita. Adorei. E fiquei curiosa aqui com a nova série. Vai ser, já é, um show. Bjs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Fernanda,
      Obrigada, mais uma vez, pela generosidade e pelo amor com que lê meus textos.
      Vamos ver o que virá por aí na nova série. Ideias não faltam, vejamos a prática.
      Beijos
      Paula Giannini

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  6. Você deu um requinte nas suas receitas. Não que as outras não estivessem no ponto. Agora, porém, tem algo de Brasil nisso, tem um Brasil verde-amarelo, não aquele desgastado por desgraças, mas aquele Brasil de coração largo, de misturas estonteantes, de cores, de uma alegria de abraço, calorosa. Tem algo que amo mais do que já amava em seus textos. Se você, nessa série anunciada, vai misturar cultura popular, com folclore, com dar protagonismo (não que você não fizesse antes), com viagem encantada pelo cotidiano brasileiro… Mulher… Isso vai dar o que falar.
    Esse texto está diferente dos outros. Não sei explicar. É simplesmente adorável como as palavras conseguem me transpor para imagens vivas, pulsantes, intensas. Estou encantada.
    Só posso dizer obrigada por trazer até nós esse encantamento.
    Beijos e abraços carinhosos.

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    1. Querida Evelyn,
      Nossa, que generosidade imensa você tem… Obrigada. Vamos ver o que vem pela frente. O certo é que tem Brasil, sim. A cada dia mais, voltando às origens.
      Beijos
      Paula Giannini

      Curtido por 1 pessoa

  7. Eu gosto muito dessas suas misturas de culinária e literatura. E também adoro a sua capacidade de se vestir da pele de outras pessoas, coisas, animais, com uma facilidade que só se explica pelo talento que você tem como atriz, que no teatro a rotina é trocar de pele. Nesse conto específico, me remeti logo à minha infância. No litoral do Rio Grande do Norte, na casa da minha avó, comia-se fruta pão. Foi lá que eu conheci. Tem uns gominhos q parece jaca. E também foi lá que conheci o melhor do nosso folclore, as festas, as roupas, enfim. Foi uma delícia acompanhar o texto. Adorei! Estou doida pra conhecer o resto da série!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Ju,
      Você me diz cada coisa instigante… Rsrsrs Quando disse que eu dava vida às pedras, fui logo fazer uns contos assim.
      Sobre a fruta pão, usei mesmo (e também) o lugar de afeto. Sou doidinha para provar.
      Beijos
      Paula Giannini

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  8. Essa sua linguagem tão verdadeira… os pensamentos e falas de seus personagens são tão reais, é como ouvir qualquer conversa por ae, suas personagens são o que diz: gente da gente. Eu adoro isso, adoro gente!
    Tanta sensibilidade me fez sentir falta das Congadas que nunca vi nem participei…rsrs judiação, viu!
    Vc não tá em S Paulo? foi onde comi fruta-pão hehe compramos num hipermercado aí, e lá se foram 30 anos! meu marido comprou justo pra eu experimentar, adorei!
    Parabens por este talento magnífico de contar historias, o Brasil precisa de contadores de historias, principalmente de nossas histórias.
    Bj!

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  9. Como se a receita tivesse saído daqueles cadernos antigos que a avó guardava. Mesmo não podendo provar de verdade, a gente sente o sabor. Eu entendo lugar de fala como algo real, então na ficção, se ela é capaz de trazer a realidade do que se vive, não tem problema algum. E o seu conto traz essa realidade pra gente.

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  10. Mais uma receita! Como gosto delas… E aqui vem amarrada a uma manifestação cultural — a congada. É mágico o seu transitar entre receita e trama ficcional. Fruta-pão, congadas, a rainha e o rei — tudo é muito conhecido na região em que resido e posso garantir que a ambientação está perfeita.

    Outra coisa que impressiona bem, é o fato de você, Paula, preocupar-se com a técnica em seus textos, porém consegue se expressar com naturalidade, de forma simples e de comunicação fácil. Um labor de artesanato é o que realmente se observa em todos os seus trabalhos.

    Parabéns pelo trabalho bem construído, rico, inteligente e envolvente; e, por isso, a leitura se torna prazerosa.

    Um forte abraço.

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  11. Adoro esse jeito peculiar de misturar receitas com o texto, virou uma marca registrada! Não sou muito conhecedora de culturas populares, mas gostei da menina-mulher não aceitar seu lugar prometido e lutar para fazer diferente. Acredito que é isso que necessitamos: poder escolher o que ser e o que fazer. Bjs ❤

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  12. Oi, Paula ❤
    Seu conto me emocionou, de verdade. Sempre emociona, mas aqui veio uma sequência de tradições que, de certa forma conheço e (re)conheço, o preparo e apuro da sopa, os questionamentos tão cheios de empoderamento da protagonista. O respeito pela tradição, a congada, a história de luta e resistência por trás das tradições.
    E a nova série, pensando aqui, sucesso, na certa.
    Excelente, seus contos são tão humanos e bonitos quanto você.
    Beijos!

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