Café – Catarina Cunha

Antes de pensar o dia perguntei-me se haveria outra noite suficiente para alimentar todas as bocas estelares. A mudez solar sepultou todos os meus pensamentos óbvios na cova rasa da imensidão galáctica.

Vácuo no corredor.

Meteórico.

Foda.

Odeio o dia começar assim da mesma forma que terminou.

A cafeteira me inferniza com questionamentos domésticos recheados de rotina maternal. Sofro as lamúrias depressivas das marés, como se não bastasse o que tenho que assistir inerte.

Suporto o beijo do aroma do que odeio amar.

Fé e mar.

Café.

Saudade do que nunca se é

Foda.

Odeio o dia começar assim da mesma forma.

O movimento de rotação me embrulha o estômago e sucumbo ao tédio de goles homeopáticos de translação. Não há latitude suficiente para aplacar a longitude de minha desesperança com tantas certezas absolutas. Obtusas, contra ou pró.

Sempre profundo.

Mundo foda.

Odeio o dia começar assim.

Dou corda na engrenagem alimentando os ventos antes que a violência indomável me jogue os indefesos ao colo. Não sei até quando conseguirei fazer café assistindo essa máquina faminta devorar as próprias entranhas. Precisaria ser mais do que o gelo sobre a febre para cumprir minha missão.

Ficção.

Karma é foda.

Odeio o dia começar.

A cada movimento feroz procuro nos meridianos as causas catastróficas de tão vil existência. Mas não há cálculo infinito possível de resolver equação tão complexa quanto à inexatidão.

Insisto.

Esperança é foda.

Odeio o dia.

Cracas e mais cascas se acumulam sobre meus ombros varrendo minhas forças para a vala do buraco negro. Lá de onde vim, mas nunca entrei. Vejo o fogo consumindo a razão e os dedos das florestas me agarrando.

Deslizam e voam de mim.

Perda é foda.

Odeio.

Ser Terra,

Mas cá tenho café.

13 comentários em “Café – Catarina Cunha

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  1. Olá, Catarina, que texto forte, com vida. Ele grita com a gente, grita sobre a gente e vai nos envolvendo, nos enlaçando. Adorei e confesso que o li ouvindo a voz da Paulinha. Aguardando os próximos textos seus. Beijos e parabéns.

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  2. Olá, Catarina.

    Saudações pelo retorno.

    Li seu texto com esta cara de poesia, contando a história da insatisfação de uma pessoa com as próprias rotinas, sentimentos, expectativas, apesar de já não acreditar mais em muitas coisas.

    Interessante fluxo de pensamentos em torno do próprio dia e a partir do que o café lhe proporciona. Eu não gosto de café, mas bebo. Café é indispensável.

    Um abraço e que nunca falte uma cafeteira funcionando.

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  3. Querida Catarina,
    Lembrei desse conto para produzir em vídeo, pois, lembro bem do impacto que ele me causou lá no EC.
    Parabéns e volte logo para cá.
    Beijos
    Paula Giannini

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  4. Adorei Catarina! Muito boa a analogia com a astronomia. Não somos todos feitos da poeira de estrelas? Me identifiquei pra caramba, porque curto muito astronomia e também me sinto enjoada às vezes com o movimento de rotação!

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  5. Um texto de catarse, de explosão. Eu lembro de quando li esse texto pela primeira vez e gostei bastante. Que bom que está aqui. ❤️

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    1. E relembrando agora, apesar de ter gostado, comentei sobre ele estar fora da proposta do desafio na época, acho que era cyberpunk. Por essas e outras é que não sou fã de desafios com tema…

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  6. Poesia? Conto? Difícil dizer pois tem bom ritmo, repetições para enfatizar a rotina e muita autenticidade. Com a espontaneidade de sua comunicação, Catarina, o ser do seu artesanato nasceu, agiu e buscou soluções dentro de condições humanas.

    Parabéns por este sopro poético dentro de uma realidade nossa. Também amo café e fico desesperada se ele me falta.
    Seu texto é uma beleza de proso-poética. Estou feliz por tê-la aqui. Beijos.😍

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  7. Texto sensacional, para ser degustado lentamente, várias vezes, cada pausa, cada palavra. A imensidão intergaláctica em um xicara de café. Muito bom tê-la de volta. Você faz muita falta. Beijos.

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  8. Identifiquei-me: odeio e café rsrsrs.
    Se a Terra pudesse falar, acho que ela se sentiria exatamente assim.
    Bjs ❤

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  9. Olá, Catarina. Bem vinda de volta. O que gosto em sua narrativa é que vc sai do lugar-comum. Seu texto traz uma ambiguidade. Vejo que a Iolandinha imaginou uma pessoa falando de sua angústia. Talvez por se sentir incapaz de alimentar sua prole. Mas é também a Terra, falando de sua fome de esperança, do Karma de iniciar o terminar o dia com a mesma incapacidade de mudar, de transformar, de fugir do destino de poeira intergaláctica a que estamos destinados. O fogo, que consome as florestas, agarrando-se em suas entranhas sem ter o que fazer ou fugir é angustiante. Que triste ser a Terra, não? Tanto quanto uma interpretação ou outra, a esperança é o que resta, engolida aos goles de café, saboreada na rotina dos dias como ritual, de um porvir benfazejo. O vocabulário selecionado, o ritmo (quase uma poesia), as metáforas bem pensadas e a analogia certeira fazem do seu texto uma obra-prima. Parabéns!

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