Ela – Elisa Ribeiro

A tímida luz crepuscular apenas se insinuava por trás das delicadas cortinas de voile lilás. Logo o despertador do celular a traria de volta de seu sono de princesa, lânguido sob a coberta cor-de-rosa macia e peluda que transbordava da cama como uma calda cremosa de morango se misturando às almofadas e aos bichinhos de pelúcia espalhados pelo chão do quarto.

Primeiro um tato muito suave alisou seu tornozelo. No peito do pé, provocou-lhe uma ligeira sensação de cócegas que a fez esticar as pernas como se escalasse uma falsa montanha desenhada sobre os lençóis. Virou-se de lado.

O afago, interrompido pelo movimento brusco ao reacomodar-se, reiniciou no calcanhar deslizando em seguida pelo tornozelo e daí à pele mais fina na parte interna da perna. Passou pelo joelho e subindo pela coxa fez surgir, depois de um murmúrio — hum…—, um sorriso úmido nos lábios entreabertos. Aquele deslizar lento puxava o fio de seus sonhos por caminhos mágicos.

Por um instante suspensas, o tempo de percorrer o shortinho do baby-doll todo embolado, as carícias ressurgiram na pele lisa do abdômen elástico. A mão esquerda desceu em direção à trilha percorrida pelos afagos em sua barriga, mas acabou desviando-se para a púbis morna ao mesmo tempo em que as carícias se dirigiram para o punho do outro braço.

Deslocavam-se os carinhos rumo ao ombro quando um raio de luz atingiu seus olhos semicerrados. Naquele atordoamento típico do primeiro instante ao despertar, achou que ainda sonhava ao sentir que os ternos dedos continuavam subindo pelo seu braço.

Viu primeiro as antenas tremendo.

No ombro, uma barata cascuda enorme, lustrosa, as pernas peludas, as asas membranosas, a olhava.

Um grito acordou a casa inteira. Depois, um salto. Passado um tempo, porém, sem que ela se desse conta, sua relação com tais insetos repugnantes tornou-se bem mais complexa do que um simples nojo ancestral mal fundamentado.

22 comentários em “Ela – Elisa Ribeiro

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  1. Oi, boa tarde.

    Um conto curto mas muito bem aproveitado sem nenhuma palavra sobrando e ainda assim, completo e surpreendente, com uma reviravolta daquelas.

    A trama segue sensorial do começo ao fim, mas que fim! Tanto a personagem quanto nós somos convidados a partir do prazer para um angustiante nojo de maneira muito competente pela escritora de quem tudo se pode esperar.

    Abaixo do texto, o brinde do vídeo complementa o prazer da leitura. Fiquei intrigada com a complexidade da nova relação com insetos, o que exatamente quer dizer isso?

    Acho que não vou querer saber não…

    Grande abraço, sua espertinha,

    Beijos.

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  2. Querida Elisa,

    Amo esse seu conto. Irônico, cômico, terrível, tudo junto.
    Não à toa é dos mais assistidos no Canal.

    Parabéns!

    Beijos
    Paula Giannini

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      1. Também te amo, querida amiga. Você é mais hiperativa que eu, sabia?
        Beijos
        Paula Giannini

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    1. Obrigada por me encorajar, Renata. Fiz na pressão da Paula. De qualquer forma, foi uma experiência. Obrigada por gostar, querida. Um beijo.

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    1. Só digo que foi inspirado numa situação real. Só que o cobertor era laranja. Obrigada pela leitura, Amana. Beijo

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  3. Aaaargh!!! Que horror, senti as “carícias” no meu próprio corpo. Confesso que tive que ler duas vezes, acho que não queria acreditar que vc estava falando d’ELA, a barata! rsrsrs
    Achei genial a dualidade de imagens que vc usa. Vc usa almofadas fofinhas, cor-de-rosa e bichinhos de pelúcia, e depois a barata. Vc menciona carinhos leves, sutis, até sensuais, e depois a barata. O acordar gostoso e ronronante de uma manhã de sol, e depois a barata.
    Como clímax – e não podia deixar de ser – as antenas!
    Quem nunca…
    Adorei, mesmo com os calafrios. Vc escreve como mestre!

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  4. Você, Elisa, sempre soube dar o melhor de si nos “minis”, que nas suas mãos ganham um sopro diferenciador dentro do nosso cotidiano — do sensorial e sexual ao nojento, aqui.

    Cada fragmento do texto pode ser plenamente sentido e assimilado, primeiro encanta e, depois, apavora. Eu também mudaria minha relação com o mundo dos insetos…

    E o vídeo trouxe um tchan a mais para a história.

    Parabéns, você vem se mostrando ser muito segura no hábil uso das palavras. Beijos, com carinho.

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    1. Fátima, eu tenho escrito muitos minis. Contos de até mil palavras. Tenho tentado escrever mais rápido, sem tanta reescrita, enredos enxutos, normalmente a partir do fim. E acho que isso tem feito muito bem à minha escrita. Pelo menos tenho me divertido mais. Obrigada pela leitura e por gostar, querida. Um beijo.

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  5. Que agonia! Quando era criança passei por algo parecido, só que com uma taturana daquelas pretas que deixam a pele vermelha e coçando. Tenho horror a esse bicho até hoje. Bjs ❤

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    1. Vanessa, você não tem ideia do asco-medo que eu tenho de baratas. Uma vergonha. Chego a chorar de nervoso. Só te digo que o conto se baseia numa experiência real. Mas é melhor mudar de assunto. Um beijo.

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  6. Olá, Elisa! terminei de ler o seu conto com o riso nos dentes. Sua capacidade de ludibriar o leitor, levando-o a acreditar em algo que se supõe que seja, sem ser. O mesmo se repete ao final, ao descobrir que se trata de prazer e não nojo. Quantas coisas na vida nos apresentam assim, com essa dualidade? Sua condução magistral, seu jogo sensorial preciso, a genialidade na exploração da sensibilidade do leitor, que é incapaz de passar incólume ao prazer e ao desprazer, só demonstram o amadurecimento literário de uma grande escritora. Parabéns!

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    1. Maravilhoso seu comentário, Sandra. É exatamente isso que o conto explora. Essa ambiguidade asco x prazer. Pretendo voltar ao tema porque acho que rende. Talvez em poema. Obrigadíssima pela leitura tão atenta, por gostar e tudo mais que esse nosso convívio aqui propicia. Um beijo.

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  7. Curto, mas pontual. Nada fora do lugar e aquele sorriso pela situação. Primeiro sensual, depois, sei lá. Eu também gritaria num misto de pavor e asco.
    Parabéns pelo texto.
    Abraços carinhosos.

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