Nunca usados – desafio – Fernanda Caleffi Barbetta

O café esfriando na xícara, e o Ernesto com os olhos grudados no jornal. “Vendem-se sapatinhos de bebê”, leu, reforçando cada sílaba, como uma criança recém-alfabetizada. “Mora duas ruas pra baixo. Cancelamos a ida ao centro da cidade”.
Ainda com um pedaço de pão com geleia na boca eu fui dizendo que de maneira alguma eu compraria sapatos usados para o meu filho. Ele bateu o indicador na folha sobre a mesa, com tal força que seu dedo perdeu a cor: “Nunca usados. Tá escrito aqui. São novinhos”, retrucou, agora como uma criança recém-alfabetizada que ganha uma aposta qualquer.

Em contraponto aos seus olhos triunfantes, os meus perderam o brilho e já iam se tornando úmidos. Senti até uma pontadinha na barriga. “Nunca usados?”. Já se levantando, ele continuou: “Vai lá você, porque aí já vê se gosta. E veja bem o preço. No anúncio não diz nada mais.”
Passei a noite em claro, pensando no casal que teria perdido seu bebê nos primeiros dias de vida ou, talvez, nem sei se melhor ou pior, ele nem tivesse nascido.
No dia seguinte, não sei se por curiosidade ou piedade, convenci o Ernesto a ir lá ver. Eu não teria coragem de exibir minha barrigona de sete meses ao casal em luto. E ele foi.
Quando voltou, nenhum par de sapatos nas mãos. “Eram feios, caros?” Ernesto tinha o olhar triste. E eu fiquei triste também. “Teremos que ir ao centro da cidade.”, falou com a voz baixa, revelando o motivo de seu descontentamento. “Eram cor-de-rosa. Eles também tiveram um menino”.

28 comentários em “Nunca usados – desafio – Fernanda Caleffi Barbetta

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  1. Olá, Fernanda.

    Essa frase entre aspas eu já a conhecia. Gostei do desdobramento inesperado que vc deu, contando uma história interessante e que, mesmo pequena, tem um plot twist bem bacana no final.

    Contos pequenos têm quase uma obrigação de ter um final surpreendente. Acho que sem este final, ficariam parecendo o trecho que fugiu de uma história maior. E o seu atendeu a essa exigência com mérito. Além de trazer um texto com muito boa caracterização de personagens em um espaço tão pequeno.

    Gostei muito. Parabéns e obrigada pelo carinho de sempre.

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  2. Querida Fernanda,

    Que bela intertextualidade. Seguiu o Cânone, porém, conseguiu reverter o que era triste (tragédia) para um final leve e até divertido. Afinal, que disse que Hemingway planejava um final triste? Nossas imaginações de leitores e nada mais, não é?

    Como sempre, sua escrita se revela engenhosa e muito boa. Ótima, na verdade.

    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Oie, obrigada pela leitura sempre amorosa. Sim, eu sempre pensei que este microconto deixa muitos finais possíveis e que, apesar disso, tendemos sempre para o trágico. Foi essa a brincadeira..Aproveitando a onda da fanfic do Entrecontos rsrs.

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  3. Fernandinha,

    Sensacional!
    O conto tem uma reviravolta ótima.
    A gente realmente é levada a pensar que o sapatinho novo a ser vendido tem como motivo algo triste, porque a gente pensaria isso mesmo.
    Os personagens deixam muito claro padrões recorrentes: o marido pão duro, chato, ranzinza; a esposa sentimental e submissa. Um horror.
    O final engraçado, brindado com a máxima do “meninas usam rosa” ficou ótimo.
    Beijos

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  4. Ah… que peça a vida prega… mas o que fica é o que realmente importa é a sensibilidade, as nuances que o sentimento dá bem dentro de nós, que somos capazes de nos comover com o outro.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  5. Como mãe de menina e menino sei bem o que é isso de menina usa rosa e menino azul e como a sociedade cobra! Hoje digo para eles que isso não existe que cor é apenas cor, mas ainda assim é difícil, porque os coleguinhas não pensam igual. Gostei da sua interpretação. Bjs ❤

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  6. Olá, Fernanda! Muito bom ver vc num desafio de As Contistas, aproveito para te parabenizar por sua pujante verve literária, com a facilidade de abraçar diversos gêneros de escrita com maestria. Seu texto também faz uso de intertexto, no caso, uma releitura do famoso miniconto do Hemingway, mas aqui há uma quebra de expectativa. De algo trágico, fez-se algo prosaico, tão ao nosso alcance, um homem avarento e uma esposa sensível (qual mulher não estaria em plena gravidez?) e que se sujeita, ou às vontades do marido, ou à situação econômica do casal, já que o homem mal sabe ler e podemos inferir daí que seu emprego só permite parcos rendimentos. Belíssima caracterização dos personagens, fechando com um toque de humor e leveza. Perfeito!

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  7. Ufaa! Quase não li já que estou muitíssimo envolvida com meus preciosos. Fico muito sensível quando nasce um filho. Contudo, seu conto me traz um alívio. Me fez muito bem. Obrigada querida e parabéns. Lindo.

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  8. Uma nova versão de interpretação do microconto de Hemingway. E com final leve e feliz. Afinal um bebê vindo ao mundo é sempre algo a se comemorar. Um belo exercício de escrita abrindo novas possibilidades de olhar. Parabéns!

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  9. Oi, Fernanda!
    Excelente sua fanfic..Estava aqui pensando e viajando, assim como no conto de Hemingway não consigo pensar num final apenas.
    Quem sabe o marido descobriu a morte do bebê, quis poupar a esposa? Quem sabe realmente o sapatinho fosse cor de rosa, e como se sabe, meninos vestem azul? rss
    Muito bom, adorei!
    Beijos

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  10. Um apelo emocional para sensibilizar, seguido de “uma peça”, uma brincadeira. O que significa envolver o leitor antes de lhe tirar o chão. Uma releitura de Hemingway bastante coerente e, até mesmo, com a dramaticidade acrescida.

    Gostei do aspecto fantasia/imaginação, despretensioso, que me agradou pela virada final. Parabéns pela quebra da expectativa com uma dose de humor.

    Um abraço!

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  11. Muito engenhoso e inteligente, Fernanda. Ótimo ritmo personagens super bem delineados apesar da brevidade do texto. Achei excelente. Beijo

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  12. Uma delícia de se ler!
    A frustração do marido com a cor dos sapatinhos é tão palpável que quase posso vê-lo.
    Será q ele queria uma menina?
    Parabens pelo micro fanfic 🙂
    bjs

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