Dezesseis – Evelyn Postali (desafio)

Ela avistou Murilo, próximo às árvores da pracinha, em cima da moto, como costumava estar nas manhãs de domingo. O coração doente disparou e uma náusea mais forte a fez parar, agarrando o braço do pai.

O vestido branco arrastou-se entre as pétalas de rosas brancas a cobrir parte do trecho da calçada e da escadaria da capela barroca. A ária de Bach já inundava o espaço com uma sequência de acordes suaves e juvenis. Os últimos degraus se fizeram intermináveis e a porta cresceu diante de suas 16 primaveras mal vividas.

Os adornos de lírios e rosas suavizavam o tom escuro dos bancos centenários de ébano. Os convidados sustentavam um ar de felicidade incomum.

Sentiu-se frágil, quase sem ar. Você está linda, minha filha! Avistou a mãe. Passou os olhos e percebeu os parentes vindos de longe. Esse é um momento importante em nossa família, filha. Será o casamento do ano.

Cruzou o corredor atenta aos detalhes dos ladrilhos desenhados em tons amarelos, ocres e verdes dançando na memória do ritmo da valsa que ensaiara um dia antes. O amigo de infância do pai a esperava em frente ao altar. As lágrimas de Laura verteram.

Os anjos pálidos de gesso, ladeando o altar, abriram seus olhos e estenderam os braços de estátuas em sua direção.

Pensou em Murilo a esperar por ela e um aperto no peito a tomou de abraço.

O padre não abençoou as alianças. Os sinos sequer dobraram em felicidade. Sua alma, sim, ressoou e correu porta a fora ao encontro do jovem, agarrando-se a ele em cima da moto.

Estava livre e nunca se sentira tão feliz.

13 comentários em “Dezesseis – Evelyn Postali (desafio)

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  1. Olá, Evelyn! Muito bom vê-la de volta aos desafios. Seu texto diz respeito a um vislumbre no tempo, uma janela de vidro, um abismo em que a personagem, indecisa sobre entregar-se à imposição social, provavelmente indesejada, e o sucumbir da alma ao desejo, ao que realmente nela habita. Um evento, tão real e triste em tantas partes do mundo. O ‘momento importante em nossa família’ não é o dela. Até quando isso continuará a acontecer? Muito bom!

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  2. Chega me deu um negócio ruim em pensar que a pobre noiva estava indo casar com um amigo do pai. Que coisa mais triste é o casamento arranjado com um homem muito mais velho. Sem amor.

    Marido bom fica velho, mas é aquele que a gente envelhece com ele, vive estações, partilha segredos, cresce junto. Homem idoso comprando mocinhas é muito revoltante. Vendida pelos pais, então, é de cortar o coração.

    No fim o casamento sobe no telhado e Laura vai para onde deveria.

    Um conto curto e cheio de emoções.

    Neste desafio vcs todas têm trazido contos impactantes, do jeito que eu gosto.

    Beijos e sorte, minha linda amiga.

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  3. Um conto que prende a atenção aos bocados. Apesar de já imaginar o final, soltei um suspiro de alívio com a fuga da noiva. Fugiu das convenções, do destino traçado pelo “bem da família”, da vida confortável e vazia que teria. Fugiu para ser feliz. E quem não gosta de uma rebelde romântica? Parabéns pela delícia de conto.

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    1. Só agora , ao reler, percebi que foi só a alma da menina que correu para o seu verdadeiro amor.
      O coração doente entendi como se estivesse doente de tristeza por ter que se casar com alguém que não amava. Apesar de sutil, a morte estava ali…. mas o leitor sempre acaba enxergando apenas o que quer. E eu quis um final rebelde e feliz.
      Um belo trabalho de escrita!

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  4. Oi Evelyn,

    Juro que estava torcendo para a noiva fugir desse ambiente triste, desse relacionamento sem futuro, coisa que acontecia muito e que ainda acontece.
    Que bom, ela foi.
    Esse conto é como um filme, tudo bem descrito, o que nos possibilita acompanhar Laura nos seus passos e sentimentos.
    Eu acho que nem precisava a última frase. A gente sabe que o que ela fez foi buscar a felicidade.
    Que bom que ela teve coragem pra isso.
    Muito bem descrita a cena!
    Beijos

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  5. Sua linguagem é muito visual e a gente consegue acompanhar cada detalhe da cena, as pétalas de flores pelo chão, a mãe, o pai, os convidados a dizerem que ela está linda, como uma noiva deve estar. Ao mesmo tempo sentimos a angústia de uma jovem de apenas 16 anos a dar um passo tão sério, tão importante, para toda a vida. Mas ela está lá, linda e vestida de branco, como se fosse um animal indo pra o abatedouro. É claro que torcemos pra ela fugir. E vc realiza nosso sonho. Porém, e talvez por isso mesmo, eu deixaria para revelar Murilo em cima da moto só no final do conto, pois assim teríamos uma sensação maior de surpresa. Estaríamos esperando que ela não tivesse saída, mas ao final ela tinha. Acho que causaria um maior impacto. Super parabéns!

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  6. Oi, Evelyn, gostei muito da forma como descreveu as cenas, os ambientes, o que me transportou para dentro do seu microconto. Um texto gostoso de ler, intrigante, que vai nos conduzindo a um final bastante interessante, poético, muito bonito. Só houve um deslize na escrita da palavra “afora”.
    Com relação ao entendimento da sua mensagem, após uma nova leitura, diria que para que o leitor compreenda mais facilmente que Murilo já estava morto e que ela morre no final, você talvez pudesse desmembrar o primeiro parágrafo e contar de forma um pouco mais detalhada e separadamente sobre a morte dele e a doença dela. As duas informações, tão relevantes, ditas juntas em um mesmo parágrafo, sem muito destaque, pode ter causado a confusão.
    Parabéns pelo texto. Gostei muito.

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  7. Oi, Evelyn,
    Tão bom vê-la de volta ❤
    Bom….amei seu conto, vou comentar de acordo com minha compreensão…
    Jovem com problemas cardíacos é prometida em casamento a um homem rico, mais velho, amigo de seu pai.
    Lindamente vestida de branco, conduzida pelo pai (miserável) pelo braço, ao passar pela praça da cidade vê, e visivelmente assusta-se, ou tem um incômodo, com a presença de Murilo – seu verdadeiro amor?
    Entra na igreja, familiares certamente loucos para se aproveitarem das vantagens que o casamento trará, sente-se mal, pela derradeira vez.
    Está morta a mocinha, que livre, corre para Murilo, e a felicidade.
    Amei!!
    Impactante, bonito, e com um final feliz…daria um conto maior, hein? Adoraria ler mais sobre a mocinha, Murilo, em como tudo se desenrolou, e esse seria o final.
    Parabéns!!

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  8. A mocinha fugiu de um casamento de fachada, uma união forjada para que se obtivessem vantagem social ou econômica. Tão jovem, mas conseguiu perceber que seus sentimentos eram por outro e reve coragem de enfrentar a situação.

    Parabéns pela linguagem bastante visual, Evelyn; você
    soube dar dicas na hora certa e orientar o leitor para um desfecho impactante e, ao mesmo tempo, feliz.

    A luta é real e, por ser real, cativa. O texto acerta ao transmitir a mensagem de que temos todos um lugar, de que, às vezes, precisamos sair de nossa zona de conforto para descobri–lo e de que é o que menos se espera.

    Tudo dentro de uma linguagem simples, mas muito bela e cuidadosamente trabalhada.

    Um grande abraço.

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  9. Ainda bem que ela teve a coragem de abandonar tudo e ir viver sua vida, se der errado, pelo menos ela tentou… É triste, mas ainda muito comum em nossos dias, mais do que deveria ser. Tenho esperança de que um dia as mulheres possam escolher seu próprio caminho, sem ser coagidas a tal. Bjs ❤

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  10. Querida Evelyn,

    Bem-vinda ao lar!

    Em pensar que casamentos arranjados ainda são mais comuns que imaginamos, em pleno século XXI. Mais que uma fuga, a escolha do jovem que ela ama, simboliza a libertação feminina. Uma libertação que, neste sentido de escolha do próprio amor já acontece há algum tempo, mas, que ainda se faz necessária em muitos aspectos. Mania chata a das pessoas, a de não aceitar a felicidade alheia.

    Parabéns pelo belo texto.

    Beijos
    Paula Giannini

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  11. Muita emoção neste microconto, Evelyn!
    Os pais sabiam q a moça era doente do coração? aff que agonia!
    Ela morreu, isto está claro e em seu delirio espectral, digamos assim, ela correu ao seu verdadeiro amor, livre q estava deste mundo material que a aprisionava prometida a um casamento de conveniências.
    Mas eu não consegui vislumbrar que Murilo estivesse morto, além do verbo ‘costumava’,’costumava estar aos domingos’. Eu vejo a brecha inclusive, para pensar q Murilo nunca existiu, eram os sonhos de uma menina doente e presa aos caprichos da família.. enfim.. dáo que pensar e isto é muito muito bom!!
    hehe
    Parabéns pelo conto, querida!

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  12. Temática e atmosfera extremamente românticas amalgamam-se brilhantemente nesse seu conto. destaco também a forma como você descreveu a cena, consegui visualizar uma cidade de interior, uma família conservadora a despeito da brevidade da narrativa. Sobre a questão do entendimento da trama, penso que o fato de Murilo já estar morto realmente não ficou suficientemente claro. Talvez a adição de “antes do acidente” no final do período que abre o conto resolvesse de forma sutil o problema. Parabéns pelo conto e obrigada por estar aqui conosco participando de mais esse desafio. beijos.

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