E da Cuia – Desafio – Paula Giannini

Esperou pela outra, o olho grudado na fechadura. Sabia bem o que havia. Eram amigas. Confidentes. Conhecia da fulana cada desejo, cada deslize, segredos ditos entre risos, e os não ditos confessados em madrugadas de conversas ao celular. Aos sussurros. Aos risos. Eram amigas. Eram. Não mais. Talvez sim. Quem sabe agora, mais que nunca.

Unha e carne, corda e caçamba.

A faca…

E o pescoço da outra em uma bandeja de prata barata.

O molho com as chaves já em mãos. Não era boba. Não era. Sabia de tudo. Há dias que a tal flertava com o marido. Há dias.

Esperava.

Os dois entrariam por aquela mesma porta. Não sorririam.

Não.

Não sorririam.

Mas, para seu alívio completo, finalmente se livraria da do mala.

A outra de fato era uma amiga.


(Imagem – ebc.com.br)

14 comentários em “E da Cuia – Desafio – Paula Giannini

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  1. Paulinha,

    Que bonito!
    Em tão pouco tempo de história, foi criada uma tensão suportada até a última linha (inclusive, cortada).
    Essa história fala tanto!
    Essa dúvida se quem ganha mais é a traída, por, enfim, se livrar, do traidor; ou se a comparsa/traidora, que leva como prêmio o homem, mesmo com a pulga atrás da orelha: se ele traiu ela comigo, quem garante que será fiel a mim?
    Muito bem escrito, como sempre.
    Já quero narrar esse! hahaha
    Beijos

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  2. Conto maravilhoso. Poderia virar um curta de A Vida Como Ela É do Nélson Rodrigues. Eu amo Nélson Rodrigues.

    Existe tanto disso no mundo: amigas, amicíssimas que roubam o marido da outra… Tenho uma parente, vamos chamá-la de Cristina, o marido a traiu com uma grande amiga, que também se chamava Cristina. A Cristina traída perdeu ao mesmo tempo a amiga e o marido. Flórida, né?

    No caso do teu conto, a traída já queria se livrar do bofe, aí saiu no lucro.

    Adorei este seu continho. É um contão.

    Beijos.

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  3. Olá, Paulinha! Vc nos brinda com outro texto instigante. Além da tensão, presente até o final, do clímax, com a expectativa do que está por vir, a ambiguidade permeia do início até o final do seu miniconto. Se a amiga não vai sorrir, quer dizer que já é sua cúmplice? Ou ela não vai perdoar a traição mesmo sendo a amiga sua cúmplice? Afinal, a suposta amiga flertou com o marido, com o mala do marido do qual quer se livrar.
    Uma mulher com uma faca na mão e uma ideia na cabeça é um perigo!!! kkkkkk Perfeita e perspicaz a construção do seu texto. Parabéns!

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  4. Uma mulher aguardando para dar um flagrante de adultério? Quem estava com o molho de chaves na mão? E a faca? Há tantas possibilidades! Inclusive das amigas terem combinado tudo para ela se livrar do mala. Ou não. O que sempre me incomoda é a outra levar toda a culpa, ser a única vilã. Claro que errou ao ser desleal com a amiga. Mas é o marido que se comprometeu com ela. Um amigo sempre me dizia que quem deve administrar a situação é quem carrega a aliança . Dupla traição! Parabéns por mais um maravilhoso conto!( adoro essa coisa das palavras tachadas)

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  5. Paula… Eu fiquei realmente na dúvida se as mulheres não estavam de comum acordo com relação a morte do sujeito. Confesso que entendi um duplo sentido em determinados momentos. Só posso dizer que a história do conto é ácida, e eu simplesmente amei!
    Parabéns. Sempre perfeita!
    Beijos e abraços carinhosos.

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  6. Poder de síntese total!!! Vc extrai o máximo da trama e da personagem, usando o mínimo de palavras. Muito impressionante a sua técnica. No mais, mulher é foda! kkkkkkkkk

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  7. Muito bom, Paulinha. Sempre uma delícia ir descobrindo seu texto, sempre uma leitura prazerosa… olhos grudados na tela até o fim. E por falar em fim, que maravilha essa sua ideia final de nos surpreender com a morte do cara, deixando ao mesmo tempo o “a” sobretaxado como se houve uma dúvida da protagonista sobre quem deveria matar. Um detalhe que faz tanta diferença. Isso é ser craque mesmo. E a dica deixada no texto: “Quem sabe agora, mais que nunca.”, colocando no ar essa dúvida. Muito boa a ideia do de prata, barata… amei. Parabéns, mais uma vez.

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  8. Muito bom, Paula.
    Em poucas linhas, uma história de revolta e deslealdade, com um rumo que, no final, é inusitado.
    Gostei da técnica de substituição, no caso de “prata”, por barata.
    No final o amor próprio da protagonista vence, achei formidável.
    Beijos!!

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  9. Num primeiro instante, esse triângulo amoroso pouco teria a acrescentar a esse quase subgênero. Mas um olhar mais detalhado revela outros níveis de entendimento do processo, combinando forma e conteúdo, o poder de síntese e um estilo inconfundível, regras sociais, convencionalismo e transgressões. De tudo um pouco, sem exageros, numa mistura que envolve e, até certo ponto, surpreende.

    Título , imagem e texto se fundem em vivência estética.

    Parabéns, Paula, pela sensibilidade impressionante com a qual enroupa sua escrita definidora, mas sempre cheia de sutilezas e de lirismo.

    Beijos. 🌹💖

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  10. Eita, o que aconteceu aqui? Entre pesares e dúvidas, eu fiquei com a convicção de que ela se livrou do mala e de que a amiga era mesmo amiga. Pelo menos, assim espero rsrs. Bjs ❤

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  11. Entendi que a personagem já andava doida pra se livrar do mala, ops do marido. E a amiga flertar com ele foi um ótimo pretexto para…matá-lo?
    Não me ficou claro se foi realmente a amiga carne e unha quem flertava com o marido..
    Mas entendi ao final que ela matou o marido poupando a amiga pq afinal, era amiga..mais importante do que um falso amor é a amizade.
    O texto é criativo não só pela ideia como pela estrutura.
    ótimo!
    Parabéns

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  12. Sensacional, Paulinha. A forma como você trabalhou a ambiguidade no texto foi perfeita. E esse combo de de alívio em se livrar de um mala e gratidão à amante do sujeito ficou perfeitamente retratado no seu conto. Você arrasa sempre. Beijo.

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