Pas de quatre – Elisa Ribeiro (desafio)

Tomava café e fumava na janela de seu apartamento no oitavo quando a avistou no térreo do prédio em frente. Dançava, um vestido branco transparente e esvoaçante usando nada por baixo, imaginou, já sentindo os nervos involuntariamente se tensionarem.

Nunca a notara antes, seria neta da velha horrenda que ali morava? Portava algo entre os braços, apertou os olhos, uma antiquada vassoura de palha. Um pas de deux? Na ponta dos pés, a diáfana garota talvez ensaiasse apoiando-se no excêntrico artefato. Nada mal para uma manhã embolorada, dúzias de processos a serem despachados antes do início da tarde.

Da tela do notebook sobre a mesa, a imagem sisuda de sua gerente ameaçou perturbar seu idílio. Logo pela manhã? Mau presságio. Ainda não eram oito e meia, deu as costas à chefe de volta à sua etérea princesa, as mãos já se apalpando por baixo do short lasso.  

Após mais alguns saltitos, piruetas e allongés, viu com surpresa a garota grudar a boca no cabo da vassoura, os lábios em uma suave sucção em torno, depois lambendo-o. Cerrou os olhos, as pupilas brilhantes entre as pestanas, o rosto afogueado, o pescoço quente, os dedos num infame bailado.

Ainda suspirava quando o celular brilhou uma notificação. Uma mensagem da chefe. Com a mão esquerda acedeu o aplicativo.

Um soco no batente da janela foi sua resposta. Mais uma vez a vadia da Rebeca. De novo se dando bem nas suas costas.

No térreo do prédio em frente, a tia velha da bailarina espectral varria poeira e folhas da calçada com a vassoura antiquada, a boca apertada em uma careta. Ou seria um sorriso?… de deboche?

11 comentários em “Pas de quatre – Elisa Ribeiro (desafio)

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  1. Muito bom, Elisa. Conseguiu nos presentear com uma história sensual, erótica, não sei muito bem classificar, sem vulgaridade, interessante, envolvente e com um bom toque de humor no final. Muito boa a forma como usou a dança no contexto. Gostei muito. Parabéns.

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  2. Oi, Elisa!
    Advogado às voltas com trabalhos rotineiros depara-se, certa manhã, com uma imagem inesperada e um tanto quanto surreal.
    Uma bailarina esvoaçante entrega-se com paixão à dança, e à luxúria – levando o homem, por momentos, ao delírio.
    este é desperto de seu transe por uma mensagem da chefe, que comunica a perda de uma chance de crescimento profissional.
    A figura da velha, sarcasticamente varrendo as folhas (aqui vejo uma imagem: folhas que voam com o vento, o passageiro e fugaz, na vida), me lembra a figura de uma feiticeira.
    Será? Tem mistério aí, e gostei demais!!

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  3. Pas de quatre são geralmente danças sem plotagem, interpretadas como desvios no contexto de um trabalho maior. Aqui, envolvendo também quatro personagens, a dança serviu para desviar a atenção do protagonista que terminou por perder uma oportunidade no trabalho. Analogia bastante criativa.

    A história é original e interessante, um ótimo suspense. A concisão do estilo também tornou o conto muito agradável. O conflito do personagem principal e a nomenclatura do balê foram criações de mestre.

    Um grande abraço.

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  4. Pobre coitado que não pode alucinar em paz. Poxa, seria demais desejar um único dia diferente do estresse do trabalho contínuo, rsrsrs? Seria cômico, se não fosse trágico, não é? Bjs ❤

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  5. Querida Elisa,

    Para quem disse que postou um texto morno, este aqui está bem quente…

    Gostei muito, sobretudo da linguagem e do modo como você tramou o texto, enredando o advogado na sedução da menina, sem deixar que os coadjuvantes, – que em um primeiro olhar parecem meras peças decorativas -, tivessem um papel chave e importantíssimo no desfecho.

    Muito bom! Bem escrito e delicioso.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  6. Uma mão para cada coisa, não é?!
    kkkk
    eu ri!
    Muito bem escrito, uma historia bem sacada e divertida. E com um mistério!
    Isto deu uma camada a mais a um conto tão pequeno! Inteligentíssimo.
    Suponho eu que a menina não existe, a velha é bruxa!! kkk
    Muito bom
    Parabéns, Elisa

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  7. Elisa, adorei! Um recorte interessante da vida entre janelas. A linguagem visual deixa tudo à vista, a transparência do vestido da moça, o pênis rijo do cara por baixo do short. E a surpreendente cena da moça beijando o cabo da vassoura. Jamais teria imaginado essa parte. Mega fálico. O conto todo costurando pra dentro. E no final, aberto, será que ele imaginou a garota, que era na verdade a velha? Muito sugestivo. Parabéns!

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  8. Muito bom o jogo de personagens e imagens que você construiu. A bela e leve bailarina acaba promovendo uma cena erótica ao grudar a boca no cabo da vassoura. Curiosamente, no final aparece “a tia velha da bailarina espectral varria poeira e folhas da calçada com a vassoura antiquada, a boca apertada em uma careta.” Aí eu me pergunto se não eram as duas a mesma mulher, nas versões fada e bruxa.
    Enfim, uma narrativa curta construída com muita habilidade e inteligência. Encanta e surpreende. Parabéns!

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  9. Tem um quê de surreal essa cena, uma dança entre o real e o imaginário, um pé no humor e um pé no terror, porque vi a bailarina e a bruxa na mesma imagem, jogando com seu brinquedinho, ele, a observar da janela. Tive quase certeza de que ela/ambas, sabiam exatamente o que estavam fazendo e o que ele pensa quando observa. Incrível, esse conto.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  10. Elisa!
    Que legal, baita flash de um momento curto em que aconteceu tanta coisa.
    Essa é a receita de um bom micro.
    E me deu muita vontade de narrar!!
    O tom de sensualidade, elucubração e chatice do trabalho foi uma bela mistura.
    La no início, me tranquei no vestido / vestindo. Só isso, mas nem precisava falar.
    Adorei!!!

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  11. Perder o treinamento e herdar os processos da colega foi o castigo para o esganador de Pikachu aí do seu conto. Gostei da vizinha ardilosa fazendo catimbó para prejudicar o tarado. Decerto ela já sabia dos maus hábitos do sujeito. Bem feito para ele. Muito bom para nós que nos divertimos com esta joiazinha.

    Beijos, Elisa.

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