O mar não está para peixe – Sabrina Dalbelo (desafio)

Agonia.
Remavam em desespero contra a maré. O fôlego faltando, a esperança afundando. Destroços por todo lado, de todo tipo. A queimação do sal do mar na garganta. Sal que não era apenas sal, não mais.
Uma família unida tentando sobreviver, todos juntos. Logo eles, tão acostumados àquele ambiente, crias do mar. Logo eles.
De mãos dadas, a família de mariscos tentava se agarrar ao frasco de soro fisiológico. Precisavam.

Nadem!

Os maiores e mais velhos chegaram primeiro e acoplaram-se ao frasco. Os menores grudaram-se aos maiores, em cadeia.

Terra à vista!

O bote salva-vidas, que também serviria de cilindro de respiração, boiava em direção à margem. O percentual de pureza era uma lembrança desgastada do rótulo, mas isso não importava. A confiança no conteúdo impoluto gerou sorrisos. A possibilidade de salvação gerou força. Essa era a chance de respirar limpo.

Ninguém solta!

O mar não está para peixe.

13 comentários em “O mar não está para peixe – Sabrina Dalbelo (desafio)

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  1. Que legal esse seu micro!!! No começo a gente nem imagina do que se trata, e quando nos é revelado vai ficando cada vez mais interessante. Adorei as partes em azul, poucas palavras que deram um toque especial ao texto. Divertido e gostoso de ler. E o final é excelente. Parabéns.

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  2. Deixando de lado um sentido meramente denotativo ( uma família em um acidente no mar), para pôr em prática a duplicidade de sentidos, ou mesmo sua plurissignificação, leio no micro uma alegoria ( a familia lutando contra um mal que os atingiu, moral ou físico ou mesmo o Covid).

    Parabéns pela ideia e execução. A estruturação deixou o texto muito sugestivo. Amei! Beijos.

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  3. Eu imaginei em agonia uma família de mariscos sendo pescada. Não gosto de carne, não me sinto bem em imaginar a agonia dos peixes sendo pescados, sufocando sem nadar. Acho triste, mas o que posso fazer? O mar não está para peixe como a terra, em pouco tempo, não estará par gente. Bjs ❤

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  4. Eu li assim que vc publicou, achei criativo demais!
    Até as frases estão dispostas de forma criativa.
    Uma familia de mariscos pra lá de inusitada, tentando salvar-se da poluição ou mudança de seu habitat.. tentei imaginá-los sorrindo! kk foi um exercício inusitado tb!
    Gostei muito!
    Parabéns, Sabrina!

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  5. Muito boa a alegoria criada. O mar não está pra peixe, ou seja, a situação não está favorável para ninguém. Mas podemos enfrentar as ondas – sejam do mar ou da pandemia – se nos unirmos. Também devemos buscar por um suporte, apoio, tábua de salvação – de preferência feito de material reciclável – para juntos alcançarmos a terra (quase) firme.
    Imagens muito bem construídas, com ritmo e linguagem apropriada que traz leveza a um tema difícil . Parabéns pela elaboração de uma ideia criativa e atual.

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  6. Querida Sabrina,

    Quando iniciei a leitura, pensei em uma família de exilados. Engraçado, pois tenho um texto de exilados inacabado (um conto) que usa essa frase “todos juntos”. Então, qual não foi minha surpresa ao descobrir que eram mariscos. E é justamente aí que reside a mágica do texto. A capacidade que a autora tem de fazer com que o leitor se coloque na situação desses pequenos seres.

    Sabrina Dalbelo, com toda a sinceridade do mundo, sua escrita, ao menos para esta leitora aqui, está a cada dia melhor.

    Beijos
    Paula Giannini

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  7. Divertido e crítico ao mesmo tempo. Um conto de união, de força coletiva, solidariedade mútua, esperança. Mesmo quando o mar não está pra peixe, porque o ser humano não vale nada e “caga” a porra toda! rsrs Amei!!!!

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  8. Um texto que se abre em múltiplas possibilidades de leitura. Mesmo escrevendo contos, você é uma poeta. O que dizer mais? Poderia estar no Rasga Ossos, não acha? Parabéns, querida, por mais esse texto inquietante e enigmático. Beijos.

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  9. Oi, Sabrina,
    Uau…muito bom!
    Vi no seu micro uma metáfora para a família de mariscos, uma família (na verdade uma família mais ampla, a Humanidade) lutando contra essa pandemia, representada aqui pelo frasco de soro, a necessidade de não desistir, de lutar, rrespirar…forte, emocionante.
    Parabéns!

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  10. Mariscos ou pessoas, todos lutamos por nossas vidas. Muito inteligente a sua ideia de usar mariscos, forçando o leitor a uma comparação imediata da família de mariscos com uma humana. As reações, os sentimentos, as palavras o ato de agarrar-se às esperanças como se estivessem se ligando a um rochedo, seu habitat natural, mas navegam ao sabor das ondas agarrados ao descarte de um lixo do homem. Irônico, não é? Até o tudo de soro, sempre visto como algo prejudicial tem a sua função no texto que brinca com a ideia natural que temos de tudo. Parabéns.

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