O quadro – Elisa Ribeiro (desafio)

Instalou-se bem cedo em um banco no meio da praça: cavalete, pincéis, tela e tintas. Luz e ângulo perfeitos, pôs-se a pintar: o céu, os passantes, os automóveis, os edifícios.

Logo, alguns suspenderam a pressa da segunda-feira lenta para assistir-lhe o manejo dos pincéis, a forma como misturava as cores sobre a tela transformando em beleza o prosaico daquela manhã sem brilho. Um ou outro comentava qualquer coisa, a maioria apenas observava em silêncio. Um morador de rua, entretanto, esquálido e pardacento, coberto por uma formidável manta escarlate, grato por aquele momento, arte na manhã ainda fria, presenteou-o com um saco das balinhas ordinárias que vendia. Sorriu em retorno, aceitando um pouco constrangido, os olhos registrando ângulos e sombras, força do ofício.

No quadro finalizado no atelier dali a dois dias, o manto sanguíneo em contraste com a cidade cinzenta e o azul do céu aquecido pelo sol ainda oblíquo, o brilho aceso nos olhos do artista refletido.

Jamais o venderia.

11 comentários em “O quadro – Elisa Ribeiro (desafio)

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  1. Ah… eu entendo esse sentimento. O olhar do artista é sempre inusitado, sempre um quadro de sombras moldado pela luz, ora de amores, ora de dissabores. Um artista sempre esconde o que mais o representa.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  2. O artista verdadeiro faz a arte por ela mesma, sem interesse, sem pensar no que vai ganhar. O quadro não foi apenas mais uma pintura para esse artista, mas o lembrará que sua arte fez o dia de um simples cidadão mais feliz. Adorei! Bjs ❤

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  3. Há um pensamento de Fernando Pessoa que quero trazer à baila para reflexão: “A arte existe porque a vida é insuficiente”. Acho que se encaixa bem com este texto. A partir daí podemos nos perguntar: como a arte pode compensar o bastante em nossa vida?

    Com aquela pintura o artista expressou sua emoção, seu agradecimento pelo saquinho da balas. Eu também não a venderia.

    Apreciei muito o requinte com que você foi compondo o conto. Parabéns pela técnica, pela escrita limpa e clara, retratando muito bem a cena na rua e a tela.

    Beijos ternos.🌹

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  4. Que bonito!
    Este manto escarlate na tela me arrebatou!
    Realmente, o artista capta a arte em tudo! Muito bonito isto! Muito bonito o texto!
    Parabéns

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  5. O olhar do artista alcança beleza em contrastes que fogem aos que se apressam a seguir por uma vida banal. Enxerga o lado oculto de muitos rostos e decifra a realidade de muitas paisagens. E sua arte, aquela que se fez sua essência, não tem preço e não pode ser vendida. Talvez ofertada como recompensa pela inspiração.
    Lindo texto, com final arrebatador. Parabéns!

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  6. Belo seu olhar sobre o sentimento do artista. Ainda mais o artista de rua, que se inspira na rua e nas coisas que a ela pertencem. Não é surpresa q o único a retribuir o pintor pela pintura do quadro tenha sido o homem que mora na rua, que não tem nenhum dinheiro pra dar. Mas que se comove e se identifica de alguma forma com aquele que pinta. A beleza da arte está no que ela não mostra. Ótimo conto!

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  7. Querida Elisa,

    Como o artista que pinta sua tela, a autora compõe o texto a fim de convidar o leitor a vislumbrar para além da obra pronta. Aqui, acredito que a experiência tenha sido um convite para que o leitor acompanhe a composição do quadro do início ao fim em suas camadas, desde o esboço até a finalização que, obviamente, dá-se também sob influência do que corre ao redor do artista.
    Uma obra investigativa.
    Muito bom, parabéns!

    Beijos
    Paula Giannini

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  8. Oi, Elisa..
    Agora você me levou às lágrimas com tanta beleza e poesia, em meio à uma situação de dor, de invisibilidade e que poderia ser corriqueira, mas que você transformou em arte bela. É disso que falo, sobre falar de forma bonita, daquilo que é “feio”. Você domina.
    Parabéns, beijos!!

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  9. Oi Elisa,
    Eu estou com esse artista, às vezes a paisagem menos capaz de enternecer o olhar, a depender da percepção, é aquela mais difícil de ser esquecida.
    O conto, assim como a tela do pintor, traz a ideia de que tudo pode ser visto por outro ângulo, percebido pelo sentimento, pelo que marca e fica na gente.
    Adorei. Beijos

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  10. Só um sensível pintor para enxergar a beleza contida numa pessoa invisível para quem ali transitava. Para entender certas coisas é necessário que estejam abertos os olhos do amor. Achei bem legal que o morador de rua com o seu lindo manto vermelho fosse a parte mais bela e vibrante no meio da tela cinza de pessoas comuns. Parabéns.

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