ENCONTRO MARCADO – (desafio) – Claudia Angst

Observa os gestos, o modo como ele inclina o corpo enquanto acende outro cigarro. Sente uma curiosidade desconcertante por aqueles olhos que desconhecem fronteiras.

Ele apenas olha, impaciente, sem conseguir camuflar a voracidade de predador. Olha. Insistentemente, salivando intenções.

O xale desliza pelos ombros, descobrindo os seios. A nudez embranquece a cena criada, espalhando pontos difusos de luz. Neve quase translúcida.

O tique taque do relógio parece desacelerar. A inesperada pausa distrai os pensamentos. A madrugada inunda as horas com a imprecisão dos sentidos. Se houvesse uma palavra que definisse o momento, teria tantas sílabas que estas se embaralhariam no céu da boca.

Mensagens surgem com a velocidade de um desejo recém-inaugurado. Intimidade rasgada, estranhos cúmplices. Os olhos permanecem fixos, agora quase sem piscar, esperando menos pano e mais pele.

Uma madrugada qualquer, sem marcas, apenas olheiras. Depois de alguns minutos, o piscar de olhos anuncia alívio. Ela percebe a satisfação desenhar-se em um sorriso.

Suspende o xale, sentindo a maciez da seda. Fim de conversa, determina.  

A tela silencia.  

11 comentários em “ENCONTRO MARCADO – (desafio) – Claudia Angst

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  1. Um encontro marcado virtual. Moderno. Diversas pessoas vivem um namoro virtual e dão muito certo, talvez porque nem se conhecem, talvez porque seja, de certa forma platônico.. Outras começam um namoro através da internet e o levam para a vida de fora.

    Texto bastante sugestivo, bem escrito e cheio de sensualidade. Muito verossímil. Parabéns. Um grande abraço.

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  2. Mas homi é besta mesmo, né? qualquer nudez o satisfaz..kkk
    Conhecia este texto.. adoro ele!!
    Um retrato do que acontece todos os dias, todas as noites em um número de vezes aterrador por ae pela internet mundial! :p
    E como sempre, escrito com a poesia que nos arrebata!!
    ‘Se houvesse uma palavra que definisse o momento, teria tantas sílabas que estas se embaralhariam no céu da boca.”
    Maravilhoso!!
    Parabéns, baby

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  3. Olha… Esse conto é muito bom. Essa sensualidade imposta na narrativa através de palavras específicas deixou tudo muito mais ‘quente’. Nada fora do tom, nada quebrando a linha sensível que tange a pornografia. Tem um véu, encobrindo toda a cena. Suas palavras foram perfeitas em cada momento.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  4. Sexo virtual, a meu ver, exige maior preocupação com a sensualidade das palavras, já que o explícito, numa tela, perde toda a sutileza. Vc conseguiu transformar uma cena que poderia ser banal, frívola, em algo poético, quente, substancial, nutritivo. Conto muito bem construído. Parabéns, Claudinha!

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  5. Amei, Claudia. Que clima. E o final, ao menos para mim, foi surpreendente. Não imaginava um encontro virtual. Achei seu conto perfeito. Vai render um ótimo vídeo. Parabéns!.

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  6. Oi, Claudia, que texto maravilhoso. Vc trabalha muito bem com as palavras. Interessante como você consegue nos fazer entrar no seu cenário de forma tão poética, com um clima de mistério, uma névoa que não nos deixa ver tudo, mas que nos coloca lá. Muito bom. Gostei muito deste trecho: “Se houvesse uma palavra que definisse o momento, teria tantas sílabas que estas se embaralhariam no céu da boca.”, sensacional. A palavra Mensagens me deu um sinal do que viria no final, eu sai do muito real e entrei no virtual, não sei se foi cedo demais. Mas o final foi ótimo de qualquer maneira. Parabéns.

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  7. Gostei de tudo. Das palavras que você direciona tão bem para evidenciar a sensualidade, Claudia, do deslizar das cenas de forma tão natural que parece um filme, do desfecho: a mulher decide, é fim, tchau, querido rs.
    Adorei!!

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  8. Claudia,
    Gostei muito!
    O tom de sensualidade foi dado pelas palavras certas. A gente vai lendo o conto e entrando do jogo da sedução dos personagens. A linguagem foi um diferencial para uma cena simples ser contada em alto nível.
    A primeira vez que eu li (dá uma lida pensando no que te digo), pensei se tratar de um pintor pintando uma tela de uma mulher enquanto descrevia as roupas que aos poucos ia pintando (ou não). A palavra tela no final abriu essa brecha, na minha primeira leitura.

    Muito bom!
    Bjos

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  9. Rsrs, interessante. Não esperava pelo final. Foi tão real que parecia físico, não virtual, por isso mesmo ficaram satisfeitos. Adorei. Bjs ❤

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  10. Um final inesperado, realmente. Ainda bem que eu não li os comentários, ou iria perder o impacto da revelação. Imaginei que a moça era uma prostituta se exibindo para um possível cliente. Mas nada é óbvio na criatividade da Claudinha.

    Há uma forte aposta no sensorial quase impossível, restando a visão e audição para criar um clima,onde o toque seria a perfeição. Nem tudo é o que a gente deseja.

    Muito esperta. Um grande abraço, mulher. E parabéns.

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  11. Olá, Claudinha!
    Como você escreve, minha amiga! No primeiro parágrafo, acompanhamos o ponto de vista dela. No segundo, o ponto de vista dele. No terceiro, acompanhamos ela novamente com seu desenrolar de roupas. Nos restantes, a seleção correta das palavras para falar de sedução virtual com a elegância que só você sabe dar. Nada é demais, nada é vulgar. Parabéns, minha amiga! Maravilhoso!

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