Trinta minutos – Elisa Ribeiro (desafio)

Levantou-se assim que a mãe sentou de volta com mais meia dúzia de pães de queijo, uma montanha de ovos mexidos e a terceira chávena de café com leite.  Iria esperá-los lá fora, no alpendre, estava satisfeita. O pai fez que sim com a cabeça, a boca cheia de presunto com bacon.

Odiava aquela parte das férias, todo ano no mesmo hotel fazenda. A demora naquela primeira refeição do dia, o tempo perdido, a falta de limites dos pais diante da fartura da mesa.  Sentou-se no degrau, o sol oblíquo dourando os cabelos presos, o chicotinho em movimento arrancando folhas do canteiro.

Ouviu uns grunhidos à sua esquerda. Nunca vira porcos assim à vontade, livres das baias de uma pocilga ou de um cercado. Os porquinhos miúdos em torno dos maiores, todos esparramados na lama fresca feita pela água de um cano aprisionada em uma vala.  Olhou os próprios pés, as botas apertadas, quase novas embora do ano passado, o jeans justo, a jaqueta vermelha acolchoada. Seria sua segunda vez montando um cavalo, passara o ano aguardando aquele momento. Franziu a testa envergonhada de sua ansiedade diante da felicidade suína em simplesmente espojar-se na poça recém formada.

Lembrou-se vagamente da cena, a porcalhada se refrescando feliz, alguns anos mais tarde quando uma colega de classe cochichou ao seu ouvido durante o recreio que o orgasmo dos porcos podia durar até trinta minutos. Riu meio sem graça, faltavam-lhe ainda parâmetros para entender a piada.

Tornou a ler sobre essa incrível distinção entre porcos e humanos na meia idade, dedilhando a esmo o celular durante o café da manhã, antes de ir para o trabalho, as crianças já despachadas para a escola.  O marido, escarrapachado na cadeira, mastigava o misto quente com a boca aberta fazendo um barulho que ela odiava, mas já desistira de pedir que ele o evitasse. Suspirou profundamente, descalçou o escarpin apertado sentindo com delícia o contato do porcelanato frio em seus dedos tesos, laceou dois pontos o cinto, desfez o coque que aprisionava a cabeleira farta.

Talvez ainda não fosse tarde.

14 comentários em “Trinta minutos – Elisa Ribeiro (desafio)

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  1. Ahh.. poder entregar-se aos prazeres com naturalidade… relaxamento. Me parece q é isto que a personagem nunca se permitiu.. relaxar.
    Gostei muito da tecnica do passar do tempo em um conto tão pequeno.
    Parabéns

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  2. Alguns passam pela vida surfando. Outros, deixam que a vida passe atropelando. E os porcos é que são felizes, mas o abatedouro é o fim de todos; é o mesmo para todos, querendo ou não. O diferencial é o tempo investido em prazeres, nem sempre carnais, nem sempre banais.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  3. Seria o prazer uma porcaria? Seriam os porcos mais felizes? A ansiedade da menina transformada na postura contida da mulher. A protagonista se dá conta de que a realidade a sua volta continuará a mesma, a rotina seguirá como o mastigar desagradável do marido. E assim, faz o que pode para se livrar do peso da realidade – descalça os sapatos (apertados), solta os cabelos (presos), laceia o cinto (opressor). É hora de se libertar das amarras e viver as pequenas descobertas com os pés no chão e alma leve.
    Parabéns pelo conto!

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  4. Oi Elisa, ❤
    Para variar, tu nos brinda com as palavras não ditas e as histórias não contadas que redundam em um ótimo conto.
    Teu texto, apesar de ser muito bom no conteúdo, me chamou atenção pela forma de contar, pela estruturação.
    O tempo aqui é diferente. A menina, a mulher, confundidas em uma só com um passar do tempo cadenciado e pouco marcado, mas que acontece diante de nós.

    E a vida acontece, tantas coisas acontecem. E será que mudamos quem somos, do que gostamos ou não?

    Beijos

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  5. OI, Elisa, interessante a sua ideia de rretratar dois tempos distintos em seu microconto. Confesso que fiquei um pouco confusa quando houve a quebra do tempo, eu realmente não esperava este salto. Muitro bem escrito, como sempre. Gostei da forma como usou as roupas justas para falar de uma vida sufocada tanto na primeira quanto na segunda parte do texto. Parabéns.

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  6. Um ímpeto nato em esmiuçar, pelo dom da palavra, a encenação do ser na coragem do perder os remos da representação, mergulhando e chafurdando seus interiores pelo não-método, e lá, alcançando, o discernimento dos dejetos que aprisionavam a protagonista.

    Um conto profundo. Não pode ser lido e forma indolente, exige atenção, e ainda assim, é impossível pescar cada metáfora ali imiscuída. Pareceu-me uma jornada para explicar o inexplicável. Elisa, você se saiu muito bem ao dar essa impressão e sensação.

    Parabéns. Um abraço.

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  7. Querida Elisa,

    Embora acredite que sua experiência aqui tenha sido com o tempo em um microconto, o que de fato funcionou, o aspecto que mais me chamou atenção em seu texto foi a estratégia de, falando em um assunto, abordar, de fato, outro. Enquanto narra a vida da menina e seu mal humor, sua visão dos porcos, a chatice dos pais, enfim, você desenha aos poucos a possibilidade de uma pessoa tornar-se diferente em algum momento, ansiando pelo diferente, sonhando em libertar-se, mesmo sem ainda o saber. Quase como uma camada sob a outra.

    Muito bom e gostoso, e, embora eu não coma carne, muito menos a de porco, desde que vi um porquinho aprisionado para o abate, sonhei com um queijo quente com refrigerante. rsrsrs

    Parabéns, como sempre.

    Beijos
    Paulal Giannini

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  8. Ah, me lembrou aquela música da Rita Lee, ” um dia eu quero ser índio, viver pelado pintado de verde num eterno domingo”. Como é bom nos imaginarmos assim livres, sem travas, sem amarras, só o prazer, pés descalços, chafurdar na lama e… gozar por 30 minutos!!!! Ô glória! Kkkkkkk

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  9. Elisa, seu conto é daqueles que adoro – é necessário às vezes um olhar mais atento, até uma segunda leitura, para entender e captar mensagens que certamente vão além das palavras compostas em frases.
    A libertação da protagonista, ao tirar os sapatos e constatar que talvez ainda não fosse tarde, a lembrança de que o orgasmo dos porcos dura trinta minutos (gente, é isso mesmo? rs), o marido, também grunhindo…mil possibilidades em um texto muito significativo.
    Amei!!

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  10. A Ju disse tudo, rsrsrs. A vida é muito curta para viver com sapatos e cintos apertados, cabelos presos e maridos escarrapachados. Bjs ❤

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  11. Aquilo que, aparentemente, parece banal ganha importância e reflexão sob a mágica pena da Elisa. A menina que observa e se constrange. Os pais são porcos, o marido é porco, a vida é uma porcaria, a dela. Os únicos felizes são os porcos se espojando na lama sem se deprimir com o inexorável destino do assassinato.

    Coração de porco deve ser muito forte, né? Trinta minutos? Misericórdia!

    Curtido por 1 pessoa

  12. Olá, Elisa!
    Seu miniconto faz uma passagem de tempo com uma habilidade extraordinária. As roupas justas, os cabelos presos, o laceamento do cinto, o relaxamento dos dedos dos pés ao contado com o chão, tudo causando um prazer há tempos não sentido, há tempos desejado, tornar-se livre das amarras. Vc tem uma capacidade de narrar uma coisa querendo na verdade falar de outra. Isso é para poucos. Parabéns!

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