Entre Abutres – Catarina Cunha

O que a faz chorar mora na eternidade das horas. Que entre pela porta agora, para que a tua essência abutre desabe pela sala e aquele livro que você lhe deu, e não leu, repouse estático sobre os pedaços de ti. Que, antes de questionar qualquer “que”, vislumbre uma fêmea complicando a existência dos olhares e o pôr-do-sol, que se consome na estática retina das ondas. Vem e vai, entra e vem e vai; para. Até então não há verdade, só uma mulher planando sobre teus pesadelos. E esta mulher sabe quem você é e de onde veio. Esta mulher gera luz sobre o passado e pedra a humilhação com um sorriso. Suga esse ser que verte líquidos por todas as bocas. A boca do dia soltando sopas de letrinhas ou furiosas maiúsculas, a boca da noite em sopa rubra em prestações mensais, branca de prazer ou de piscina estourada de neném. Pois que mortal é a enxurrada da boca da alma: os olhos molhados fixos em ti. Esse ser deslizante, ora fúria ora além, às vezes fora de hora, trafega entre os abutres com os olhos no céu e as pedras do chão dominadas. Até porque nada tem a explicar; tal qual predadores.

10 comentários em “Entre Abutres – Catarina Cunha

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  1. Oi, Cat! Um texto com a marca “Catarina Cunha de ser”. Fluxo de consciência, com cada palavra muito bem pensada em seu lugar para criar sensações nos leitores, cada qual à sua forma. Adoro isso. Desse jeito chego até a achar graça em abutre, rs. Apesar do que eu disse sobre a sensação criada nos leitores, a impressão que me dá é que foi um texto feito mais para você mesma do que para os outros, ou seja, sem pretensão de nada, a não ser de escrever esse fluxo. Obrigada por compartilhar!

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  2. Um texto enigmático que requer releituras para apreender o significado. Para mim, soou como um flash de um relacionamento entre pessoas que se vampirizam, abutres na metáfora usada no texto. Eu gosto, me conectei com as imagens usadas no texto exceto uma que está martelando aqui incompreendida: “piscina estourada de neném”. Gosto do ritmo e da fluidez também. Bom regresso, amiga. Que continue conosco porque muito nos acrescenta. Um beijo.

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  3. Oi, Catarina,
    Como é bom ver você de volta, ou melhor, sendo vista por aqui, porque você nunca se foi.
    Bom, o que dizer de um texto tão profundo, complexo e amplo nas imagens e possibilidades de interpretação – tão ao mesmo tempo “você”, mas que serve para um todo?
    Eu compreendi nas linhas a passagem da existência, as muitas nostalgias, preocupações(quase sempre vãs), o ser mulher, no “a boca da noite em sopa rubra em prestações mensais..” e “piscina estourada de neném” – seria uma a menstruação, a outra uma metáfora para o útero de uma mulher que entra em trabalho de parto, a bolsa, estourando? Talvez sejam viagens minhas, mas adoro.
    Os ciclos. Beijos!!

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  4. Intenso!
    Um relacionamento a partir da visão da mulher, que visceral, sofrida, amarga este homem, este abutre que a domina e o coloca num grupo de machos abutres, como se todos fossem predadores de fêmeas.
    Como disse, intenso!
    Abraço, Cat!!

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  5. Gostei desta visão da essência feminina bem crua e até assustadora que deve ser para os homens. Uma visão que vai da alma à carne em poucas mas certeiras palavras. Uma análise muito verdadeira sobre este ser que somos (este ser que verte líquido por todas as bocas, quando fala, quando menstrua, quanto tem filhos, etc). Acho realmente os homens têm um certo receio de nós. Um texto surpreendente. Beijos.

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  6. Um texto curto e muito “catarinesco”. Intenso e com foco em uma verdade visceral, que mesmo inconsciente, abriga o mundo. A mulher e a sua complexidade, seja de hormônios, seja de humores, o vai e vem inconstante como a vida que gera, é luz e escuridão, princípio e fim, espécime rara entre os abutres do cotidiano.
    Muito bom!

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  7. Querida Catarina,

    Você é incrível. Curto e certeiro. Muito bom. Muito nó, mulheres do século XXI, tentando nos desvencilhar das garras dos abutres.

    Beijos
    Paula Giainni

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  8. Olá, Catarina!
    Você arrasa na escrita! Falar de um relacionamento insípido, falar de ‘ser mulher’, das agruras que as mulheres passam ao dar a luz, ao menstruar, aos humores inconstantes, aos sofrimentos e o final arrebatador, igualando-nos aos mesmos direitos de ser predadores quanto qualquer abutre. Vc escreve muito, minha amiga! Curto, afiado, fenomenal!

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