Ciúme – Elisa Ribeiro

Quando era Maria Helena a primeira a despertar, abria só o olho direito, o outro, mantinha fechado. Virava-se, então, para o lado esquerdo da cama, aquele onde o marido não estava, e aproveitava para pensar um pouco na vida, sossegada.

Paulo achava um milagre gostar tanto da mulher. Após tantos anos, ainda admirá-la apaixonado. Enquanto a olhava deitada, imaginava como ela acordaria. Se o abraçaria daquele jeito, com todo o corpo, ainda entorpecida, o transe do sono ainda não completamente dissipado, ou se saltaria da cama direto paro o banho, agitada.

Já Maria Helena gostava de Paulo apenas um pouco mais que de Fred, seu cão, um buldogue francês feioso e mal-educado. Cuidava sem esforço das necessidades de ambos e em troca recebia amor incondicional, manifesto no abanar incontinente do rabo cotó, quase inexistente, de Fred ao vê-la e na admiração cega e persistente de Paulo.

Paulo acordou antes da mulher. Gostava quando isso acontecia. Podia observá-la dormindo, calma e muda por um instante e aplicar-lhe, sem restrições, seu olhar meticuloso que ela tanto detestava. Olhar que lhe escrutinava as virtudes e os defeitos, uma deslealdade que a intimidade de dormir e acordar juntos lhe facultava.

Que não lhe correspondesse Maria Helena, a Paulo pouco importava. Bastava-lhe o amor que ele próprio a ela dedicava. Amor que o inspirava, animava-lhe os dias, uma dádiva, bem-aventurança da qual se orgulhava.

Na lida daquele amor já cinquentenário uma coisa, contudo, o atormentava. O medo de perder Maria Helena. Não o medo da morte, mais plausível naquela altura da vida, mas o medo de algum outro homem interpor-se entre ele e ela.

Desde que a conhecera esse tormento o inquietava. Pensava que estaria livre quando a velhice, a sua própria ou a dela, enfim, chegasse. Prestes a completar oitenta anos, entretanto, o demônio do ciúme ainda o torturava.

Passava das nove, o pescoço lhe doía de estar de lado, imóvel na cama para não a despertar. De tão imóvel, seus olhos pesavam querendo fazê-lo acompanhar Maria Helena em seus últimos minutos de sono matinal. Contudo, ao ouvi-la murmurar algo que lhe pareceu um nome de homem arregalou-os e viu que a mulher sorria. Um inequívoco sorriso de prazer.

Aguardou um instante, mas o murmúrio não tornou a ocorrer. Apenas o sorriso continuava. Enciumado daquele prazer do qual ele não participava, sacudiu-a de leve e perguntou com o que ela sonhava. Maria Helena respondeu que não sonhava num sussurro de quem ainda não estava completamente acordada.

Paulo insistiu: “Como era possível que não sonhasse, pois se sorria e dissera o nome de um — homem!” Maria Helena despertou, pulou da cama com raiva, numa agilidade que aos setenta e dois, como um milagre, ainda não lhe faltava.

Bastava daquilo! Foi para o banheiro, irada. Cinquenta e um anos juntos, oitenta de idade recém completados. Por que aquele homem insistia em atormentá-la com ciúmes de fantasmas que só existiam em sua cabeça perturbada?

O marido foi atrás dela no banho, mas a porta estava trancada. Esperou-a na cozinha, cabisbaixo. Preparou o café e arrumou a mesa rogando que o chuveiro a acalmasse.

Maria Helena chegou à cozinha quase pronta, com roupa de rua, mas ainda despenteada. Olhou para Paulo com uma expressão exagerada de cólera e tristeza com a qual ele já estava acostumado. Num tom grave e dramático disse que bastava, não aguentava mais, o casamento havia acabado.

Ele quis rir, mas não se atreveu, a mulher já estava suficientemente irritada. Encolheu-se mais ainda e sem saber o que fazer, disse que havia feito café e perguntou se a mulher aceitava.

Maria Helena fez a cara mais feia do mundo, uma bruxa velha, despenteada como estava, com os cantos da boca voltados pra baixo, a testa franzida no meio, as narinas dilatadas. Não disse nada, deu as costas em direção ao quarto para terminar de arrumar sua mala.

Paulo fingia ler o jornal sentado no sofá da sala quando Maria Helena, bolsa de viagem numa das mãos e Fred aninhado no outro braço, olhou-o com a mesma raiva de antes e disse que ia com o cachorro para o apartamento da praia. Que ele não a procurasse.

O marido suplicou num fio de voz que ela se acalmasse. Ela o olhou, fulminando, não disse qualquer palavra e saiu batendo a porta teatralmente, mas cuidando de que os vizinhos não escutassem. Paulo deixou-se ficar trêmulo na poltrona até que o coração se acalmasse, depois pensou quantos dias se passariam até que a mulher o procurasse, que ele lhe pedisse desculpas, jurasse não mais ter ciúmes, mandasse flores e uma joia não muito cara, o ritual de sempre, até que ela, enfim, retornasse.

12 comentários em “Ciúme – Elisa Ribeiro

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  1. Sempre muito bom ler seus contos, que sempre fluem com naturalidade e nos envolvem logo de cara. “Já Maria Helena gostava de Paulo apenas um pouco mais que de Fred, seu cão, um buldogue francês feioso e mal-educado.” – adorei rsrs. O finalzinho, então, genial. Parabéns.

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  2. Oi, Elisa,
    Então, um conto que nos traz uma rotina para muitos casais…achei interessante o detalhe de serem casados há 50 anos, e tudo continuar da mesma forma…credo rss
    Acho que Paulo, como todo ciumento, tem aquele desejo oculto de estar mesmo sendo traído. Deveria se conformar com o amor que a mulher sente por Fred, e pronto (inclusive acho que Fred merece mais rs).
    Adorei,
    Beijos

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  3. Muito verossímil! Tema descontraído e pertinente a fatos comuns em casamentos. Longe de provocar o riso gratuito, o texto é construído denotando crítica aos costumes, em panorama descontraído do dia a dia.

    Elisa, parabéns por conseguir usar poucas palavras e dizer muito de forma quase descompromissada, suscitando a comicidade “no” e “do” simples.

    Amei. E, olhe que tenho 51 anos de casamento e meu marido é treze anos mais velho. Beijos.

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  4. Só a intimidade de tantos anos juntos pode criar cenas como estas, em que os próximos passos já são previstos pelo marido ciumento. É interessante esse jogo. Ela está acordada, ele não sabe disso. Ela sussurra um nome e sorri. Ou foi fantasia dele. Ele não controla o sentimento, e o expõe, ela não não tolera o controle, ou isso era um plano para ficar uns dias fora e fazer as pazes depois. Estranhos rituais tão conhecidos e vivenciados por ele. Como se fossem atores em longas temporadas, as cenas se repetem ensaiadas tantas vezes. Ficou bem interessante e muito profissional. Parabéns, amadinha.

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  5. Uma cena de um casamento de 50 anos, com acontecimentos de despertar entre eles. Muito leve e divertido em alguns momentos, tema ótimo para um conto do cotidiano da vida a dois. Gostei das duas personalidades, mas que ciúmes desse Paulo, hein? O final, porém, faz entender que é um ciuminho rotineiro, nascido da insegurança dele, mais do que na confiança que ele tem da esposa. No final vai dar tudo certo, a escolha do local para onde Maria Helena vai confirma isso: o apartamento da praia. E ele sabe o que fazer, rs… E assim irão até o fim. O meu conselho para Paulo é que ele adote uma gatinha.

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  6. Tadinhoooooooooo! Maria Helena, não faz isso! 80 anos e ciumento não é para qualquer um! E o Fred? Bem… Buldogues franceses não sabem que são cães. Eles não têm noção disso kkkkk Sei bem porque tenho uma adorável sombra.
    Parabéns pelo texto.
    Um grande e carinhoso abraço.

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  7. Muito fluido, nem vi quando acabou!!
    Gostaria de passar mais tempo com estes adoráveis velhinhos.. entendo que eles dão um movimento à vida de casal deles desta maneira.. rsrs
    embora estes dramas tenham virado rotina, é melhor do que ficar contabilizando doenças o dia todo 😛
    Parabpens pelo conto, Elisa!

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  8. Maria Helena e Paulo formam um casal como tantos outros por aí, com suas características particulares e tratos implícitos. Paulo é ciumento, mesmo já idoso, Maria Helena prefere lidar com o cachorro. E apesar de tudo, do ciúmes, da briga e saída intempestiva da mulher, tudo parecia um protocolo do casal, o ritual de sempre, até que ela, enfim, retornasse e eles fizessem as pazes. Adorável conto, Elisa.Parabéns!

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  9. Oi Elisa,

    Mas que forte sotaque português, hein! rsrsrs (“Que não lhe correspondesse Maria Helena, a Paulo pouco importava”)

    Texto delicioso, lembrou-me meu pai e mãe. Eu os chamo de Casal TPM, pois ainda brigam assim, como um casal jovem. Acho isso nunca muda, não é?

    Além disso, ou talvez por essa proximidade com a vida real, o texto traz um quê de crônica, não sei se você repara nisso. Aqueles textos de Paulo Mendes Campos, Luis Fernando Veríssimo, que líamos em “Para Gostar de ler”, muito bom.

    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Elisa, um conto de aparência simples e até com um certo humor negro, porém dá margens a muita conversa. Eu amo isso. Adoro expor e provocar as contradições humanas. E para tal não é necessário textos complexos ou longos. Basta a sensibilidade para ser verdadeira. Essa relação estranha do casal de velhos é absolutamente real. Homem e mulher tendo impulsos de uma certa infantilidade dentro de carcaças pra lá de maduras. Adorei seu conto. Belo trabalho.

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  11. Querida, Elisa!
    Que conto adorável. E dele, uma história banal de ciúmes, se extrai outros tantos aspectos interessantes das relações humanas. No caso, uma ligação entre os dois que tem perdurado por meio século. A que preço? E é aí que nos aprofundamos nesse ritual comezinho do dia a dia do casal.
    Ao murmurar qualquer coisa (que ele toma como o nome de um homem), Maria Helena sente “um inequívoco sorriso de prazer”. Ela tem prazer em causar ciúmes. Para controlá-lo? E ele sabe do que tem de fazer para tê-la de volta, exatamente como das outras tantas vezes. Há um esboço de sado-masoquismo nessa união? Ele quer se sentir cuidado e ela quer se sentir admirada. Então, uam espécie de narcisismo também de insere. E aí temos outros aspectos psicológicos complexos para serem desvendados com o primor da sua literatura.
    Vc nos brinda com um conto magistral, desfiando de uma situação aparentemente banal todo um novelo de complexidades humanas. Adorei!!!!

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  12. Credo kkkkk Vou imprimir esse texto e ler toda semana para saber o que não fazer hahahaha. 50 anos e nada mudou, tenho medo disso. Muito medo. A rotina diária de um casamento é estressante, talvez seja essa uma brincadeira da mulher para sair um pouco da mesmice, todavia, parece que já se tornou também rotina. Bjs ❤ ❤

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